As características dos doentes e a possível relação que possa existir entre essas características e o grau de adesão ao tratamento tem sido amplamente estudada, produzindo, no entanto, resultados díspares que podem variar consoante as metodologias utilizadas (Cluss & Epstein, 1985; Conrad, 1985).
Por exemplo, a variável género, apesar de ser frequentemente avaliada, não tem demonstrado uma relação consistente com o grau de adesão (Vermeire et al., 2001).
Relativamente às PPG, o género não tem sido associado com a adesão (Fenton, Blyler & Heinssen, 1997), embora, num estudo desenvolvido por Smith et al., 1997, os doentes do género masculino tivessem tido menor adesão em comparação com as mulheres, num programa de treino de competências para doentes com esquizofrenia crónica após recidiva. Nos trabalhos desenvolvidos por Staring (2005; 2010), também na área da saúde mental, não foram registadas relações directas entre o grau de adesão e a variável género.
Em relação à idade, também os resultados se têm vindo a revelar algo contraditórios, com vários estudos a sugerirem que a idade pode não constituir um preditor para a falta de adesão ao tratamento (Rathod et al.,2005; Tsang et al., 2009). Aliás, os índices de cumprimento podem ser similares ou até mais elevados nos doentes idosos em comparação com faixas etárias jovens (Horne, 2001; Hughes, 2004; Vik, Maxwell, & Hogan, 2004), uma vez que na população mais jovem a falta de supervisão, a maior autonomia, a auto-imagem e as influências sociais têm um papel importante e provocam frequentemente uma diminuição da adesão (Bugalho & Carneiro, 2004; WHO, 2003), inclusive nas PPG (Hill et al., 2010; Alvarez-Jimenez et al., 2012; Addington et al., 2013).
Beck et al., (2011) procuraram explorar de que forma é que os factores sociodemográficos e clínicos interagem com o perfil de adesão em doentes com PPG. Os autores concluíram que o conhecimento sobre eventuais factores de risco sociodemográfico não traz um contributo claro e, sobre o impacto que este tipo de factor poderá ter na adesão dos doentes, acrescentam que deverá ser antes feita uma análise individual cuidadosa que permita definir com rigor o perfil clínico e sociodemográfico de cada doente, de acordo com as atitudes e crenças relativas ao tratamento e à doença.
De qualquer modo, existem factores socioeconómicos que têm sido referidos como preditores importantes para o grau de adesão dos doentes. Por exemplo, o baixo nível de escolaridade, mas sobretudo o baixo rendimento, o desemprego ou a falta de estabilidade no emprego podem constituir barreiras significativas em termos de adesão ao tratamento nas PPG (Marcotte et al., 2001; Chabungbam et al., 2007).
A Tabela 6 apresenta o efeito de alguns factores demográficos na adesão ao tratamento nas PPG (*), onde se integram, concomitantemente, trabalhos desenvolvidos em outras doenças crónicas.
Tabela 6. Estudos sobre o feito de factores demográficos na adesão
Factor/Variável
Referência
Aumento da adesão Diminuição da adesão Sem efeito Idade (idoso) Norman et al., 1985
Schweizer et al., 1990 Shea et al., 1992 McLane et al., 1995 Shaw et al., 1995 Monane et al., 1996 Buck et al., 1997 Viller et al., 1999 Sirey et al., 2001 Horne, 2001 Kim et al., 2002 Senior et al., 2004 Hughes, 2004 Hertz et al., 2005 Vik et al., 2004 Okuno et al., 1999 Benner et al., 2002 Balbay et al., 2005 Lorenc & Branthwaite,1993 Menzies et al., 1993 Wild et al., 2004 Wai et al., 2005
Idade (meia idade) Iihara et al., 2004
Idade (jovem) Buck et al., 1997
Neeleman & Mikhail, 1997 Leggat et al., 1998 Kyngas, 1999 Loong, 1999 Siegal e Greenstein, 1999 Nosé et al., 2003 * Etnia Caucasiana Minorias Didlake et al., 1988 Sharkness e Snow, 1992 Turner et al., 1995 Raiz et al., 1999 Thomas et al., 2001 Yu et al., 2005 Schweizer et al., 1990 Monane et al., 1996 Leggat et al., 1998 Benner et al., 2002 Apter et al., 2003 Opolka et al., 2003 Spikmans et al., 2003 Butterworth et al., 2004 Kaplan et al., 2004 Dominick et al., 2005 Género (feminino) Degoulet et al.,1983
Chuah 1991
Kyngas & Lahdenpera, 1999 Viller et al., 1999 Kiortsis et al., 2000 Lindberg et al., 2001 Nosé et al., 2003 * Valenstein et al., 2004 Balbay et al., 2005 Balbay et al., 2005 Choi-Kwon, 2005 Fodor et al.,2005 Lertmaharit et al., 2005 Frazier et al. 1994 Sung et al. 1998 Caspard et al. 2005 Menzies et al., 1993 Buck et al., 1997 Fenton et al., 1997* Horne & Weinman, 1999 Vermeire et al., 2001* Ghods & Nasrollahzadeh, 2003
Spikmans et al., 2003 Senior et al., 2004 Staring et al., 2005* Staring et al., 2010*
Nível de escolaridade (alto)
Apter et al., 1998 Okuno et al., 2001 Ghods & Nasrollahzadeh 2003
WHO, 2003 Yavuz et al., 2004 Marcotte et al., 2001* Chabungbam et al., 2007*
Kyngas & Lahdenpera, 1999
Senior et al. 2004
Norman et al., 1985 Horne & Weinman, 1999 Spikmans et al., 2003 Kaona et al., 2004 Stilley et al., 2004 Wai et al., 2005
Estado civil (casado) Swett & Noones, 1989 Frazier et al., 1994 De Geest et al., 1995 Turner et al., 1995 Cooper et al., 2005
Spikmans et al., 2003 Ghods & Nasrollahzadeh 2003 Kaona et al., 2004 Wild et al., 2004 Yavuz et al., 2004 Nível socioeconómico (baixo) Diaz et al., 2005 * Suporte familiar e social Stanton, 1987
Lorenc & Branthwaite, 1993
Bebbington & Kiipers, 1994* Garay-Sevilla et al., 1995 Milas et al., 1995 Kyngas, 1999 Okuno et al., 1999 Stromberg et al., 1999 Kyngas, 2001
Kyngas & Rissanen, 2001 Thomas et al., 2001 DiMatteo, 2004 Hudson et al., 2004 * Feinstein et al., 2005 Seo e Min 2005 Voils et al., 2005 Rabinovitch et al., 2013* Deane et al., 2013* Funcionamento social pobre Ahn et al., 2008 * *Estudos realizados na área específica da saúde mental.
