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3. Vurderinger og erfaringer

3.2 Operative perspektiv. Surveyundersøkelsen

3.2.2 Kommunal forankring av 12k trainee

Por volta do século VII da Era Cristã, o mundo assistiria ao surgimento do Império Árabe-Muçulmano o qual deixaria marcas indeléveis na cultura da humanidade, notadamente no que concerne à Matemática.

Segundo relatos históricos, o início desse processo deu-se quando Maomé (570-632 d.C.), um rico mercador árabe, relatou ter tido, ao longo do ano 610, uma sequência de visões nas quais Deus (Alá para os árabes) comunico-lhe ser ele o seu único profeta, e o incumbiu de reunir sobre essa fé única todos os povos da Terra. Nascia então a religião muçulmana, ou islâmica, que teve como livro sagrado o

Alcorão (ou Corão), escrito por Maomé, contendo todos os ensinamentos que lhes foram repassados por Alá.

Cerca de cem anos após a morte de Maomé, seus seguidores além de reunir sob essa nova religião as diversas tribos árabes, antes dispersas, haviam construído um imenso império que se alongava do Oceano Atlântico até as fronteiras ocidentais da Índia, incluindo a Península Ibérica, as ilhas mediterrâneas, o norte da África e a parte do Oriente Médio que não pertencia ao Império Bizantino.

Dentre as mensagens de Alá registradas no Alcorão por Maomé, havia a admissão da possibilidade de conversão de povos por meio da força militar. E, inicialmente, durante esta rápida expansão vislumbrou-se uma aparência de que esta nova civilização não nutriria interesse, ou mesmo qualquer respeito, pelas diversas culturas dos povos conquistados, ou convertidos.

Como uma evidência, Boyer (1998, p.161) relata a seguinte estória contada sobre a Biblioteca de Alexandria, quando da conquista do Egito no ano de 641 d.C.:

Há uma lenda que diz que quando o chefe das tropas vitoriosas perguntou o que devia ser feito com os livros da biblioteca, foi- lhe dito que os queimasse; pois se estivessem de acordo com o Corão, eram supérfluos, se tivessem em desacordo eram pior que supérfluos. No entanto, as estórias de que os banhos por muito tempo foram aquecidos com fogueiras de livros queimados são sem dúvidas exageradas.

Contudo, esta aparência, talvez fruto do fato histórico comprovado da destruição da Biblioteca de Alexandria pelos árabes, não viria a estabelecer-se como uma realidade, já que nos séculos seguintes, esta civilização viria a destacar-se exatamente pelo interesse e profundo respeito para com a cultura dos povos conquistados.

Talvez devido ao enorme território ocupado pelo império, este foi dividido em dois califados, estrategicamente localizados, próximos aos seus limites ao leste e ao oeste. O primeiro, sediado na idade de Córdoba, na atual Espanha, e o seguindo, na cidade de Bagdá capital do atual Iraque.

Foi no califado de Bagdá que haveria o início do processo que determinaria, para sempre, a relevância da contribuição árabe-mulçumana à cultura da humanidade. Três dos seus califas pertencentes à dinastia Abássida, al-Mansûr, al-Rashid e al- Mâmûn, erigiram a Casa da Sabedoria, um centro de estudos, pesquisas e de

preservação cultural, que funcionou durante alguns séculos nos moldes da Academia de Platão e da Biblioteca de Alexandria.

Eves (1997, p.260) ao comentar este período nos informa:

Foi de importância fundamental para a conservação de grande parte da cultura mundial a maneira como os árabes se apoderaram do saber grego e hindu. Os califas de Bagdá foram governadores esclarecidos e muitos deles tornaram-se patronos da cultura e convidaram intelectuais eminentes para se instalarem junto às suas cortes. Inúmeros trabalhos de Astronomia, Medicina e Matemática gregas foram laboriosamente traduzidos para o árabe e assim preservados até que posteriormente, intelectuais europeus tivessem condições de retraduzi-los para o latim ou outras línguas. Não fora o trabalho dos intelectuais árabes e grande parte da ciência grega e hindu se teria perdido irremediavelmente ao longo da Baixa Idade Média.

Em tal contexto favorável foram traduzidas, do grego para o árabe, relevantes obras de Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), sob a supervisão de eruditos muçulmanos como o polímata persa al-Kindi (361-873 d.C.) e o teólogo cazaque al-Farabi (372-950 d.C.), que passaram a fazer parte do acervo da biblioteca da Casa da Sabedoria.

Inevitavelmente, o próximo passo viria a ser o surgimento de intelectuais que gravariam seus nomes na história da humanidade como autores de obras marcantes.

Na Filosofia podem ser lembrados pelo menos três desses intelectuais. O primeiro seria o uzbeque Ibn Sina (980 – 1037 d.C.), mais conhecido no mundo ocidental como Avicena, que é considerado o criador da abordagem Aristotélica- Árabe nos estudos da metafísica. O segundo seria o cordobês Ibn Rushd (1126-1198), mais conhecido no mundo ocidental como Averróis, responsável pela utilização da abordagem criada por Avicena nos estudos em Filosofia da Religião. E o terceiro seria o também, cordobês Moisés-Maimônides que era filho de uma família judia, tido como o introdutor da abordagem Aristotélica-Judaica nos estudos em Filosofia da Religião.

