De acordo com o apresentado, seguem as análises das Práticas Operacionais para a Cadeia de Suprimentos de Caju, levando em consideração as sete dimensões utilizadas nesta pesquisa, bem como os elos trabalhados. Os quadros a seguir apresentam informações quanto ao grau de intensidade das Práticas, a partir do panorama encontrado em cada elo, gerando graus de intensidade comparativos entre eles, além da influência da tecnologia e do relacionamento com a T-KIBS para o desenvolvimento das referidas Práticas.
Para as Práticas Operacionais, com relação a Qualidade, tem-se que os elos que foram mais afetados foram aqueles de processamento de produto final, como os elos dos beneficiadores de castanha, de pequeno e grande porte (BCP e BCG, respectivamente) e os elos dos processadores de pedúnculo, de pequeno (PPP) e de grande porte (PPG), que são as empresas que beneficiam os frutos dos clones de cajueiro anão para consumo final. Isto demonstra que as empresas que entregam produtos finais para consumidores possuem mais atividades voltadas para Práticas de Qualidade do que as que pertencem aos elos agrícolas (iniciais ou intermediários). Com isso, verifica-se que a tecnologia influencia indiretamente estas práticas, já que estas empresas não usam a tecnologia em si, mas os frutos produzidos por ela.
Práticas Operacionais Elo VMJ Elo PJP Elo PJG Elos da Cadeia de Suprimentos do Caju Elo BCP Elo BCG Elo PPP Elo PPG
P Qualidade Fraco Fraco Fraco Moderado Forte Forte Moderado
P Fluxos de JIT Forte Fraco Forte Moderado Forte Fraco Forte
P Orientação para Cliente Forte Fraco Moderado Moderado Moderado Moderado Fraco
P Relacionamento com Fornecedores Fraco Fraco Fraco Moderado Moderado Fraco Forte
P NPD Integrado Forte / Forte / Forte Forte Forte
P Desenvolvimento da Força de Trabalho Moderado Fraco Fraco Moderado Fraco Moderado Forte
P Liderança / / / / / / /
Quadro 31 – Práticas Operacionais da Cadeia de Suprimentos de Caju. Fonte: Elaboração própria.
Práticas Operacionais da Cadeia de Suprimentos de Caju
Influência da Tecnologia nos elos
Agrícolas Processamentos
P Qualidade Fraca Forte
P Fluxos de JIT Forte Forte
P Orientação para Cliente Moderada Moderada
P Relacionamento com Fornecedores Fraca Moderada
P NPD Integrado Fraca Forte
P Desenvolvimento da Força de Trabalho Fraca Moderada
P Liderança / /
Quadro 32 – Influência da Tecnologia nas Práticas Operacionais da Cadeia de Suprimentos de Caju. Fonte: Elaboração própria.
Já com relação às Práticas de Fluxos de JIT, verifica-se que elas estão presentes de forma mais significativa na Cadeia. A exceção se faz nos elos Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP) e Processadores de Pedúnculo – Pequeno Porte (PPP) que apresentam deficiências nestas práticas, mais especificamente para a otimização da utilização dos recursos e redução de desperdícios. Esta baixa incidência de práticas baseadas no JIT se deve ao fato de que as empresas destes elos possuem restrições de recursos (laborais, estruturais e financeiros) para a execução de tais atividades. Aliado a isto tem-se a alta perecibilidade do pedúnculo do caju (de, no máximo, 48 horas após a colheita). Assim, esta combinação, de falta de recursos (de diversas ordens) e perecibilidade da matéria prima (pedúnculo do caju), faz com que as empresas não consigam estruturar atividades voltadas para esta prática, principalmente as que dizem respeito ao controle de produção e processos produtivos, de custos operacionais e estoques, uma vez que dependem da oferta da matéria prima oscilante, praticamente, a cada dois dias. Assim, verifica-se que a tecnologia de clones de cajueiro anão, de forma geral, contribuiu, direta e indiretamente, para o desenvolvimento de práticas de otimização de processos e redução de desperdício, notadamente nas empresas que produzem ou processam castanha ou pedúnculo de caju, principalmente nas de grande porte. Assim, a contribuição da tecnologia seria secundária, uma vez que o porte da empresa também influencia na execução destas Práticas.
Para as Práticas de Orientação para Cliente, tem-se que os elos não apresentam fortes atividades neste sentido. O elo que mais se destacou foi o Viveiristas de Mudas de Cajueiro (VMJ), que realiza trabalhos de acompanhamento de perto das suas ações com os clientes, procurando entender suas necessidades, produzindo materiais clonais específicos e acompanhando sua implementação, consequência direta do uso da tecnologia de clones de cajueiro anão. Os elos Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP) e Processadores de Pedúnculo – Grande Porte (PPG) atuam com fraca intensidade nestas atividades, o que demonstra que, no âmbito geral, as atividades operacionais são realizadas sem desenvolvimento de ações de parcerias operacionais com seus clientes. Os demais elos apresentam ações moderadas que, apesar de ser um bom indicativo para a cadeia, demonstra que ainda há espaço para ajustar a execução de atividades com foco nos clientes.
