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A dado momento de Um homem: Klaus Klump, um cavalo começa a apodrecer na cidade durante um período de tempo indefinido, mas longo o suficiente para que a sua permanência cause estranheza. Gonçalo M. Tavares, em entrevista concedida a Maria José Cantinho (s/d), considera tratar-se de um aviso da morte, que se confronta com o homem, que o confronta com a sua finitude, com o seu limite, entendido inclusive latu sensu. Não esqueçamos que esta imagem é evocada constantemente por Klaus Klump, atravessa a sua mente várias vezes ao longo do romance, funcionando como um índice de real. Evocação essa que nos parece auxiliar na definição dos contornos interiores de Klaus: desamparo, obsessão, medo. As descrições daquele cavalo, que esvazia o espaço, reduzindo-o a uma imagem traumatizante donde não é possível sair, acentuam a paulatina desagregação do corpo do animal, até a cabeça se converter numa espécie de balde. O exterior não é incomensurável por ser aberto, expansivo em demasia para a limitação humana. É o contrário: o agudizar dela, e por isso ainda mais incomensurável.15 Tudo isto também diz muito do que é a tetralogia – do mundo por ela criado não é possível sair, ao ponto mesmo de sentirmos vergonha por sermos homens (como Deleuze disse, em L’abécédaire, ser aquilo que toda a arte está habilitada a fazer).

Parece-me que esta imagem do cavalo, com o seu quê, é certo, de grotesco – e mesmo de excesso do sagrado, como o concebe Bataille (1988), o que nos desperta a pulsão da continuidade e fora expulso das nossas vidas –, está condensada naqueles versos de Ruy Belo de «Relatório e Contas» de Boca Bilingue: «Setembro é o teu mês, homem da tarde / anunciada em folhas como uma ameaça». Claro que, na poesia beliana, o leitor se confronta com um sujeito atento a esses sinais demasiadamente presentes, excessivamente evidentes, e consciente, de forma dilacerada, de que a vanitas é consubstancial à existência. Os sinais, portanto, existem sempre, desde a banca da fruta, até ao rótulo do maço de tabaco. A questão parece-me ser outra. O odor de um cavalo em decomposição é ostensivo e repugna. Nem por isso os homens trataram de o remover das ruas. Talvez por medo, talvez porque a guerra – ou a paragem da história, se pensarmos em Ruy Belo – é ela mesma um indutor de vacuidade existencial. O cavalo naquela rua não seria tanto uma alegoria, antes uma metonímia daquela

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A referência aqui é o Foucault de O pensamento do exterior, livro em que se procura definir o exterior e o espaço literário como exterior inacessível – e além da representação. O espaço físico que se nos abre e nos circunda – e que condensa todo o tempo e o que nele se dá, se deu e se dará – e o espaço literário subtraem-se- nos continuamente, são uma negatividade que a nossa limitação sensível e inteligível jamais alcançará. E também o espaço literário, como o espaço físico, causa a morte de quem escreve, de toda a referência e do próprio mundo gerado pelo texto.

verdade insidiosa que o real tratou de ensinar; ou um sintoma do recalcado. E se os homens não o removeram será, resumindo, por medo e por já ele ter pouco a ensinar. Por fim: se incorporamos o belo e o vivo – e, já agora, o sublime? – no nosso mundo intra-humano, e nele no plano estético, e se ocultarmos a morte, será por aqueles nos protegerem da verdade da nossa finitude. Por serem eles o nosso fetiche. Žižek explica os conceitos de que me sirvo:

Com efeito, o fetiche é uma espécie de inversão do sintoma. Isto é o mesmo que dizer que o sintoma é a excepção que perturba a superfície da falsa aparência, o ponto onde surge a Outra Cena recalcada, enquanto o fetiche é a materialização da Mentira, que nos permite aguentar a verdade insuportável. (Žižek, 2008: 114)

