Indo finalmente aos argumentos, temos que o primeiro argumento (PUNTEL, 2008, p. 548) consiste em mostrar a arbitrariedade com que se assume o pressuposto do abismo radical entre mente e mundo. Puntel (2008) argumenta que não há como justificar o recuo da fonte de sentido para dentro da dimensão do sujeito da maneira como ele tem ocorrido nas propostas filosóficas pós-kantianas e da maneira como é realizado ainda hoje. O autor afirma que não existem vantagens em encarar somente as nossas estruturas conceituais e teóricas como a legislação, palavra inspirada por Kant, a que a natureza deve se submeter, em vez de assumir que se pode apreender e articular o próprio mundo ou as coisas mesmas (PUNTEL, 2008, p. 500).
Os que afirmam o abismo poderiam responder a Puntel que, considerando os nossos conceitos como ponto de referência fundamental, tem-se a vantagem de se poder explicar os enunciados científicos ou as teorias científicas como possibilitadoras ou proporcionadoras apenas de “prognósticos seguros”. Entretanto, Puntel (2008) redargui perguntando-se como seria possível que esses prognósticos seguros sejam feitos se justamente não se apreende nada daquilo que objetivamente é o caso no mundo, mas apenas impomos à natureza o nosso aparato estrutural subjetivo. É preciso que se explique, portanto, como as coisas mesmas são consideradas e influenciam os prognósticos. Contudo, segundo Puntel (2008, p. 500), aqueles que assumem essa postura radical não são capazes de explicar isso.
Por fim, Puntel (2008) aponta que todas as tentativas de realizar esse “recuo” incorrem no mesmo erro fundamental: pressupõem que tanto é possível quanto imprescindível considerar a dimensão da subjetividade como o ponto de referência absoluto que determina todo o conhecimento em última instância. O abismo nada mais é do que a direta consequência desse pressuposto arbitrário.
O segundo argumento (PUNTEL, 2008, p. 548), que advoga a favor da falta de coerência na assunção da existência do abismo, consiste no fato de que o nosso modo normal de tratar “o mundo” bem como empreendimentos como a ciência e a filosofia seriam sem sentido caso houvesse o abismo, porque assim continuaríamos presos em nossa subjetividade, de maneira que nossa fala sobre o mundo seria uma mera projeção sem lastro ontológico de nossas representações subjetivas.
Pode-se explicitar essa incoerência existente dentro das próprias propostas filosóficas (PUNTEL, 2008, p. 488-489), decorrente de assumir a subjetividade como ponto de referência absoluto, da seguinte maneira: não é filosoficamente possível a tematização da
diferenciação epistêmica “para nós – em si”, a cesura entre mente e mundo, pois, caso ela fosse tematizada, estaríamos falando do próprio abismo, o que não pode ser feito no quadro dele mesmo, já que essa tematização abrange os dois lados. Dessa forma, revela-se a “insustentabilidade” da tese do abismo.
Um exemplo clássico de incoerência dentro da própria proposta filosófica, devido às consequências de uma afirmação radical do abismo, encontra-se em Kant (2001). Se a proposta filosófica kantiana possuísse realmente uma validade universal (o que significa que não teríamos acesso a nada que fizesse parte da realidade em si mesma), os próprios enunciados do filósofo na Crítica da razão pura ou não seriam possíveis ou seriam incorretos, uma vez que não seriam capazes de descrever a estrutura do espírito humano “em si mesma”, mas somente a sua “aparência”. Contudo, os enunciados feitos por Kant na obra citada reivindicam descrever e articular a “estrutura em si mesma” do sujeito transcendental.
Para complementar, pode-se mostrar, no caso daqueles que advogam que é possível que exista ao menos um reduto da realidade que não seja expressável, a incoerência dessa posição apontando para o fato de que o simples ato de caracterizar esse reduto inacessível como “inacessível” já significa, aos olhos de Puntel, um mínimo conhecimento sobre ele, portanto ele seria minimamente acessível.
