5.6 Kommunen som utviklar og behovet for nasjonal styring
5.6.1 Kommunen som utviklar
respeitam o vocabulário utilizado pelo entrevistado. O registro dos temas apresentados é de fundamental importância por duas razões: a primeira é tornar possível a realização da segunda etapa da entrevista – a fase de perguntas narrativas internas; e a segunda razão é garantir que a sequencialidade, princípio básico deste tipo de entrevista, seja respeitada na segunda fase de perguntas. O respeito pela sequencialidade significa que o pesquisador aceitará a ordem de apresentação dos temas como dada pelo biografado, garantindo que seu sistema de relevância seja preservado ao máximo.
A seguir, falarei acerca do processo de construção da pergunta inicial adotada na pesquisa aqui apresentada e, em especial, a pergunta como utilizada na entrevista com Maria.
4.1.2 Pergunta inicial no contexto desta pesquisa
Em um primeiro momento, a dúvida sobre qual seria a forma mais aberta possível de pergunta inicial para as entrevistas narrativas biográficas do projeto residiu em dois pontos: qual seria o foco temático adequado; e como não contaminar demasiadamente a apresentação do narrador com o sistema de relevância dos pesquisadores. Ou seja, como diminuir as chances de o entrevistado fornecer uma apresentação basicamente ligada ao que ele pensaria serem as expectativas dos pesquisadores. Afinal, o ponto chave de nosso interesse de investigação era o tema da violência, e como esta estava relacionada ao cotidiano das famílias moradoras das comunidades pesquisadas. Sabíamos que isto poderia trazer o risco significativo de obtermos dos entrevistados um número elevado de argumentações, ou seja, um discurso baseado em opiniões, e não em narrativas pessoais e biográficas. Além de empobrecer a apresentação inicial, o biografado estaria totalmente voltado para as expectativas do pesquisador em saber sobre os temas violência e infância. Algumas hipóteses acerca do que poderíamos obter como respostas a uma pergunta enfocada nestes eixos foram levantadas e ponderadas. Por exemplo: o entrevistado poderia, enquanto mãe/pai/cuidador, buscar fazer uma apresentação onde se defende enquanto ocupante deste papel, passando a apresentar um relato totalmente voltado para o que acha que são as características de um bom cuidador para os pesquisadores, abandonando, em parte, seu próprio sistema de relevância.
A resposta para o problema surgiu a partir da formulação de uma pergunta inicial que fosse condizente com aquele tipo intermediário apresentado pela autora Rosenthal (2004), fornecendo um enfoque temático, mas ainda assim perguntando por toda a história de vida do entrevistado. A partir daí, coube à equipe formular a apresentação do enfoque temático de
maneira a respeitar a condição de abertura da pergunta. A pergunta inicial foi concebida, ainda que com algumas variações de acordo com a situação de entrevista e cada pesquisador, da seguinte maneira:
Fazemos parte da equipe de pesquisa da PUCRS e estamos interessados em conhecer a vida de pessoas que vivem aqui na comunidade (e que são pais de filhos pequenos – se for o caso). Estamos interessados em toda a sua vida e da sua família, tudo o que você quiser nos contar desde o início até os dias de hoje. Temos todo o tempo que você precisar e, se necessário, podemos marcar outro encontro. Não iremos lhe interromper, iremos apenas tomar nota daquilo que você nos disser. Depois que você nos contar tudo o que quiser, faremos, primeiramente, algumas perguntas a respeito daquilo que você nos falou.
O resultado final consistiu na ideia de que a única maneira de delimitar um foco temático suficientemente aberto seria a de apenas qualificar o tipo de entrevistado em que estávamos interessados: morador da comunidade pesquisada e, se fosse o caso, pai ou mãe de crianças pequenas; além de deixar claro que também nos interessava a sua história familiar. Uma experiência específica de entrevista merece ser destacada.
