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2. Teori

2.1 Kommunens rolle, - selvregulerende enhet og planmyndighet

Públio(?) Cornélio Tácito, nascido em 56, provavelmente era natural da Gália Narbonense ou da Gália Cisalpina. Por ter sua origem não totalmente confirmada é difícil dizer sobre a sua formação erudita, ao contrário de Sêneca. Através de suas obras podemos entender a relação deste com o Principado. Nelas, o autor fala aqui e ali sobre suas experiências em cargos exercidos ao longo do governo dos Flávios, apesar de ter exercido alguns cargos também no Principado de Trajano.

Por meio delas, podemos ver que Tácito estava estabelecido em Roma desde o ano 75, onde exerceu interruptamente cargos no governo de Vespasiano, de Tito e de Domiciano. Em 88, teria ascendido ao posto de pretor e também ingressado em um importante colégio de sacerdotes, o colégio quindecimviri sacri faciundis. Entre os anos 89 e 93 provavelmente esteve longe de Roma, administrando cargos nas províncias ou acompanhando seu sogro, o general Cneo Júlio Agrícola. Esta estadia longe de Roma proporcionou a Tácito a oportunidade de angariar material para a escrita de duas de suas obras: Germania e Agricola. Em 97, Tácito foi cônsul suffectus e, provavelmente, tenha sido o procônsul na Ásia entre os anos 112 e 113. Também é possível ter o conhecimento que Tácito trocava cartas com dois outros autores deste mesmo período. Pelas Epistolas de Plínio, o Jovem, vemos que Plínio, Tácito e Suetônio trocavam cartas e tinham conhecimento da obra de cada um102. Estima-se que Tácito morreu em 118.

A primeira obra escrita por Tácito teria sido Agrícola (De vita Iulii Agricolae) composta em 98. Trata-se de uma biografia de seu sogro Cneo Júlio Agrícola, governador da Bretanha por sete anos, desde 77 (ou 78). O tema central da biografia taciteana sobre Agrícola é a campanha vitoriosa em monte Grapius. Essa obra de Tácito é mais do que uma simples biografia: é um manifesto contra a opressão dos méritos e da virtude no Principado. O autor comenta sobre o monopólio, por parte da casa imperial, de reconhecer os triunfos militares e como era perigoso se destacar mais que o

Imperador. A crise das representações, resultante do confronto entre a verdade dos fatos e a representação que a Domus Caesaris fazia dos fatos a partir de sua ótica, gera dois processos: o de exageração das vitórias e mesmo a fabricação destas. Para Sailor103, Tácito, em Agrícola, teria achado uma alternativa para este fator do monopólio conciliando realidade e representação. Em certa medida, essa obra de Tácito se preocupa com a representação e, consideravelmente, com a verdade, ligada à negação do triunfo ao Agrícola. Deste ponto, surgem duas questões: Se são negadas à elite e à não elite as honras pelo triunfo, o que as diferenciam? Se não existe mais o mérito pela honra, o que poderia motivar os membros da sociedade romana a se esforçarem pelo Império? Um dos pontos tocados pelo autor é a questão da virtude. Nesse momento do Império, o caminho para os homens ilustres mostrarem suas virtudes se mostra perigoso. Se mostrar mais virtuoso poderia despertar a desconfiança do imperador, de uma provável concorrência ao trono imperial.

Em uma seção do capítulo “Agrícola e a crise de representação”, Sailor apresenta como era fácil em outros tempos apresentar as virtudes para sociedade, e como era fácil produzir essa noção de representação. A ocorrência de virtudes é tão baixa, que Tácito abre mão de enaltecer as virtudes, tratando-as com uma “hostilidade positiva” já que pareciam vícios. Essa ambiguidade da escrita de Tácito permite apreender duas representações quanto às virtudes: ser hostil a elas, ou ser favorável. Essa ambiguidade cria uma ligação entre os principados de Domiciano e Trajano. Enquanto no primeiro vivia-se um tempo em que não se podia mostrar as virtudes, no outro isto era possível graças às mudanças de valores da sociedade. Ou seja, durante o principado de Domiciano ocorreria uma crise de representação. A passividade era comum nos tempos de Domiciano, onde as pessoas abriam mão do dom da fala.

No mesmo ano Tácito finaliza Germânia (De origine et situ Germanorum). Nesta obra Tácito descreve tanto as atividades públicas quanto as privadas dos povos germânicos, estabelecendo comparações explícitas entre os germânicos e a sociedade contemporânea romana, principalmente considerando aspectos morais. Essa obra é acima de tudo qualificada como uma obra de importância etnográfica, porque há um profundo estudo descrevendo cada tribo de origem germânica individualmente. É a

análise de um povo estrangeiro aos olhos de um romano. Muitas perguntas surgem quanto ao interesse de Tácito pelo povo germânico. Alguns estudos dizem que Tácito tinha um tio que teria sido procurador nessa região e que a partir dele pode recolher as informações necessárias para seu estudo. Um fator que teria despertado o interesse de Tácito pela Germânia foi a ocasião de uma eminente campanha do Imperador Trajano (98-117) nesta região. É muito provável que as informações tenham sido colhidas no período de 89 a 93 quando se ausentou de Roma, podendo as obter pessoalmente ou de segunda mão. O que possibilitou a Syme concluir o seguinte: “Se Cornélio Tácito alguma vez esteve no Reno, ele não dá nenhuma pista disto na Germânia”104.

