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Ao longo de várias décadas, diversos teóricos salientaram o papel das caraterísticas genéticas nos traços da personalidade adulta, bem como, a importância e a necessidade de associar os traços da personalidade a sistemas neurobiológicos que possam justificar as diferenças entre indivíduos (Cloninger, Svrakic & Przybeck, 1993).

A investigação no domínio da neurobiologia da emoção tem proposto ao longo dos anos, vários modelos diferentes que procuram explicar o modo como o cérebro intercede nas emoções e na (des)regulação emocional. No decorrer dos anos os estudos realizados neste âmbito sofreram uma mudança de paradigma, tendo-se passado das teorias modulares do cérebro para modelos de redes neuronais, estreitamente interconectadas e interativas, parcialmente coincidentes e sobrepostas, e extensamente distribuídas pelo cérebro. Passou-se, além disso, de modelos que procuravam localizar a emoção em áreas cerebrais muito concretas para modelos que consideravam a emoção como uma propriedade de todas as redes e sistemas neuronais. A partir daí, foram propostos modelos de arquitetura neuronal que recolhem tanto caraterísticas de sistemas neuronais interativos e distribuídos por todo o cérebro como as de domínios mais próprios de emoções concretas.

Contudo, e ainda que a pesquisa seja abundante nesta área, revela-se extremamente difícil a tarefa de identificar uma única abordagem que aponte nitidamente a origem neurobiológica da alexitimia.

Observações iniciais de caraterísticas alexitímicas em indivíduos com agenesia do corpo caloso, em pacientes epiléticos submetidos a comissurotomias cerebrais parciais ou totais e descrições de caraterísticas semelhantes entre indivíduos com défices ou lesões no hemisfério cerebral direito, contribuíram para o interesse da neurobiologia da alexitimia (Taylor et al., 1997).

Foram, a partir dessas observações, propostos diversos modelos neurofisiológicos que procuram explicar a génese da alexitimia. Foi proposto um modelo que assenta na reduzida interconexão entre os hemisférios cerebrais (Hoppe & Bogen, 1977; Buchanan, Waterhouse & West,1980) e um modelo da diminuição das funções do hemisfério cerebral direito (Lane et al., 1996; Bermond et al., 2006). A pesquisa recente suporta os dois modelos, sendo que determinados estudos (e.g., Aftanas et al., 2003; Bermond, Vorst

& Moormann, 2006) sustentam a perspetiva da alexitimia traduzir o resultado de um défice na comunicação inter-hemisférica, resultante do funcionamento disfuncional no córtex pré-frontal, relacionado com um sobrefuncionamento do hemisfério esquerdo ou com o subfuncionamento do hemisfério direito. Enquanto outros (e.g., Heinzel et al., 2010) sugerem que a alexitimia se associa a uma resposta satisfatória nas regiões de processamento facial emocional do hemisfério cerebral esquerdo e a uma resposta diminuída nas regiões do hemisfério cerebral direito. Especificamente, a alexitimia espelha uma menor ativação de áreas cerebrais relacionadas com o processamento emocional (na amígdala e no córtex cingulado anterior) durante a observação de expressões faciais.

Embora as caraterísticas psicofisiológicas no domínio emocional tenham sido abundantemente estudadas nos indivíduos alexitímicos, os resultados não são totalmente consistentes (Taylor & Bagby, 2004). Sendo que, para além dos diversos modelos neurofisiológicos que procuram explicar a génese da alexitimia, existem determinados estudos que apontam um modelo de hipoexcitação da alexitimia, onde a atenuada reatividade autonómica inibe a perceção de sinais emocionais (e.g., Neumann et al., 2004; Linden, Lenz & Stossel, 1996) e outros que suportam um modelo de hiperexcitação da alexitimia, onde o indivíduo alexitímico exibe elevadas respostas autonómicas (e.g., Torrado et al., 2015).

