O trabalho que aqui é apresentado caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa e, nesse sentido, não tem a pretensão de atender às possíveis generalizações. No entanto houve a preocupação com uma abordagem que buscasse observar a complexidade do objeto analisado com base em aspectos verificados na realidade concreta da produção dos sujeitos envolvidos na pesquisa.
Por não ser um objeto estático no tempo, mas, antes disso, complexo e mutável, um modelo positivista centrado na pesquisa quantitativa não nos permitiria contribuir com uma pesquisa válida para o entendimento das categorias de análise aqui delimitadas.
Este estudo privilegiou uma abordagem que provoca a reflexão sobre a heterogeneidade constitutiva dos gêneros discursivos, buscou observar a dialogicidade, a polifonia e a intertextualidade presentes na construção e na desconstrução da leitura da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
A ruptura proposta pela descontinuidade do pensamento em rede, em teia, comum às atividades que têm como referencial a estrutura do hipertexto pressupõe a descontinuidade e promove a aceitação da não-linearidade e da hibridez.
O paradigma epistemológico da ciência clássica compreendia o conhecimento focalizado no fenômeno que era estudado, portanto esse conhecimento era considerado como pronto, acabado, concluído. O papel do estudioso era apenas lançar sobre seu objeto sua observação, apreendendo-o e assimilando-o. O desenvolvimento de pesquisa nesse modelo de ciência desconsiderava todo o processo de construção do conhecimento a partir da participação e de atuação dos sujeitos nesse processo, inclusive, do pesquisador.
Tal modelo de ciência passou a não atender mais aos aspectos da vida moderna. Em especial após as teorias de Einstein e Heisenberg, os princípios da relatividade e da incerteza “sacudiram” o modo como a humanidade produzia conhecimento. Correia Dias e Chaves Filho (2003, p. 39) informam que
O princípio da incerteza de Heisenberg e a lei da relatividade de Einstein são grandes contrapontos a essa visão positivista do mundo. Ao contestar os conceitos mecanicistas tradicionais de conceber o espaço como algo acabado e definitivo, esse novo paradigma sugere
um ponto de vista alternativo no qual o mundo passa a ser regido por interconexões, indefinidas e plurívocas.
É a partir daí que a nova ciência emergiu revelando a incompletude do mundo e de seus fenômenos, bem como a complexidade humana. O antigo paradigma da ciência clássica que buscava a valorização do indivíduo, da hierarquização e da sistematização perdeu espaço para uma abordagem holística que privilegia enormemente o coletivo. O homem é entendido na relação com o outro, com a sociedade, com seu contexto e a partir do outro se completa polemizando com ele seu mundo, suas convicções, seus princípios, suas normas e a sua realidade.
Rompendo com a separação entre o indivíduo e o sujeito social, o homem e a natureza, esse novo paradigma privilegia os processos de interação, admite a multiplicidade das interpretações, a heterogeneidade de discursos e as observações possíveis e busca leituras plurais sobre um mesmo objeto. Portanto trabalhar com a teoria bakhtiniana é compartilhar do mesmo entendimento sobre o homem social dialógico que fundamenta esse paradigma científico.
Mikhail Bakhtin, como se viu anteriormente, pesquisou e se dedicou a escrever sobre diversos assuntos, no entanto suas contribuições mais relevantes estão vinculadas aos estudos sobre a linguagem, em especial no que se refere ao uso da linguagem concreta, viva que ocorre a partir da produção dos enunciados.
Desse modo, utilizou-se, nesta pesquisa, o conceito bakhtiniano sobre dialogismo, que fundamentou as considerações a respeito da linguagem humana para o desenvolvimento do construto teórico que fundamentou a pesquisa e a análise dos dados.
Ao se optar pela perspectiva teórica de Bakhtin e trabalhar a Literatura de Graciliano Ramos, a partir de seu romance Vidas Secas, buscou-se sustentar uma coerência entre a teoria e a metodologia de trabalho.
