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No presente trabalho além destacar o periódico científico como um dos principais veículos de comunicação formal da ciência, ressalta-se seu papel como fonte primária de informações históricas de uma área do conhecimento. É, portanto, um tipo de documento que apresenta algumas vantagens para uma investigação do desenvolvimento de uma comunidade científica. Dentre essas vantagens, podemos citar a possibilidade de análise de resultados de trabalhos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), trabalhos apresentados em eventos científicos, produção específica de laboratórios e centros de pesquisa e trabalhos de profissionais que não estão vinculados a instituições acadêmicas. Além disso, sua

regularidade propicia um acompanhamento mais próximo da produção da área em determinado período histórico.

Nesse sentido, como sugere Price (1963/1976), se considerarmos um documento como uma expressão de uma pessoa ou de um grupo que trabalha na execução de uma investigação científica, pode-se afirmar algo sobre a interação entre as pessoas a partir desses documentos. Portanto, pode-se dizer que periódicos científicos indicam fatores relativos ao desenvolvimento de uma comunidade científica em um determinado momento histórico e social.

A escolha do periódico como fonte principal para uma análise da produção de uma comunidade científica fundamenta-se, portanto, na crença de que essa forma de publicação constitui-se em um dos mais reconhecidos meios de comunicação e divulgação científica. De acordo com Alvarenga (1996), a comunicação científica via periódico científico é o meio formal mais utilizado e destacado em praticamente todos os ramos científicos desde que surgiu no século XVII por meios das primeiras sociedades científicas.

As duas primeiras revistas científicas surgem em 1665, a primeira, na França, Journal dês Sçavans, que tinha como objetivo fazer compilações sobre os principais livros publicados na Europa e notícias gerais sobre a ciência, ficou conhecida como a primeira revista de divulgação científica. A segunda revista foi Philosophical Transactions of The Royal Society of London, que tinha características mais acadêmicas, com publicações mais detalhadas e específicas de pesquisas realizadas em vários países da Europa (Meadows, 1999). Gonçalves, Ramos e Costa (2006) afirmam que, já nessa revista, são estipuladas as principais regras do periódico científico atual, como as funções do editor, conselho editorial e periodicidade.

Ainda sobre a revista científica, Cetto e Gamboa (1998) chamam atenção para o fato de que, no caso da América Latina, esse tipo de publicação é sustentado por associações

científicas e por Universidades. Diversamente do que ocorrem nos Estados Unidos e Reino Unido, onde se estima que 47% desse tipo de produção estejam nas mãos e são de responsabilidade de editoras comerciais, os publishers.

Não há uma definição precisa do que seja exatamente um periódico, mas há certa concordância de que se trate de uma publicação seriada, com um título contínuo, editado em intervalos regulares e, em alguns casos, irregulares, mas sempre inferior a um ano.

Um dos principais motivos que levam o artigo a ser considerado fonte de conhecimento na comunicação formal da ciência é o fato de ele passar por um processo de avaliação. Em geral, a aceitação e publicação de um artigo por uma revista científica se dá através de análise feita por uma comissão editorial e por um conselho editorial que tem como função emitir pareceres os quais indiquem a aceitação, aceitação parcial condicionada a modificações sugeridas pelos pareceristas ou não aceitação do artigo. Essa comissão é, em geral, composta por especialistas em diversos temas dentro de uma área científica. O processo pelo qual se dá essa avaliação é denominado de revisão de pares (peer-review). Nesse processo, que ocorre através do procedimento duplo cego, ou seja, os artigos enviados pelos autores e o parecer emitido pelos consultores ocorre sem a identificação entre ambos, de forma a tornar o processo o mais isento possível.

Contudo, isso não quer dizer que esse processo não apresente problemas. Os resultados apresentados por um clássico estudo realizado pela NFS (National Foundation Science), nos Estados Unidos, que investigou o sistema de peer-review na análise de projetos de pesquisa que concorrem à obtenção de financiamento, é um exemplo útil porque aponta alguns problemas que podem ser extrapolados para uma análise das questões que surgem, ao se discutir o sistema de revisão de artigos submetidos à publicação em periódicos científicos. (Cole, 1977, citado por Alvarenga, 1996).

Ao descrever esse estudo Cole (1977), citado por Alvarenga (1996), observa, primeiramente, que, no sistema de revisão por pares, os revisores são em muitas situações fortemente influenciados pela percepção inicial da qualidade dos trabalhos e não pelo status profissional do candidato. No entanto, no que diz respeito aos fatores relacionados à estratificação social e às dotações de recursos financeiros para as propostas, fatores esses supostamente influenciados pela “camaradagem” na avaliação por pares, poderiam ser identificadas as seguintes situações: a) pesquisadores com perspectivas semelhantes serão sempre favoráveis a trabalhos apresentados por investigadores com linhas de pensamento iguais ou próximas; b) pesquisadores colegas entre si que “cresceram juntos” ou freqüentaram a mesma universidade, utilizam-se de critérios fraternais nas avaliações e julgamentos; c) investigadores renomados tendem a favorecer seus pares na hierarquia da ciência, mesmo se não existe relação ou contato pessoal entre eles.