Jorien Van der Velde e colaboradores, em 2014, investigaram os substratos neurais que subjazem a dimensão cognitiva e afetiva da alexitimia, propostas por Bob Bermond e associados (2006). Destacaram dois sistemas neurais, onde o córtex dorsal cingulado anterior (dACC) se associa com o prejuízo da dimensão cognitiva e o córtex medial orbito frontal (mOFC) com o prejuízo da dimensão afetiva da alexitimia.

Em 2015, Katharina Goerlich-Dobre e associados, forneceram a primeira evidência da índole morfológica fragmentável, em relação aos volumes da matéria cinzenta e branca, das referidas dimensões da alexitimia. Confirmaram que as dimensões da alexitimia cognitiva e afetiva possuem perfis morfológicos dissociáveis. A dimensão afetiva relaciona-se com alterações pequenas e focais no volume da matéria cinzenta, circunscritas ao córtex cingulado. A dimensão cognitiva associa-se alterações significativas no volume de matéria cinzenta numa rede de regiões límbicas e paralímbicas, abrangendo o precuneo, insula e amígdala.

Conquanto exista uma vasta pesquisa sobre a base neural da alexitimia, ainda não é totalmente claro quais os correlatos neurais subjacentes às consideráveis dificuldades de processamento emocional que a caraterizam. Não existe harmonia, por exemplo, relativamente à questão sobre se a alexitimia prejudica essencialmente os processos (iniciais e automáticos) envolvidos na perceção e reconhecimento emocional a nível não consciente, ou se porventura, lesa os processos posteriores que orientam a experiência consciente, regulação e controlo cognitivo das emoções (Goerlich-Dobre, et al., 2015).

2.8.1. Fatores modeladores

Apesar da maioria das tarefas cognitivas requerer, normalmente, a participação dos dois hemisférios cerebrais (onde estes funcionam como um só sistema), muitos indivíduos manifestam uma propensão para utilizar mais um hemisfério do que o outro. Estas preferências hemisféricas individuais são apontadas como pertinentes no entendimento das desigualdades da personalidade entre sujeitos (Crossman & Polich, 1989). Paralelamente, determinados indivíduos detêm uma maior capacidade de integrar os dois hemisférios cerebrais (Christman, 1994).

Analogamente, as diferenças de género cooperam para o funcionamento cerebral assimétrico. Em 1992, Rybash & Hoyer (citado por Taylor et al., 1997) constataram que o género feminino possui uma menor especialização dos hemisférios cerebrais, comparativamente ao género masculino.

Também os fatores culturais podem influenciar o funcionamento cerebral (Taylor et al., 1997).

ALEXITIMIA Modelo da reduzida interconexão hemisférica Modelo da diminuição das funções do hemisfério direito Dimensão cognitiva Dimensão afetiva dACC mOFC Alterações significativas no vol. de matéria cinzenta Alterações pequenas e focais no vol. de matéria cinzenta Cultura Tendência/Preferências hemisféricas Género

Figura 10-Figura Síntese: Neurobiologia da Alexitimia.

Modelo da hipoexcitação

Modelo da hiperexcitação

Pontos Sumários

1. A alexitimia é um constructo multifacetado que envolve défices no processamento cognitivo da emoção, ou seja, um prejuízo da capacidade de experimentar conscientemente emoções e sentimentos;

2. A etiologia da alexitimia aparenta envolver múltiplos fatores: défices no meio social e no meio familiar precoce e variações na organização cerebral;

3. Os atributos caraterísticos do sujeito alexitímico são particularmente evidentes no modo como expressa os estados emocionais internos (descrição de detalhes minuciosos do quotidiano ou da sintomatologia corporal) e nas relações interpessoais que estabelece (altamente instáveis e demarcadas pela ausência de empatia);

4. O comprometimento da capacidade de processamento e regulação emocional torna a alexitimia como um fator de risco para uma diversidade de problemas comportamentais, médicos ou neuropsiquiátricos;

5. A alexitimia traduz um défice afetivo e não tanto um mecanismo de defesa;

6. A regulação emocional envolve a integração de funções especializadas oferecidas pelos hemisférios cerebrais (de que a alexitimia é um paradigma da sua disfunção) e interações entre os níveis cortical e subcortical da organização cerebral;

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