O dialogismo, como característica constitutiva da linguagem humana, inaugurou uma concepção que aceita o diálogo entre culturas, o diferente. Ao se aplicar o conceito de dialogismo no universo educacional, vê-se como se manifesta a relação de alteridade existente entre os sujeitos que se apresentam no contexto escolar. Desse modo, pode-se contribuir para uma possível reflexão em torno da ruptura com algumas relações hierárquicas de poder e dominação que possam ocorrer em algumas atividades desenvolvidas pela escola.
Nesse sentido, trabalhou-se com as categorias que, a nosso ver, são fundamentais para a existência da dialogicidade nos moldes bakhtinianos: a intertextualidade e a polifonia. Procurou-se identificar como essas categorias
encontram espaço nas aulas de Literatura e em atividades hipertextuais desenvolvidas em oficinas voltadas para essa disciplina.
Foram analisadas as possíveis contribuições do hipertexto para a construção de um espaço interacional, no qual o aluno possa manifestar sua leitura, seu discurso e colaborar para o entendimento da hipertextualidade e suas potencialidades em salas de aula.
O corpus fundamentou-se em produções realizadas em sala de aula do Ensino Médio, na disciplina de Literatura, a partir da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos. As atividades que resultaram no corpus analítico atenderam ao pensamento rizomático próprio dos hipertextos. Os dados coletados permitiram observar a existência de um discurso autônomo, dialógico, polifônico e intertextual. As atividades de observação ficaram fixadas no contexto de sala de aula de uma turma de alunos que cursam o 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Frederico Pedreira situada na cidade de Palmas, Tocantins.
Partiu-se de um questionário que buscou detectar qual era a visão que os alunos tinham sobre a disciplina de Literatura e sobre as leituras de obras literárias já realizadas por eles.
Foi reunido um acervo de manifestações multissemióticas a partir da produção realizada por esses alunos em treze encontros de duas horas. As produções partiram da leitura e da interpretação da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Vidas Secas é um romance da década de 1930 que enfoca a trajetória de
imigrantes nordestinos que se retiram de sua casa, região em busca de melhores condições. A fuga é, sempre, motivada pela escassez da água. Há, nesse sentido, uma possibilidade de identificação dos alunos ainda maior com a leitura dessa obra, visto que Palmas é uma cidade relativamente jovem, com apenas 20 anos de criação e que tem com uma de seus maiores traços constitutivos a formação de uma população oriunda de diversas localidades do país, portanto, de certo modo uma população imigrante.
Para esta pesquisa, utilizou-se como intertexto o texto de Graciliano Ramos,
Vidas Secas, o principal instrumento para a realização de oficinas literárias cujo
material produzido disponibilizado em blogs permitiu uma análise como base de dados empíricos.
A análise dos materiais coletados foi realizada a partir das teorias de vista de Bakhtin, compreensão e a interpretação dos dados foram guiadas pelos conceitos bakhtinianos de polifonia, dialogismo e intertextualidade. Daí a justificativa para a reunião de vários tipos textuais, recortes que poderiam revelar as múltiplas vozes a partir do texto enfocado.
Não se tratou, neste trabalho, de revelar uma interpretação para a obra, mas de deixar que os alunos demonstrassem as suas experiências de leitura da obra literária, revelassem não só a abertura da obra para várias leituras possíveis, como também o dialogismo e a hipertextualidade possíveis a partir de uma obra considerada como clássica na Literatura brasileira e datada de 1936. Segundo Eco (2007), toda obra de arte é aberta a mais de uma interpretação.
As análises demonstraram o modo com que os textos e os hipertextos situam-se se contextualizam em diferentes condições, entre elas, o universo escolar e a significação produzida pelos alunos. Essa significação poderia ultrapassar a obra e a rigidez dos textos tidos como não hipertextuais.
Verificou como as produções dos alunos permitem que eles produzam um discurso autônomo e crítico a partir da sua experiência de leitura da obra graciliana. Desse modo, conceber a pesquisa a partir da perspectiva sócio-cultural implicou compreendê-la como uma relação entre sujeitos possibilitada pela linguagem, a pesquisa é vista, também, numa perspectiva dialógica. Para Bakhtin (2006), as ciências humanas se voltam para o estudo do homem, ser expressivo e falante.