Para a Prática de Relacionamento com Fornecedores, tem-se que os elos agrícolas possuem poucas atividades voltadas para esta dimensão, talvez pelo fato de serem elos
iniciais da cadeia. Já com os demais elos, percebe-se ações moderadas nos elos Beneficiadores de Castanha – Pequeno Porte (BCP) e Beneficiadores de Castanha – Grande Porte (BCG), denotando práticas existentes. Isto se deve ao fato de que existe maior demanda do que oferta para a castanha de caju. Com isso, as empresas de beneficiamento ou possuem áreas próprias de produção agrícola, ou procuram manter algumas atividades de relacionamento com os fornecedores. Entretanto, conforme os dados coletados, estas atividades podem ser aprimoradas, para obtenção de melhores resultados nas relações com fornecedores. Para ambos os casos, verifica-se a influência da tecnologia de clones de cajueiro anão, uma vez que possibilitou a ampliação do número de produtores de caju, bem como o aumento da oferta do fruto. Com isso, as empresas demandantes se viram diante da necessidade de ampliar suas ações, afim de suprirem suas necessidades de matéria prima. Além disso, a padronização das castanhas advindas dos clones viabilizou a instalação de pequenas fábricas de processamento, o que dividiu o mercado comprador de matéria prima, que antes era formado apenas pelas grandes processadoras, fato que auxiliou no movimento de aproximação das empresas processadoras de grande porte, junto aos fornecedores.
Outro elo que chama atenção é o Processadores de Pedúnculo – Pequeno Porte (PPP), com baixo índice de atividades voltadas para fornecedores, o que demonstra que este elo possui bastante oportunidades para a geração de atividades com seus fornecedores, uma vez que estes são responsáveis diretos pela quantidade e qualidade da matéria prima utilizada no processamento. Ao contrário, o elo Processadores de Pedúnculo – Grande Porte (PPG) apresenta maiores índices de ações com os fornecedores, buscando agregar as ações da Cadeia de Suprimentos como um todo. Esta discrepância de resultados entre os dois grupos processadores de pedúnculo de caju reside no fato de que, para as empresas processadoras de pequeno porte (PPP) o mercado apresenta maior oferta do que demanda, devido, por um lado, à maior oferta de pedúnculo advindo de pequenos produtores que utilizam a tecnologia de clones de cajueiro anão e, por outro lado, à baixa capacidade de processamento das referidas empresas. Com isso, possuem mais opções de barganha e de compra. Tal fato não acontece com as empresas processadoras de grande porte (PPG), uma vez que possuem demanda muito maior que a oferta, necessitando a realização de algumas ações de parcerias com seus fornecedores, a fim de manter a qualidade e a escala necessária para a matéria prima.
Já com relação às Práticas de NPD Integrado, verifica-se que a maioria dos elos desenvolve atividades para este fim, guardadas as devidas proporções e os devidos tipos de produtos desenvolvidos, de acordo com a área de atuação. Um dos motivos para a viabilização destas atividades reside nas características de padronização de frutos e de propriedades organolépticas, com relação à matéria prima advinda dos clones de cajueiro anão. Assim, tem-se que a tecnologia, ou seus frutos, tem contribuído para o desenvolvimento de tais atividades. No entanto, tem-se que os elos Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP) e Beneficiadores de Castanha – Pequeno Porte (BCP), no geral, não possuem atividades relevantes nesta dimensão. Verificou-se que estas empresas possuem estruturas mais enxutas e voltadas quase que exclusivamente para as atividades operacionais dos produtos tradicionais, o que não contribui para o desenvolvimento de atividades de NPD. Além disso, seus produtos requerem maior grau de complexidade para NPD, como ações de melhoramento genético vegetal, ou de engenharia de alimentos, respectivamente. Assim, avalia-se que estes elos estão focados na produção dos produtos já existentes, a partir da tecnologia de clones de cajueiro anão, sem a expansão deles para outras oportunidades operacionais e mercadológicas. Para estes elos, as atividades de NPD competem mais às T-KIBS e empresas de máquinas e equipamentos. Considerando que as empresas do elo Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP) representam a maioria da utilização da tecnologia de clones de cajueiro anão, quando comparadas com as empresas do elo Viveiristas de Mudas de Cajueiro (VMJ) e Produtores de Caju – Grande Porte (PJG), pode-se concluir que, para os elos agrícolas, esta Prática Operacional é pouco influenciada pela tecnologia.