O interesse dos árabes pela tradução de textos matemáticos, não foi menor. Kline (2012, p.259) ao reportar-se a este tema assevera:

Todos los trabajos que tenían una gran importância eran accesibles para ellos. Los bizantinos les proporcionaran uma copia de los Elementos de Euclides alrededor del año 800 y los tradujeron al árabe. La Sintaxis Matemática de Ptolomeo fue traducida también al árabe el año 827 y se convirtió em un libro fundamental, casí divino, para los árabes; era

conocido como el Almagesto, que significa el libro mayor. Tradujeron también el Tetralibros de Ptolomeo y este libro de astrologia fue popular entre ellos. Con el tiempo fueron acessibles en lengua árabe los trabajos de Aristóteles, Apolonio, Arquimedes, Héron y Diofanto y las obras índias.

Uma decorrência natural da seriedade com a qual os árabes-muçulmanos, daquela época, tratavam suas traduções de textos matemáticos gregos e hindus, foi o surgimento de grandes matemáticos que se notabilizaram por estas traduções, ou mesmo por obras de suas autorias.

Devem ser citados: al-Khowarizmi (viveu entre os séculos XIII e IX) autor de um livro de aritmética, sobre o sistema de numeração decimal posicional hindu, publicado em 810, e de um tratado de álgebra, publicado em 825, que teria grande repercussão nos séculos seguintes; Tâbit Ibn Qorra (viveu no século IX) autor de traduções completas dos Elementos de Euclides e das Seções Cônicas de Apolônio; Abû’l-Wefâ (viveu no século X) autor de uma tradução completa da Aritmética de Diofanto; e Omar Khayyam (viveu entre os séculos XI e XII), que embora seja mais reconhecido como o autor da primorosa obra literária Rubaiyat, foi também um grande matemático com relevantes contribuições à álgebra.

Dentre estes, talvez al-Khowarizmi tenha sido aquele que teve mais influência na Matemática do Ensino Médio hoje lecionada. Como séculos depois seu livro de aritmética foi traduzido do árabe para o latim, pode ser que o termo latino algarismo para referir-se aos caracteres hindus 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 seja relacionado ao seu nome al-Khowarizmi. De forma similar o termo latino álgebra pode ser herdado das seis primeiras letras do título em árabe para seu tratado sobre o assunto: Al-jabr wa’l-mugâbalah.

Todavia, Boyer (1998) ao comentar seu trabalho revela que a importância deste texto, não se restringe a sua influência etimológica, mas alcança também sua didática e seu conteúdo:

Os seis casos de equações dados acima esgotam as possibilidades quanto a equações lineares e quadráticas que têm uma raiz positiva. A exposição de al-Khowarizmi era tão sistemática que seus leitores não devem ter tido dificuldade para aprender as soluções. Nesse sentido, pois, al-Khowarizmi merece ser chamado “o pai da álgebra”. [...]. (BOYER, 1998, p.157).

A partir do século XIII inicia-se o declínio da civilização árabe-mulçumana. As cruzadas empreendidas pelos cavaleiros cristãos europeus, para recuperar

Jerusalém, desgastam o império em um de seus símbolos. Assolados ao norte pelos bizantinos, ao leste pelos mongóis, ao oeste pelos reinos cristãos da Península Ibérica, e por múltiplas divisões internas em consequência de interpretações divergentes do Alcorão, o império se dividiu entre vários reinos e nações, perdendo dessa forma sua unidade que talvez fosse o mais forte sustentáculo dessa civilização.

Todavia, o legado desta civilização para a humanidade é inequívoca. Vários autores como Eves (1997); Ifrah (1997); Boyer (1998) e Kline (2012) registraram a qualidade e a precisão das suas traduções do grego e do hindu para o árabe. As obras foram traduzidas em sua integralidade, com rigor e fidedignidade. Não são encontradas subtrações, alterações ou versões dos conteúdos originais. Os estilos distintos, grego e hindu foram preservados. Tal empreendimento deve ter exigido que os tradutores fossem intelectuais portadores de uma clara e profunda compreensão dos conteúdos traduzidos.

Ifrah (1997, p.337) ao comentar a contribuição da civilização árabe- muçulmana à humanidade aponta uma originalidade singular:

Antes, e numa etapa inicial do Islã, havia uma ciência grega, uma ciência persa, uma ciência indiana, uma ciência chinesa etc., ciências que malgrado o parentesco de suas preocupações essenciais, conservavam cada uma sua especificidade e sua maneira singular de tratar os problemas, eram tributárias de certas contingências políticas, filosóficas, místicas e até mesmo mágicas ou divinatórias. Noutras palavras antes do Islã, não existia, como atualmente, uma ciência universal que perseguisse seu desígnio, acima das contingências de todas as naturezas e além de todas as fronteiras.

Portanto, enquanto a Europa no mesmo período temporâneo passava por um momento histórico comumente designado Idade das Trevas, em virtude de uma estagnação científica, a civilização árabe-muçulmana preservava em sua língua materna o conhecimento filosófico e científico da época, disponibilizando à humanidade, talvez pela primeira vez, o exemplo de uma ciência com caráter universal.

E os árabes, como visto anteriormente, não empreenderam tal processo apenas como simples leitores, meros expectadores, ou apenas copiadores. Ao contrário, apropriaram-se, dominaram e fizeram contribuições aos conteúdos que lhes chegaram às mãos. E ainda o fizeram de forma ética, concedendo todos os créditos aos diversos autores das obras que por eles foram traduzidas. Caracterizando-se, dessa forma,

como uma civilização que ao nutrir um profundo respeito pelo conhecimento, conseguiu apreendê-lo, preservá-lo e divulgá-lo.