Durante o período que decorreu entre a ida para o terreno e a aceitação (variável) junto dos diferentes grupos de clientes que iam sendo acompanhados, optou-se não fazer qualquer tipo de inquirição mais formal/sistematizada, por se achar que o conhecimento sobre o objecto de estudo em causa e a empatia criada com os (potenciais) informantes ainda não eram suficientes para tal. A este propósito, Burgess (2001: 113-114) adverte para o seguinte:
“[...] um conhecimento pormenorizado da situação é essencial antes que as questões possam ser formuladas e antes que as pessoas estejam preparadas para dar informações acerca do seu modo de vida. [...] é vital desenvolver um clima de confiança entre aqueles com quem as entrevistas se realizam.”
Embora não utilizando instrumentos formais de pesquisa no período mais introdutório e de inserção social do trabalho de campo, este período não deixou, todavia, de se revelar bastante proveitoso na recolha de elementos empíricos. A postura metodológica etnográfica adoptada, ainda que alicerçada apenas em procedimentos informais de inquirição, possibilitou, praticamente desde o primeiro dia, o acesso a uma grande quantidade e diversidade de informações, que viriam a assumir-se como referências fundamentais para o esboço das principais dimensões a explorar nas entrevistas.
Depois de assegurada a ambientação, a integração social e um conhecimento mais detalhado do contexto de estudo, julgámos então estarem reunidas as condições de base para se iniciar a realização de entrevistas semidirigidas a alguns dos clientes com quem estabelecemos uma relação mais privilegiada. A escolha da entrevista semidirigida enquanto técnica complementar da observação participante, em detrimento de outras técnicas mais padronizadas e de feição quantitativa, como é o caso do inquérito por questionário, ficou a dever-se, essencialmente, às dimensões de análise que procurávamos explorar junto dos clientes, de entre as quais destacamos, a título de exemplo, o sentido que conferem aos seus comportamentos nos processos (inter)subjectivos de construção da identidade de género e as razões (geralmente veiculadas de forma meramente implícita) que estão por detrás da procura do sexo comercial. Trata-se de dimensões de análise para as quais a entrevista semidirigida, atendendo ao seu elevado potencial heurístico e à profundidade de pesquisa que garante, está particularmente vocacionada. Juntamente com a observação participante, ela permite, assim, uma tomada de consciência reflexiva e profunda do “outro”:
“uma compreensão genérica e genética do que ele [o observado] é, fundada no domínio (teórico ou prático) das condições sociais das quais ele é o produto: domínio das condições de existência e dos mecanismos sociais cujos efeitos são exercidos sobre o conjunto da categoria da qual eles fazem parte (as dos estudantes, dos operários, dos magistrados, etc.) e domínio dos condicionamentos inseparavelmente psíquicos e sociais associados à sua posição e à sua trajectória particulares no espaço social” (Bourdieu, 1999a: 700).
Tendo em conta que o critério da representatividade não se coloca de forma tão taxativa como acontece com o inquérito e a impossibilidade de se quantificar o universo
da clientela, não se definiu à priori o número de entrevistas que iriam ser efectuadas. Procurou-se sim, desde logo, abranger um conjunto de clientes o mais diversificado possível, em função de variáveis estruturantes como a idade, o estado civil, o grau de escolaridade e o estatuto sócio-económico, de forma a evitar-se um reducionismo epistemológico no processo de pesquisa empírica. Deu-se por suficiente o número de 15 entrevistas quando se constatou haver uma certa recorrência/saturação das informações, tendo em conta os conteúdos de entrevistas precedentes e os elementos empíricos colectados por via da observação participante. Todas as entrevistas foram realizadas a clientes portugueses, já que foi com eles que desenvolvemos ao longo do trabalho de campo uma relação mais próxima, ainda que, junto de clientes espanhóis se tenha recolhido bastante informação empírica, não só por intermédio de terceiras pessoas, nomeadamente as trabalhadoras sexuais, como através da própria observação directa e, noutros casos, através de conversas mais ou menos informais. Duas das entrevistas foram feitas em grupo: num caso com dois clientes, noutro com três.
Pese embora termos elaborado previamente um guião de tópicos gerais a abordar (anexo1), com uma determinada sequência que nos parecia lógica, no decurso das entrevistas foi sempre dado grande espaço e liberdade para os entrevistados desenvolverem as suas respostas e o seu discurso, ainda que isso tenha implicado, em diversas ocasiões, a “subversão” da ordem do guião que havia sido esboçado. Procurou- se, na medida do possível, intervir pouco, formular perguntas concisas, com um alcance facilmente perceptível e com uma linguagem que fosse familiar aos entrevistados.
Nalgumas das entrevistas individuais, os interlocutores, embora já claramente familiarizados connosco, manifestaram ainda assim algum nervosismo e uma certa inibição; algo que não sucedia nas conversas informais que tínhamos durante as saídas para os clubes. O “ambiente” mais formal da entrevista, com a presença sempre incómoda do gravador, aliado ao facto de terem de expor aspectos da sua intimidade, mormente os mais relacionados com a sexualidade, terão provocado alguns constrangimentos que explicam o seu maior nervosismo e inibição. Em sentido oposto, nas entrevistas de grupo apercebemo-nos que os entrevistados apareciam mais à vontade e mais predispostos para falar e discutir entre si os vários assuntos que iam sendo lançados para debate. A dinâmica e motivação geradas foi de tal ordem que, por vezes, praticamente se esqueciam da presença do entrevistador e eles próprios se interpelavam
entre si. A entrevista de grupo, como nota Burgess (2001: 129), “[…] dá-nos uma oportunidade para que tenha lugar um diálogo entre os participantes, tornando possível “[…] examinar as relações entre os participantes e as perspectivas que têm”.
Perante algumas das informações que iam sendo reveladas pelos informantes/entrevistados, em particular aquelas que se referiam às suas vivências sexuais, adoptou-se geralmente uma atitude de alguma reserva, pois as informações que os actores sociais prestam sobre a sua vida sexual são, amiúde, manipuladas e enviesadas, comportando, por isso, algumas mentiras e/ou encobrimentos sobre aquilo que fazem ou pensam, como reconheceu Kinsey nos seus vários estudos sobre a sexualidade humana. Assim sendo, tivemos a preocupação, sempre que tal se proporcionava, de fazer, subrepticiamente, algumas perguntas de controle/aferição da veracidade daquilo que era revelado no decurso da conversa, bem como tentar assegurar o cruzamento de informações junto de outros clientes e das próprias trabalhadoras sexuais, salvaguardando sempre o anonimato de todos. O processo de cruzamento de informações, sobretudo junto das mulheres que exercem a prostituição, conhecedoras da intimidade (mais que não seja sexual) dos seus clientes, revelou-se fundamental enquanto estratégia metodológica que permitiu, em muitas circunstâncias, depurar e apurar os factos e interpretar o sentido dos discursos, mais em concreto das contradições, mentiras e ocultações. Desta forma, a pesquisa não ficou refém dos discursos e das versões dos clientes, e ganhou uma maior profundidade e objectividade.