O terceiro argumento utilizado por Puntel (2008, p. 201-202) é o de observar a dimensão pragmática do uso dos termos “ideia reguladora” e “representação” associados à definição de totalidade do ser. Se o conceito de totalidade do ser fosse apenas uma ideia reguladora ou uma representação, como se poderia explicar o fato de que nós, enquanto falamos de representação ou ideia reguladora, pressupomos justamente já sempre termos compreendido a diferença entre o termo “totalidade do ser” como representação e o mesmo como algo outro, algo não representação, não ideia regulativa? Se nunca tivéssemos captado, mesmo que implicitamente, a totalidade do ser, o nosso discurso sobre “conceito”, “ideia regulativa”, “representação” não teria sentido. Além disso, se somos capazes de captar, mesmo que implicitamente, a totalidade do ser, o mundo em si mesmo, então, é sinal de que somos capazes de atravessar tal abismo.
Em outras palavras, o terceiro argumento concentra-se no fato de que, dentro do próprio conceito de ideia reguladora, já está a definição, em seu polo oposto, de mundo, realidade mesma. Não se poderia falar de ideia reguladora e mesmo de conceitos se não se já tivesse intuído e captado algo que pertence ao mundo mesmo, para só depois estarmos aptos a fazer a diferenciação sobre o que é a coisa mesma e o que é apenas a representação/ideia reguladora/conceito referente à coisa mesma.
O quarto argumento (PUNTEL, 2008, p. 548) é o da direcionalidade da linguagem às próprias coisas, e não ao sujeito que emite a sentença. Em todas as nossas falas estritamente teóricas, as sentenças são organizadas de maneira a falar sobre algo do mundo, sem explicitarmos frequentemente quem fala aquilo que está sendo dito. Tanto a intenção fundamental quanto a estrutura básica de sentenças na linguagem cotidiana ou na linguagem científico-tecnológica se voltam para o mundo, e não para o sujeito. Isso deve servir de evidência de que, se realmente não se conhecesse nada do mundo, na nossa linguagem natural deveria estar patente essa ignorância na forma de alguma ênfase sobre o sujeito que afirma, em vez de termos a explicitação do objeto do mundo.
Puntel (2008), ao longo de sua crítica à semântica composicional, chega à conclusão de que, apesar de na linguagem cotidiana a sintaxe da mesma não apresentar essa forma, a estrutura semântica possui a seguinte forma: “(X) é o caso que Y”. Nela, a partícula “(X)” é a indicação não específica universal do mundo em seu todo, a partícula que sinaliza justamente a dimensão da linguagem universal, e “Y” é algo que é o caso no mundo (PUNTEL, 2008, p. 536-539). O argumento do autor para sustentar essa afirmação inicia observando que, em muitas línguas ocidentais, como no inglês, no alemão e no francês, ocorre uma partícula linguística quando se utilizam verbos impessoais no início da sentença. No inglês, utiliza-se “it”; no alemão, “es”; e, no francês, “il”.
Mesmo em línguas ocidentais, como o português, em que não há uma tal partícula antes de verbos impessoais, como, por exemplo, a expressão “Chove.”, essa partícula é tacitamente pressuposta. Para indicar esse fato, sugere-se que se reescrevam as expressões em português da seguinte maneira: “X faz calor”, “X chove”, em que o “X” representa essa partícula pressuposta.
Assim sendo, Puntel (2008) sugere, de forma ousada, aproveitar-se da acirrada disputa que há no campo linguístico a respeito da interpretação dessa partícula, concebida por alguns como expressão linguística da existência ou atuação de forças impessoais e por outros como pura palavra formal ou sujeito aparente, e interpretá-la como possuindo uma função e um significado específicos: ser uma indicação linguística não específica do mundo em seu todo (PUNTEL, 2008, p. 538).
Por fim, dentro do contexto da filosofia sistemático-estrutural, a maneira mais adequada de interpretar essa indicação não específica é justamente reconhecer que nela o mundo mesmo se reveste de linguagem, no sentido não metafórico de expor a si. Assim, o mundo mesmo se expõe mostrando sua estruturalidade.
3.2.6 O quinto argumento a favor da factibilidade da superação do abismo: a efetiva