“Viremos agora a nossa atenção para o espaço daqueles que são referidos a partir de rótulos tão indelicados e pejorativos como “utilizadores” e “habitantes”. Não foram ainda encontrados termos bem definidos com conotações claras para estes grupos. A marginalização da pratica social estende-se portanto até à linguagem. A palavra ‘utilizador’ (usager), por exemplo, tem algo de vago – e vagamente suspeito – em si. ‘Utilizador de quê?’ questionamo-nos”107
O utilizador é para Lefebvre, por um lado, uma abstracção negativa, resultante da vivência do espaço como produto do capitalismo – espaço do arquitecto – e, por outro lado, é aquele que utiliza o espaço arquitectónico, o espaço vivido e experienciado do dia-a-dia. Este segundo utilizador pertence e resulta do espaço social que resiste à fragmentação e aos domínios impostos pelos princípios funcionalistas. Se falamos de representações de espaço, de concepções calculadas e deterministas, de conceptualizações abstractas da experiência, ou seja, de espaço abstracto, estamos a referir-nos a um utilizador também ele abstracto. Mas o espaço do quotidiano é, segundo o autor
“um espaço concreto, ou seja, subjectivo. Como espaço de ‘sujeitos’ e não de cálculos e representações espaciais, tem uma origem, e essa origem é a infância, com os seus sofrimentos, as suas conquistas, e as suas falhas.”108
107 Henri Lefebvre, The Production of Space, página 362, tradução livre, “Let us now turn our attention to the
space of those who are referred to by means of such clumsy and pejorative labels as ‘users’ and ‘inhabitants’. No well-defined terms with clear connotations have been found to designate these groups. The marginalization of social practice thus extends even to language. The word ‘user’ (usager), for example, has something vague – and vaguely suspect – about it. 'User of what?' one tends to wonder.”
108 Ibidem, página 362, tradução livre, “The user's space is lived - not represented (or conceived). When
compared with the abstract space of the experts (architects, urbanists, planners), the space of the everyday activities of users is a concrete one, which is totally, subjective. As a space of 'subjects' rather than of calculations, as a representational space, it has an origin, and that origin is childhood, with its hardships, its achievements, and its lacks.”
Apenas o uso, a intervenção activa do sujeito (na sua individualidade e colectividade) no espaço, é capaz de gerar aquilo que Lefebvre considera como Espaço Diferencial. Este espaço consiste no lugar da
apropriação e da experimentação, o lugar que o sujeito produz, não o
lugar que produz o sujeito.
Este protagonismo da apropriação como determinante final do espaço, verificou-se no tipo de experiências propostas pelos situacionistas – já referidos na análise sobre o espectáculo – no âmbito de uma crítica aos modelos funcionalistas adoptados até aos anos 50. Propunham portanto, como solução, estratégias como a deriva, um tipo de deambular urbano; o détournement, que consiste na apropriação subversiva dos espaços; a psicogeografia, que visa estudar as reacções que o meio provoca no sujeito que o experiencia; e o urbanismo unitário, que corresponde a um modelo de cidade gerado através da criação de situações participativas.