Ao fazer esta pergunta para uma entrevistada, também moradora do Morro da Azaléia, prontamente esta respondeu-nos que não sabia o que falar e que preferia que eu lhe
fizesse perguntas em que eu “perguntasse o que queria saber”. Esta situação poderia ser usada
em defesa daqueles que, como Rosenthal (2004) em um primeiro momento, são adeptos a perguntas mais fechadas sob a justificativa de que o narrador não saberá o que falar e pedirá por um guia temático. A experiência mostrou que este argumento logo se dissolve se houver por parte do entrevistador uma naturalização desta dificuldade, acalmando o entrevistado e permanecendo em sua posição inicial de abertura. Em seguida ao pedido da entrevistada por perguntas fechadas, repeti que ela poderia contar tudo aquilo que sentisse vontade, e que estávamos interessados em sua vida desde o início e mesmo antes dela nascer, até os dias atuais. A entrevistada permaneceu em silêncio por alguns segundos, e pude perceber que ela buscava um ponto de partida para sua narração. Mesmo insegura no início, não demorou em que começasse a delinear uma narrativa completamente sua, sem a necessidade de incentivos verbais, apenas metalinguísticos – o olhar e as expressões faciais de atenção por parte das entrevistadoras.
Em relação à Maria, a pergunta inicial foi feita a partir dos moldes apresentados acima, como segue:
Entrevistadora 1: [...] então deixa eu explicar um pouquinho da pesquisa pra você.
A gente tá entrevistando famílias com crianças e a gente tá interessada em saber sobre a vida dos moradores da Azaléia, a gente tá interessado em saber sobre a vida
dos moradores da Azaléia. A gente tá interessado em tudo que você tem pra dizer sobre a sua história de vida. Você pode começar por onde você quiser.
Maria: Eu? Deus me livre.
Entrevistadora 2: Então, com certeza vai ser muito interessante. Maria: Vai ser triste.
Entrevistadora 2: E você fala o que- Mas você fala o quanto você quiser a gente
não vai te interromper, a gente só vai fazer algumas notas aqui aí no final da entrevista se a gente tiver-
Maria: Posso começar com o que? Meu nome? Entrevistadora 2: O que você quiser.
A partir daí, segue uma narrativa principal sem que haja nenhuma interrupção das pesquisadoras. A apresentação inicial, apesar do foco temático – foi evidenciado que estávamos interessados em alguém que é mãe e moradora da comunidade – é densa em narrativas e se estende desde a infância de Maria, passando pelas mais variadas situações que não necessariamente aconteceram na comunidade onde vive atualmente, até sua fase de vida atual. Mais uma vez, fica evidente que o tipo de pergunta parcialmente aberta ou totalmente aberta pode causar algum desconforto no entrevistado, já que deixa um campo vasto de possibilidades para que o sujeito escolha seus próprios caminhos biográficos. Entretanto, após um primeiro momento, evidencia-se a riqueza de detalhes que vão sendo conectados; tais conexões fornecerão, em algum grau, acesso ao sistema de relevância do entrevistado durante a reconstrução do caso, seus acontecimentos cotidianos, seu contexto familiar, suas construções subjetivas e compartilhadas, etc.
A seguir, apresento a segunda e a terceira fase do procedimento de entrevista narrativa biográfica, como utilizada por Gabriele Rosenthal. A segunda etapa é indispensável ao método e exige do entrevistador, mais uma vez, habilidades de escuta, atenção e envolvimento com aquilo que lhe é dito, pois deve aprofundar significativamente todos os temas citados pelo biografado em sua apresentação inicial. A terceira etapa, por sua vez, cede espaço àquilo que é estritamente do interesse do pesquisador, ou seja, permite que este aborde aquelas temáticas que foram omitidas pelo biografado, mas que são cruciais para a investigação em andamento.
4.1.3 Segunda e terceira fase da entrevista biográfica: perguntas narrativas e perguntas