Para além do nível socioeconómico representar um factor preditor importante na aquisição de medicamentos, existem outras condições que podem ter uma influência negativa. Por exemplo, o isolamento social do doente ou a distância geográfica da farmácia e das unidades de cuidados saúde, que obrigam a custos adicionais devido às distâncias a percorrer (Bugalho & Carneiro, 2004; Levy & Feld, 1999; WHO, 2003), contribuem também na decisão relativa à adesão ao tratamento.
Em Portugal, a crise económica e financeira acaba por representar um impacto considerável no sector da saúde. Algumas das medidas tomadas ao abrigo do plano de apoio financeiro podem influenciar, potencialmente, a acessibilidade ao medicamento e a consequente adesão à terapêutica, com um impacto no estado de saúde dos doentes, especialmente no caso das doenças crónicas.
O Observatório Português dos Sistemas de Saúde desenvolveu um estudo que permite ter uma fotografia do estado da adesão à terapêutica em doentes crónicos em Portugal entre Março e Abril de 2012. Foi realizado um estudo transversal com doentes recrutados em farmácias
comunitárias, por meio de um questionário que avaliou o número de medicamentos prescritos e o número de medicamentos efectivamente adquiridos e, nos momentos em que houve divergência dos valores, foram questionados os motivos.
As discrepâncias entre a terapêutica instituída e a efectivada foram classificadas como não-adesão primária, nos casos em que o doente não adquiriu a medicação, e não-adesão secundária, nos casos em que o doente adquiriu mas que não procedeu à toma ou não a efectuou conforme indicado na prescrição. O principal motivo para a não aquisição dos medicamentos foi a existência de sobras de outras ocasiões em que o mesmo medicamento foi prescrito. O segundo motivo apontado para a não aquisição foi o rendimento abaixo de 475€/mês (Costa et
al., 2015).
No que concerne às PPG, os estudos desenvolvidos sugerem que uma rede de suporte social estável (Rabinovitch et al., 2013) e um ambiente familiar de apoio, oferecem efeitos positivos na adesão ao tratamento (Bebbington & Kiipers, 1994; Deane et al., 2013).
É importante reforçar que os familiares de pessoas com PPG representam uma mais- valia importante no processo de recuperação dos doentes e, também eles, devem ser considerados como parceiros importantes na prestação de cuidados, devendo mesmo ser estimulados a colaborar no tratamento e a receber o treino e educação necessários (Perlick et
al., 2005; Navidian et al., 2012; Huguelet et al., 2012; Mueser et al., 2013).
Segundo Smith, Barzman & Pristach (1997), o facto dos familiares destes doentes morarem com os doentes, terem conhecimento acerca da patologia e de a reconhecerem como tal, representa um contributo importante na promoção da adesão ao tratamento.
Draine & Salomon (1994), procuraram avaliar o impacto da actividade social na adesão ao tratamento das PPG, tendo constatado que os doentes que desempenhavam uma actividade social acabavam por ter uma atitude mais positiva em relação ao cumprimento do plano terapêutico, em comparação com doentes em reabilitação de longo prazo (Taylor & Perkins, 1991).
Viver sózinho (Seltzer, Roncari e Garfinkel, 1980) e ter habitação precária (Drake et al., 1991), são outros factores que podem contribuir para aumentar o risco de não-adesão nas PPG. Existem ainda outros factores sociodemográficos na área da saúde mental que podem igualmente ter um impacto importante, como, por exemplo, o meio social em que o indivíduo se encontra inserido (Tsang et al., 2009; Yam et al., 2010).
Considera-se ainda que a instabilidade habitacional, o facto de o doente pertencer ou não a um núcleo familiar estruturado, bem como o apoio que recebe das suas redes sociais para cumprir o tratamento, podem influenciar o seu comportamento.
Com efeito, de acordo com alguns trabalhos, quem vive só ou possui redes de sociabilidade limitadas tem mais probabilidade de encontrar dificuldades em seguir as indicações médicas (Bishop, 1994; Haynes, McKibbon, & Kanani, 1996; Levy & Feld, 1999; Sarafino, 1990; Vermeire, et al., 2001). Por outro lado, os efeitos do tratamento nos hábitos quotidianos podem influenciar negativamente a adesão, destacando-se as situações em que afectam a vida social,
como a indicação para não consumir bebidas alcoólicas, a sonolência ou ainda a alteração de estilos de vida (Goldberg, Cohen, & Rubin, 1998).
Os factores aqui descritos, não diferem em termos de patologia e estão, sobretudo, relacionados com a capacidade do doente reconhecer a necessidade do tratamento.