De um modo geral, a informação é vista como um elemento que não ocupa espaço; sempre se ouviu dizer que ‘o saber não ocupa lugar’. Por outro lado, a informação poderá também ser vista como algo que está em constante movimento no espaço, e que perde todo o seu sentido se estiver imóvel “... informação que não está em movimento deixa de existir como tal, passando a ser considerada unicamente como potencial...” (BARLOW, J.P. 1994:7). A difusão ou movimento da informação depende do movimento de objectos ou entidades: independentemente da informação ser transferida, ela poderá permanecer, ainda assim, na posse do seu emissor original ou no mesmo lugar. Assim, o seu impacto nos espaços poderá ser potencialmente diferente, quando comparado com entidades que, quando se movem, deixam de estar na sua localização inicial.
Em termos de localização, a informação foi definida por LATOUR (1987:243), como um compromisso entre presença e ausência, uma vez que ela representa (de facto) algo, mas não ocupa um espaço físico. Comunicar ou transmitir a informação passa assim pela presença do emissor ou pelo espaço por ele ocupado. A transmissão da informação pelo espaço pode assim sofrer grandes modificações, devido às diferentes interpretações a que
poderá estar sujeita, quer por parte dos emissores, quer por parte dos receptores. Estas reflexões sobre o comportamento da informação no espaço servem para realçar três importantes aspectos geográficos da informação: produção, distribuição (difusão ou disseminação) e consumo. Todos estes aspectos não são novos nem apareceram apenas com as tecnologias de informação. Estas serviram apenas para alterar a escala e o modo de produzir, distribuir e consumir a informação, bem como modificar a sua velocidade de transmissão.
A produção de informação difere de lugar para lugar e depende em grande parte do tipo de actividades económicas que neles se desenvolvem. Assim, lugares com determinadas actividades económicas têm mais potencial para a concentração informacional. Uma vez que o desenvolvimento da indústria e dos serviços teve as suas raízes muito antes da revolução das tecnologias de informação, será, à partida, mais fácil criar factores diferenciadores para a produção de informação. Essa diferenciação pode ser ainda maior, em termos de produção de conhecimento, com apenas alguns lugares a dominarem todo o mapa mundial da produção tecnológica. Se a essa vantagem inicial, se juntar a existência de pólos universitários e/ou de investigação aplicada, o potencial poderá ser ainda maior.
A produção, a distribuição e o consumo da informação e do conhecimento também podem variar de lugar para lugar, de acordo com as semelhanças ou diferenças socio-culturais entre o emissor e o receptor. Esta questão tem a ver com aspectos como a linguagem, o nível educacional, o bem estar social ou a qualidade de vida dos indivíduos, que funcionam como factores fortemente condicionantes.
A dimensão espacial da informação e do conhecimento é muito importante, mas é também muito complexa. A sua concentração e/ou dispersão dependem de um conjunto de elementos, cujas geografias da produção, das redes e dos padrões de consumo são fortemente influenciadas pelo contexto económico, social e cultural do espaço em análise.
Parece assim obvio que, inerente à dimensão espacial da informação, está sempre a sua distribuição, difusão e/ou disseminação. No entanto, e uma vez que esta tese não aprofunda a distinção entre estes três conceitos, seria talvez incorrecto o seu uso indiscriminado. Face à opção de utilizar, preferencialmente, apenas um dos conceitos, a escolha recaiu sobre a “disseminação”.
Este conceito (associado à informação) será utilizado durante esta tese, como sinónimo dos conceitos distribuição, difusão e propagação, numa tentativa de acentuar uma conotação que, parece ser, mais geográfica.
Antes de definir o conceito de “disseminação da informação”, importa referir a complexidade dos elementos envolvidos: a cultura, a educação ou o contexto económico em que se encontram emissores e receptores; a motivação individual e das organizações, bem como os respectivos objectivos; e o acesso e a formação ao nível das tecnologias de comunicação. Todos eles contribuem e determinam a natureza, a acessibilidade e o entendimento da referida informação.
Na tentativa de reduzir essa complexidade, cai-se, muitas vezes, no processo inverso, simplificar exageradamente ou omitir, os elementos já referidos.
