4.4 Flåklypa Tidende som litteratur og parodi
4.4.3 Komikk og karneval i Flåklypa Tidende
Os diversos movimentos de resistência social após a Segunda Guerra Mundial levaram a falência da sociedade disciplinar, com a crise generalizada das instituições de confinamento (DELEUZE, 1991). Tais movimentos engendrados como formas de resistência às subjetividades normatizadas põem em xeque o modelo de controle das sociedades disciplinares, que precisou se reorganizar com base em novas formas de controle. Assim afirmam Moraes e Nascimento (2002):
As identidades fixas e patologizadas são recusadas e os movimentos de reforma abrangem o Estado, a família, a escola, os hospitais, o trabalho e as cidades. O controle social já não pode operar apenas pela norma. É importante a criação de outros mecanismos eficazes de comando, que consigam ser eficientes, econômicos e apropriados ao movimento de transformação imposto pela multidão (p. 94). Esses movimentos de contestação à sociedade disciplinar levaram à ampliação da utilização dos mecanismos de biopolítica que se voltam para as multidões. Segundo Moraes e Nascimento (2002), a nova forma de organização social passa a fazer uso dessas estratégias legitimadas pelas subjetividades constituídas nos processos das multidões para atrair o consumo e o comportamento das pessoas. Instituía-se, nas palavras de Deleuze (1991), a
30 sociedade de controle11. Os dispositivos de poder transformam-se e se diluem, passando a ser fluidos, já que na sociedade de controle os espaços se interpenetram e o tempo não é mais demarcado (tempo de trabalho e de descanso), passando a ser contínuo. As máquinas transformam-se, a linguagem passa a ser digital e a vigilância virtual. No entanto, explica o autor: “Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo” (DELEUZE, 1991, p. 223). Nesse capitalismo mutante, o marketing que impulsiona o consumo passa a ser a alma do negócio. O homem sai do confinamento institucional para se aprisionar em dívidas, que não são apenas financeiras (DELEUZE, 1991). São forjadas, portanto, novas formas de regulação, que prescindem do confinamento das instituições disciplinares, mas rivalizam com ele. Uma delas é a mídia, assim descrita por Moraes e Nascimento (2002):
São, pois, mecanismos de poder que não limitam, proíbem ou distribuem em hierarquias rígidas e patologizantes – ou, pelo menos, essa distribuição não é tão essencialista quanto o processo de normatização; elas agem de maneira diferente: funcionam por sedução, interesse, curiosidade, através da lógica do prazer incessante e incontrolável do consumo e da aquisição12 (p. 95).
A sociedade de controle é produzida pela sociedade disciplinar ao mesmo tempo em que denuncia seu fracasso, pois ela traz consigo todas as consequências de um projeto que falhou. A crença na capacidade humana em promover o progresso da sociedade, em termos de humanização e liberdade, objetivo para o qual se voltaram o conhecimento e a utilidade (produzindo a racionalidade científica utilitária), ao contrário, levou à perda dos referenciais coletivos e humanitários, bem como à degradação da natureza e de muitos bens culturais.
O escritor polonês Zigmunt Bauman (2001 e 2009) faz uma análise das transformações sociais pelas quais passam as sociedades pós-modernas, utilizando a metáfora da liquefação para falar da mudança de paradigma, cuja marca é, exatamente, a perda dos referenciais da modernidade e o nascimento do individualismo. Nomeia sólida a primeira fase da modernidade, caracterizada pelo controle estatal e as normas industriais, quando a socialização era voltada à vida produtiva. Apesar da tediosa rotina de trabalho e da contraposição trabalho/capital, a estabilidade no trabalho e os vínculos corporativos conferiam certa segurança e tranquilidade ao sujeito. Para o autor, a
____________
11 Não significa que a disciplina é simplesmente suplantada, mas que não se aplica mais da mesma forma, como se os sujeitos a tivessem internalizado, conduzindo-se a, sem precisar do controle externo.
12 A mídia será problematizada nesse estudo enquanto lócus diferenciado de constituição de sujeitos na medida em que, por meio desse jogo de sedução, produz, agrega e veicula inúmeros discursos, como é discutido no terceiro capítulo.
31 redução do controle estatal e a consequente dissolução desse modelo relacional transformaram os sujeitos em individualistas, na medida em que cada um passou a ter que viver por conta própria.
A modernidade líquida, como tratada por Bauman, recebe também a denominação de modernidade tardia ou reflexiva (COHEN; MENDEZ B., 2000) como efeito de um processo marcado por intensas evoluções industriais e tecnológicas ao longo da modernidade tradicional, que levam hoje as sociedades à autoconfrontação com as consequências dessas evoluções, sejam individuais ou coletivas. Tais consequências inserem a sociedade num contexto de riscos categorizados de três formas: 1 – a degradação dos recursos naturais; 2 – os perigos relacionados à insegurança social; 3 – o desencantamento gerado pela dissolução dos referentes coletivos, esta última enfatizada por Bauman (2001 e 2009).
Embora sem aprofundar a respeito de todos os efeitos dessas mudanças, para este estudo, foi preciso analisar como elas estão imbricadas na constituição das várias formas de ser adolescente na contemporaneidade. A construção do que hoje se compreende como risco social, no contexto da dissolução dos referentes coletivos e da fluidez das relações, ajuda a pensar como se constitui discursivamente o sujeito adolescente como individualista ou como um risco em potencial. Assim, os vários discursos que enunciam a adolescência, seja associada ao consumo, às tecnologias, ou ao contrário, aos perigos, como uma ameaça ou um problema social, são permeados pelas práticas de poder instituídas socialmente. A análise genealógica de Foucault problematiza como os discursos estão articulados a tais práticas13.
Para que nesse estudo possam ser analisados os discursos que atravessam e constituem os sujeitos adolescentes da pesquisa, é necessário introduzir a discussão sobre o conceito de discurso.
Segundo Iñiguez (2004), há um recente interesse na análise e no estudo do discurso no âmbito das ciências sociais, interesse despertado por, pelo menos, três motivos. Primeiro, por conta do recente “giro linguístico”, processo assim denominado em referência à mudança na concepção de linguagem como representação para a função de construção da realidade; segundo, por conta das transformações na linguística, principalmente em termos de orientação para a análise do uso da linguagem nos vários contextos de comunicação; e, terceiro, por causa da centralidade e relevância que os meios de comunicação social e as novas tecnologias de comunicação têm dado aos processos relacionados à linguagem (IÑIGUEZ, 2004).
Sem entrar na discussão sobre as distintas abordagens e o crescente interesse na temática, esclareço que, neste trabalho, por motivos já explicitados, a noção de discurso foi tratada dentro do referencial teórico de Foucault.
____________
32