Esta criação de situações consiste na prática fundamental de uma experiência que incorpora o uso como determinante central da produção do espaço. Tal como explica Debord,
“A nossa ideia central é a construção de situações ... A arquitectura deve começar por tomar situações emocionalmente comoventes, em vez de mover emocionalmente formas, como material com o qual trabalha. E as experiências com este material levarão a formas desconhecidas. A pesquisa psicogeográfica ... assume um duplo sentido: observação activa das aglomerações urbanas atuais e desenvolvimento de hipóteses sobre a estrutura de uma cidade situacionista. O progresso da psicogeografia depende, em grande parte, da extensão estatística dos seus métodos de observação, mas sobretudo da experimentação por meio de intervenções concretas no urbanismo.”109
109 Guy Debord, citado em Jonathan Hill, Actions in Architecture, página 65-57, tradução livre, “Our central
idea is the construction of situations … Architecture must advance by taking emotionally moving situations, rather than emotionally moving forms, as the material it works with. And the experiments with this material will lead to unknown forms. Psychogeographical research … takes on a double meaning: active observation
Tal como aponta Jonathan Hill, é importante notar que, numa abordagem deste tipo, o papel criativo passa do arquitecto para o utilizador, e à arquitectura resta ser apropriada e determinada pelo uso a que irá corresponder. Isto é algo que Umberto Eco fez questão de apresentar no final da sua obra já estudada, Function and Sign, como alternativa ao determinismo imposto pela definição de formas através de códigos funcionais. Afirma então o seguinte:
“A alternativa (...) já foi sugerida: o arquitecto deve conceber algo que possibilite uma variedade de funções primárias e deixar em aberto as funções secundarias.”110
Entre as várias formas de apropriação sugeridas pelos Situacionistas, deve considerar-se que o utilizador pode assumir dois papéis distintos: no caso da deriva, este opera através de uma estratégia de apropriação mental de algo que já existe, ou seja, ele não produz efectivamente nada, a não ser uma nova ideia de espaço que é criada conceptualmente; no caso da construção de situações, este assume um papel activo e passa a produzir algo que até então não existe – ou existe mas não se encontra activo – através de um processo criativo que engloba tanto a concepção, como a percepção, como ainda a vivência do espaço. O modelo mais directo deste de aplicação deste tipo de
apropriação é o movimento squatting, que consiste na
apropriação/ocupação de espaços abandonados e desabitados. Este fenómeno está relacionado com uma necessidade de encontrar soluções económicas de habitação, mas ao mesmo tempo com uma atitude revolucionária contra forças do mercado, processos de arrendamento e outras leis de habitação.
of present-day urban agglomerations and development of hypotheses on the structure of a situationist city. The progress of psychogeography depends to a great extent on the statistical extension of its methods of observation, but above all on the experimentation by means of concrete interventions in urbanism.”
110 Umberto Eco, “Function and Sign”, página 191, tradução livre, “This alternative to these varieties of
overconfidence has already been suggested: the architect should be designing for variable primary functions and open secondary functions”
Considerando um modelo que atribui ao arquitecto e ao arquitecto compete simplesmente conceber estruturas que denotem funções primárias, podemos reformular o esquema da caverna, assumindo que todo o significado que se irá construir, será uma apropriação criativa.
No entanto, pode concluir-se que, mesmo sendo uma prática aliciante pelo potencial que representa para uma transgressão dos limites impostos pelos modelos funcionalistas predominantes da época, as práticas situacionistas pouco contribuem para uma teoria sobre a produção do espaço na arquitectura. Se o utilizador é o primeiro agente criativo, ao arquitecto compete apenas criar espaços para serem apropriados. No limite, o arquitecto não faz absolutamente nada. Do ponto de vista operativo, esta solução não revela ser um método arquitectónico relevante, já que mesmo considerando o uso como determinante final da percepção do espaço, não é pertinente, aqui,
descartar a este ponto o papel activo do arquitecto. Mas do ponto de vista da teoria, por outro lado, é uma perspectiva interessante, se considerarmos conceitos como por exemplo, a tipologia.
A ideia de que a forma existe independente da função pode ser vista de duas perspectivas: por um lado, considerando a primeira como interioridade da arquitectura, autónoma de qualquer determinação e verificação externa – Eisenman; por outro lado, considerando que a função é algo que se determina pelo uso, tornando a forma algo irrelevante. Esta segunda hipótese corresponde à teoria que Aldo Rossi desenvolve na sua obra L'Architettura della Città111, em que, ao contrário
de Eisenman, assume a importância da utilização do objecto como determinante central da sua função. Considera portanto que os edifícios são compostos por uma forma que corresponde a um tipo e, por esta razão, não possuem – antes da sua utilização – uma conotação funcional. Isto permite-nos compreender a razão pela qual os edifícios são muitas vezes apropriados para diferentes usos daqueles para que foram construídos. Como é o caso comum de conventos que se transformam em escolas, ou de igrejas que se transformam em discotecas.
Como método de produção de espaço, esta estratégia resulta naquilo que podemos chamar de “redundância espacial”, ou até mesmo, se levado ao extremo, numa opção que exclui totalmente o arquitecto. São estratégias que, como já referido, do ponto de vista da prática da arquitectura se tornam pouco relevantes.
Considere-se, em alternativa, um papel mais activo do arquitecto. Nesta segunda hipótese, o utilizador continua a representar uma figura primordial na concepção do espaço, mas pode dizer-se que, neste caso,
tanto um como o outro constituem um papel determinante das funções do objecto arquitectónico. Neste ponto da discussão, questiona-se o seguinte: Como é que o arquitecto cria um dispositivo de apropriação
criativa?