Para Klaus Klump, durante o seu período na floresta, como acima afirmado, a imagem mental que se associa à cidade é a do cavalo morto na rua. O cavalo morto é um índice de que algures há outra coisa além da floresta impassível. Este obsceno que primeiramente vai martelando a consciência de Klaus deixa adivinhar alguma coisa que apenas na prisão se revelará completamente: um mundo degradado em que o caos é a lei, em que o mal «invencível, ou mil vezes vencido, logo majestaticamente retornado, é o absoluto, o homem a ele se sujeita, evitando-o, minimizando-o.» (Real, 2012a: 37) Destaque-se ainda o óbvio: o mundo é humano, antropocêntrico, a força é sobretudo humana. E, claro, acabe-se por onde se devia ter começado: este episódio evoca-me a loucura que Nietzsche passa a conhecer em Turim, em 1889, quando vê um cavalo a ser açoitado, num daqueles casos que fazem jus ao sortilégio de Oscar Wilde (1993) segundo o qual a vida é que imita a arte. Depois de, aos berros, espantar o cocheiro, Nietzsche terá abraçado o pescoço do cavalo e começado a chorar convulsivamente. O choro fora tão violento que Nietzsche terá desmaiado e outros tê-lo-ão transportado para a sua residência. Quando voltou a si, não mais era o mesmo – pronunciava frases ininteligíveis, cantarolava e soltava ruídos estranhos. Repetia, assim, inconscientemente, o que acontecera no sonho de Raskolnikov – protagonista de Crime e Castigo de Dostoiévski – durante o qual abraça e beija uma égua ensanguentada que fora brutalizada por um grupo de camponeses bêbados. Este cavalo na rua é o símbolo do que metamorfoseara Klaus Klump: a guerra, enquanto processo em que se transmutam todos os valores, e o que ela trouxera à sua vida, a prisão: «O preso Klaus era um homem que já não hesitava.» (Tavares, 2011a: 59) Durante a guerra, o protagonista ainda resiste a transformar-se, algo que era frequente entre os seus pares, muito embora a guerra o tenha forçado a interromper o amor, sentimento que se projeta para e projeta o futuro:

O seu amor estava inacabado porque entretanto havia começado a guerra. A guerra interrompe. Klaus era um homem alto e não apreciava de maneira particular a pátria, cuspia nela se necessário, mas era capaz de morrer pelos seus livros e pelos hábitos. [...] Amigos de Klaus já tinham matado ou tentado matar. Klaus, esse, mantinha-se neutro. Ainda não entraram na minha tipografia, dizia Klaus. (idem: 27)

O que mais interessava a Klaus eram os livros e os hábitos – eram eles os seus agenciamentos, era graças eles que realizava a sua potência. No entanto, a guerra interrompe, é pervasiva. Por isso, a resposta do sujeito a esta agressão das circunstâncias é a ascese: será nela que a fobia metafísica ao movimento se recolherá. A ascese é exercício da vontade para prescindir de impulsos insignificantes que possam comprometer a edificação auto-natal do sujeito. Apenas quem se abstém encontra em si próprio o bastante, se mantém direito e se torna aquele que se tem em pé: «Klaus dizia que um homem durante a guerra deve ser surdo- mudo até ser possível. E ficar quieto.» (idem: ibidem) Este culto do imóvel para autoconservação do sujeito será seguido, outrossim, pelo protagonista de A máquina de

Joseph Walser. Há uma frase muito poética em Um homem: Klaus Klump (Tavares, 2011a:

34) que explica bem os efeitos da guerra: «É evidente que é impossível: nem cem mil militares perturbam fortemente o mar.» A guerra pretenderia afetar mesmo o quietismo absoluto onde Deus palpita. A ideia segundo a qual a natureza teria uma força sempre superior à humana, e, munida de vontade, também ela afiaria as lâminas, como se dirá em

Aprender a Rezar na Era da Técnica, isto é, segundo a qual ela poderá bem contra-atacar,

vingar-se da brutalidade que os humanos sobre ela exercem, não está ainda aqui. Pretende-se antes sublinhar que o mar seria um buda que resiste impassível, o jogador de xadrez perfeito. No último romance da tetralogia, é mais evidente – a partir do que pensa o narrador – que a natureza não é apenas pano de fundo de uma odisseia humana.