Para as Prática de Desenvolvimento da Força de Trabalho, verifica-se que os elos Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP), Produtores de Caju – Grande Porte (PJG) e Beneficiadores de Castanha – Grande Porte (BCG) apresentam poucas atividades para esta dimensão. Isto se deve ao fato de que no elo Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP) a mão de obra é basicamente a familiar, não havendo muito espaço para atividades de desenvolvimento. Já nos elos Produtores de Caju – Grande Porte (PJG) e Beneficiadores de Castanha – Grande Porte (BCG), a maior parte da mão de obra está alocada atividades básicas e com alta rotatividade, o que dificulta o investimento em desenvolvimento dos profissionais. Já para os demais elos, Viveiristas de Mudas de Cajueiro (VMJ), Beneficiadores de Castanha – Pequeno Porte (BCP) e Processadores de Pedúnculo – Pequeno Porte (PPP) existem ações moderadas para esta dimensão. Isto se
deve ao fato de que estas empresas não são familiares como as do elo Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP), mas possuem pequena estrutura de recursos humanos. Além disso, eles atuam de forma muito imersa nas atividades operacionais em si, com considerável rotatividade, o que deixa espaço apenas para ações moderadas de Desenvolvimento de Força de Trabalho. Destaca-se o forte índice para o elo Processadores de Pedúnculo – Grande Porte (PPG). Conforme verificado, este elo possui programas de desenvolvimento mais focados nos funcionários, bem como ações de capacitações e incentivo às participações nas atividades da empresa. Isto ocorre, algumas vezes por iniciativa própria, ou por conta das certificações, que exigem que sejam executadas determinadas atividades com a força de trabalho, buscando o seu desenvolvimento. Com isso, pode-se afirmar que a tecnologia em si influenciou a Prática de Desenvolvimento da Força de Trabalho com fraca intensidade para os elos agrícolas (que a utilizam de forma direta) e com moderada intensidade para os elos de processamento (que a utilizam de forma indireta).
Por outro lado, verificou-se que nenhum dos elos desta Cadeia apresenta ações relevantes para o desenvolvimento de Práticas de Liderança. Isto demonstra que, no âmbito geral, as atividades desta Cadeia são voltadas para os processos em si, mesmo quando se investe nos funcionários, não se trabalhando o empoderamento dos funcionários, pelo menos no que diz respeito às atividades operacionais. Para estas Práticas não houve contribuição significativa da tecnologia de clones de cajueiro anão em nenhum dos elos.
Assim, com relação à Cadeia de Suprimentos de Caju, pode-se afirmar que a inserção da tecnologia de clones de cajueiro anão contribuiu com o desenvolvimento de Práticas Operacionais, principalmente nos elos que dependem da tecnologia, como Viveiristas de Mudas de Cajueiro (VMJ), Produtores de Caju – Pequeno Porte (PJP), Beneficiadores de Castanha – Pequeno Porte (BCP), Processadores de Pedúnculo – Pequeno Porte (PPP) e Processadores de Pedúnculo – Grande Porte (PPG). Estas Práticas da Cadeia de Suprimentos podem ser entendidas como reflexo das Práticas adotadas pelos elos, conforme apontado por Morash (2001). No entanto, conforme verificado, a tecnologia não é a única responsável pelo desenvolvimento de Práticas Operacionais, uma vez que elas dependem dos recursos (tecnológicos, financeiros, estruturais, humanos, entre outros), mas, também, da forma como são conduzidas pelas empresas e seus processos gerenciais, tendo em vista o alcance de estratégias. Conforme o quadro apresentado sobre a influência da tecnologia nas Práticas Operacionais da Cadeia de Suprimentos de Caju,
verifica-se que os elos de Processamento foram mais influenciados do que os elos Agrícolas. Isto se deve ao fato de que as características de processamento dos frutos (castanha e pseudofruto), dos cajueiros advindos de clones, impactam mais o desenvolvimento ou aprimoramento de Práticas Operacionais de processamento do que cultivo agrícola. No entanto, isto não quer dizer que estas últimas não recebam influências positivas da tecnologia. Porém, comparativamente, os elos agrícolas não alteraram tanto suas Práticas quanto os elos de processamento. Outro ponto relevante diz respeito às Práticas Operacionais voltadas para atividades operacionais com a mão de obra. Apesar de serem destacadas como relevantes pela teoria, para esta Cadeia de Suprimentos elas não apresentaram fortes influências com a inserção das tecnologias. Destaca-se que a Prática Operacional de Liderança não apresentou nenhuma ação relevante nas empresas utilizadas como estudo para esta pesquisa. Verificou-se que estas Práticas Operacionais, mesmo precárias, possuíam mais aderência à gestão organizacional do que aos aspectos operacionais, o que sugere que estas Práticas sejam realocadas, na teoria, para a área de gestão organizacional, sem prejuízo das análises operacionais.