Conforme Alvarenga (1996), uma possível crítica a esse sistema seria a possibilidade de, em algumas situações, haver negligência na avaliação e julgamento da qualidade da proposta de renomados cientistas, o que acarretaria vantagens desses sobre cientistas novatos e menos reconhecidos pela comunidade científica. Essa situação configuraria no processo de produção do conhecimento científico a famosa hipótese do “rich get richer”.

Davyt e Velho (2000) salientam que o sistema de avaliação por pares em muitas situações ignora o papel fundamental da mudança na ciência. Isso acontece porque os pares avaliam os trabalhos a partir do pressuposto de que esses devem se adequar a determinadas regras da comunidade científica. Desse modo, a validade das próprias regras dificilmente é questionada. Isso acarreta, em muitos casos, a rejeição de trabalhos que questionam ou apresentam inovações em um determinado campo do conhecimento e/ou no campo dos próprios avaliadores. Outro problema decorrente desse processo é a possibilidade de

identificação do autor pelo consultor, em especial, quando a temática do trabalho envolve um número reduzido e conhecido de especialistas e algumas características pessoais do trabalho de determinados autores evidentes no trabalho.

O editor desempenha, nesse processo, papel principal, pois é a figura responsável pela dinâmica do processo de comunicação em uma revista científica. Envolve-se com todos os aspectos necessários para o funcionamento da revista. Questões financeiras, técnicas, administrativas, contato com autores e revisores, dentre outras funções. São, denominados, gatekeepers porque são responsáveis por intermediar uma série de relações entre autores, conselho editorial, consultores ad hoc, leitores, dentre outros atores envolvidos no processo ao mesmo tempo em que controlam o fluxo e organização dos trabalhos. (Youdeowei, 2001). Essa breve discussão e descrição do processo editorial da revista científica teve como função apresentar alguns possíveis aspectos envolvidos na produção de conhecimento veiculado na revista científica e como esses afetam seu funcionamento.

A partir das questões apresentadas acima, juntamente com o aumento significativo da produção de conhecimento científico e a organização científica no século XX, começaram a surgir pesquisas sobre o desenvolvimento e a avaliação da ciência. Sendo os periódicos científicos a principal fonte primária para a realização dessas pesquisas.

Davyt e Velho (2000) afirmam que a partir da consolidação e desenvolvimento do aparelho do estado, responsável pelo aumento de distribuição de recursos à ciência e tecnologia no período pós-segunda guerra mundial, surge o interesse de órgãos do governo em medir o desenvolvimento da ciência. Com isso, principalmente, a partir da década de 1960, instrumentos da própria ciência passam a ser utilizados para investigar a atividade científica. Segundo Price (1963/1976), com metodologias da história e da sociologia, nasce uma área do conhecimento que tem sido nomeada de “Ciência da Ciência”. Métodos, em geral

quantitativos, caracterizam os estudos sobre o funcionamento da ciência como fenômeno social nesse período. Essa área torna-se mais conhecida como cienciometria ou cientometria e tem como base a estatística e a sociologia da ciência, baseada, em princípio, nos estudos do sociólogo Robert Merton. Segundo Spinak (1998):

Los temas que interesan a la cienciometría incluyen el crecimiento cuantitativo de la ciencia, el desarrollo de las disciplinas y subdisciplinas, la relación entre ciencia y tecnología, la obsolescencia de los paradigmas científicos, la estructura de comunicación entre los científicos, la productividad y creatividad de los investigadores, lãs relaciones entre el desarrollo científico y el crecimiento económico etc.(p.142)

Grande parte desses indicadores é utilizada para medir a quantidade e o impacto das publicações em diversos campos. Várias críticas têm sido realizadas sobre esses indicadores, uma das mais correntes é que parte significativa do funcionamento da ciência não é descrita na literatura científica. Em defesa desses indicadores, é dito que, em muitos casos, principalmente naqueles em que esses indicadores não são utilizados para medir somente o nível de produtividade, eles conseguem de forma única associar quantidade à qualidade. Nesse sentido, a quantificação aponta para os aspectos qualitativos da produção de conhecimento em contextos e períodos específicos. Como, por exemplo, o aumento ou diminuição de pesquisas em determinadas áreas, a adoção e/ou abandono de metodologia e orientações teóricas, dentre outros.

2.4 Avaliação de periódicos científicos em psicologia no Brasil e possíveis relações com o