Por volta do ano 102, Tácito finaliza sua obra Diálogo dos Oradores (Dialogus de oratoribus), que aborda o declínio da oratória principalmente no período de Domiciano. Essa obra possui um estilo diferente daquele empregado por Tácito nas suas demais obras: traz-nos este autor utilizando um estilo ciceroniano de oratória. Trata-se de um importante documento sobre literatura desse período do Principado, como afirma Goldberg105.

Por volta de 110, finaliza uma obra, para a qual vinha recolhendo materiais desde 106, segundo o testemunho de Plínio o Jovem (Plin. Ep. 6. 16 e 20). Essa trabalho ficou conhecido no século XVI com o título de Histórias (Historiae). O espaço temporal abrangido é de 69, após a morte de Nero e com início da Guerra Civil de 69, e até 96, com a fase final da dinastia dos Flávios. O assunto central dos três primeiros livros é a eclosão da Guerra Civil entre Galba, Otho, Vitélio e Vespasiano.. Muito dessa obra se perdeu, principalmente a parte que compreendia os principados dos Flávios. Mas, na parte que nos chegou, é possível observar que Tácito não apresenta a mesma hostilidade contra o Imperador Domiciano (81-96) que mostrara outrora em Agrícola. Para Sailor, já em Histórias pode se notar um amadurecimento de Tácito ao comentar sobre a tirania que foi se formando, até culminar no desfecho de Agrícola. Sailor aponta como a história da escrita de Tácito se confunde com a história política de Roma: mostrando as mudanças institucionais do Império, as revoluções que mudaram os poderes dentro da sociedade. Ao mesmo tempo, Tácito descreve a relação entre o historiador e o príncipe. Para Sailor, Tácito realizaria uma história da historiografia para explicar os motivos da

104 SYME, op. cit., pp. 126-127.

105 GOLDBERG, Sander. The faces of eloquence: the Dialogus de oratoribus. In: WOODMAN, A.J.

escrita de seu livro. Aponta a mudança de poder quanto à escrita da história que, a partir da batalha de Ácio, foi condicionada a uma pessoa: o príncipe e das res gestae deste homem. Na obra, nota-se que, a partir da instauração do principado, há uma troca da eloquentia e libertas, comuns na escrita da história antes da batalha de Ácio, pelo servilismo que passa a existir em relação ao imperador. Outro ponto que o autor levanta é que as biografias realizadas até então foram presas à adulatio. Nas Histórias, Tácito se livra da relação de poder entre súditos e imperador (caracterizada por uma relação de servilismo) removendo a figura de Trajano do prefácio.

A última obra creditada a Tácito é Anais (Ab excessu Divi Augusti) e teria sido escrita após as Histórias. Essa obra narrava os principados de Tibério, de Caio Calígula, de Cláudio e de Nero, mas não foi preservada integralmente, tendo sido perdido completamente o relato a respeito do principado de Calígula e partes dos demais. Não podemos precisar a data em que a obra foi finalizada, mas, possivelmente, graças a elementos da própria obra, especialistas consideram que teve fim por volta do ano 115. Segundo o próprio Tácito, a sua ideia inicial106 era se ocupar dos anos de Nerva e de Trajano, mas ele realiza a mudança de foco, abordando a dinastia Julio-Claudiana. Ninguém consegue afirmar o motivo dessa troca. Alguns levantam a hipótese de que Tácito teria se decepcionado com o Principado de Trajano, o que o teria levado a não citar o nome do imperador em sua obra. Mas, quando os especialistas debatem sobre as causas dessa descrença de Tácito no Principado de Trajano não obtém um consenso107. É certo que, se comparado ao período de Domiciano, a libertas desfrutada pelo Senado era muito maior nos tempos de Trajano.

Talvez outra explicação para esse regresso à dinastia Julio-Claudiana seja a dependência de sentido. Tácito teria achado vago citar certos nomes que participaram da crise de 69, sem mostrar as suas origens. Por isso a análise da abordagem dos principados anteriores, onde era possível ver todo o ramo familiar dos indivíduos, bem como seus cursus honorum. A mudança de foco também explicaria, na verdade, a compreensão de um problema maior:

106 TAC. His. I, 1.4

107 GONZÁLEZ, Julián. Tácito y las fontes documentales: Germanici Decernendis (Tabvla Siarensis) y

A mudança do foco se explica melhor como uma extensão dos interesses manifestados nas Histórias e é uma consequência do mesmo processo mental reconhecido nas extensas seções históricas de Agrícola ou na explicação política e histórica do declínio de certos gêneros de oratória oferecida em Diálogos dos Oradores. A oportunidade de pensar e falar com um desejo, ao menos em certos contextos, representava a possibilidade de corrigir o desequilíbrio que os tratamentos anteriores historicamente distorcidos haviam produzido. Artisticamente era o meio adequado para que o talento de Tácito distinguisse entre pretensão e realidade, e igualmente proporcionasse o complemento adequando às Histórias, que narravam igualmente a queda de uma dinastia.108

Voltando aos conteúdos preservados do texto de Tácito, chegaram-nos, com algumas lacunas: os seis primeiros livros – o Principado de Tibério – são os mais preservados; os referentes ao Principado de Caio Calígula foram todos perdidos; de Cláudio perdemos o período de 41 – sua ascensão ao poder – até 47 quando se inicia parte do livro XI, e por fim, de Nero perdemos o final do principado (há dúvidas sobre o número de livros dedicados ao principado deste imperador). Sailor, valendo-se de uma análise da obra Anais, de Tácito indica os perigos existentes em se escrever tal tipo de obra, e os recursos utilizados para demonstrar tal fato. Diante desse contexto, a obra Anais serve para nos convencer da existência de muitas dificuldades que rondavam a escrita do historiador, e do risco destas obras despertarem desconfiança ou indiferença no contexto imperial.