Tendo em conta, por exemplo, a disseminação da informação, apenas do ponto de vista do emissor e do receptor da informação e da sua eficiência, há que ter em consideração, aspectos como:
• A noção exacta sobre o tipo de informação pretendida por parte dos receptores; • A percepção exacta do emissor, sobre o tipo de informação que lhe é solicitada; • A capacidade de disponibilização por parte do emissor, da informação que é
solicitada;
• A qualidade dos canais de comunicação; • A clareza e a qualidade da informação;
• A capacidade de interpretação da mensagem quando recepcionada; • A escolha de diferentes fontes de informação por parte do receptor;
• A capacidade de filtragem e/ou de análise de informação contraditória por parte do emissor;
• A qualidade dos recursos físicos e humanos para o envio e para a interpretação da informação.
A vastidão do tema implicaria a abordagem de aspectos da disseminação que fogem ao âmbito desta tese, como por exemplo o custo, a escolha de canais e dos media apropriados, bem como a sua qualidade e eficiência, a definição do público-alvo, o impacto da informação, etc.
Assim, “disseminação de informação” deverá ser, neste trabalho, entendida (apenas) como a função de distribuir a informação aos indivíduos de um território, quer através de
documentos imprimidos, quer pela via digital, ou quaisquer outros suportes de media,
Ainda em relação ao conceito, existem autores (HERNON, P.; McCLURE, C.R. 1992) que reconhecem a importância dos Governos no processo de disseminação de informação, argumentando que a mesma deverá abranger mais do que uma simples disponibilização de informação, devendo implicar também acções como anunciar, circular, comunicar, difundir, publicitar e publicar.
BOURTON (2001) argumenta que a identificação dos “elos mais fracos” no processo de disseminação da informação é essencial para perceber as necessidades dos info-excluídos e definir as estratégias, os sectores prioritários e os programas Governamentais que permitam ultrapassar os constrangimentos informacionais do território e de quem o habita.
Segundo a Comissão Europeia (DGXIII, 1998:6) são quatro as razões para disseminar a informação (em função dos benefícios para quem a dissemina e para quem a recepciona, acrescentando-lhe valor):
• O juízo/critérioIopinião – A informação é disseminada na esperança que indivíduos
e entidades possam aumentar o seu nível de conhecimento e consequentemente ajuizar melhor uma situação futura;
• A sabedoria – A informação é disseminada de modo a aumentar os níveis de
educação ou para explicar um conceito ou uma ideia;
• A resposta – A informação é disseminada também com o objectivo de causar um
determinado feedback; esse, poderá ser depois utilizado para influenciar uma
decisão, para validar um raciocínio ou para reforçar uma ideia;
• A colaboração - A informação é também disseminada de modo a que se possa partilhar conhecimentos, utilizando redes de comunicação.
De acordo com estas razões, importa reflectir também sobre a questão da procura da informação. Esta deverá ser tanto mais fácil, quanto maior o seu grau de disseminação.
Antes da revolução das TIC e em particular, do aparecimento da Internet, a informação era
mais difícil de obter, pois o seu grau de disseminação era menor. Procurava-se informação em suporte analógico, nas bibliotecas, centros de documentação, Universidades, etc.; a pesquisa e a sua obtenção baseavam-se em pedidos (mais ou menos) formais às entidades produtoras responsáveis. No entanto, a informação apesar de já organizada, era difícil de obter. A diferença residia também no tempo que mediava entre a formalização do pedido e a disponibilização da informação.
A ‘Era da Informação’ veio alterar por completo esta aproximação. Actualmente ela é diariamente carregada num servidor que, instantaneamente a disponibiliza para todo o
mundo. Para todo o mundo, com capacidade tecnológica para lhe aceder. No entanto, essa diferenciação também já acontecia, antes do advento da ‘Era da Informação’.
Que a disseminação da informação se processa de forma diferenciada no território, não será propriamente uma novidade. O que importa conhecer são os factores que induzem essa diferenciação. A análise da geografia dos territórios, nas suas mais variadas vertentes será, porventura, apenas um dos factores. Como se poderá constatar durante esta dissertação, são muitas as ‘geografias’ responsáveis pelos fluxos de informação gerados por todo o mundo. E esses fluxos são a projecção da informação e do conhecimento do ser humano.
Uma vez que a informação e o conhecimento, (aparentemente) não ocupam espaço, parece difícil perceber o seu lugar na ciência geográfica. A identificação dos seus fluxos e a procura de padrões espaciais que ocorrem durante a sua distribuição, podem tornar-se particularmente difíceis, dificultando também a tarefa do investigador. No entanto, a busca de variáveis que permitam encontrar respostas para estes novos elementos a ter em conta na geografia, deverá ser constante, uma vez que a todo o momento se dissemina informação e se cria novo conhecimento.