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4. EKSEMPELENE

4.6 KOLBOTN

A partir dos anos 1970, um a série de trabalhos em diversos cam pos das ciências cognitivas, apesar de partirem de perspectivas bastante diversas, tem apresenta- do evidência convergente que reconhece um processam ento fundam entalm ente

9 Um a abordagem sem ântica m ais com pleta da análise freudiana dos lapsos pode ser encontrada

em Thá, 2001.

1 0 Freud observa a esse respeito, em O m ecanism o psíquico do esquecim ento ( 1898/ 1976) que pelo

fato de estar viajando m uito tem po pela Itália, acostum ara-se a traduzir autom aticam ente do alem ão para o italiano e vice-versa.

não verbal, analógico e im agético11 com o base dos com plexos processos cognitivos

hum anos.12 No que se segue, vou abordar apenas alguns desses trabalhos, um a

vez que um a discussão exaustiva ultrapassaria os lim ites desse texto.

Dentro da psicologia cognitiva, talvez os prim eiros estudos m ais influentes que levaram a considerar de m odo sério a hipótese de que a m ente hum ana dispõe de representações im agéticas, ou seja, im agens m entais distintas e aná- logas aos estím ulos físicos percebidos, tenham sido os de Roger Shepard e Jacqueline Metzler ( 1971) a respeito das rotações m entais. Suas observações indicavam tam bém que essas im agens m entais eram utilizadas para efetuar cer- tas form as de raciocínio.

Em um experim ento clássico, Shepard e Metzler apresentavam às pessoas pares de figuras bidim ensionais representando form as geom étricas tridim en- sionais. A segunda figura do par havia sofrido um a rotação, de zero a 180º, seja no plano da figura, seja no plano da profundidade. Aleatoriam ente havia form as distraidoras, cujas segundas figuras não eram rotações das prim eiras. Solicita- va-se às pessoas que respondessem se a segunda figura era ou não um a rotação da im agem original. O resultado, surpreendente, foi que se constatou que os tem pos de reação ( m edido pelo tem po que a pessoa levava para dar a resposta) form avam um a função linear do grau de rotação que as figuras tinham sofrido. Ou seja, quanto m aior a rotação sofrida pela figura, m aior o tem po que as pessoas levavam para dar a resposta. Além disso, não houve diferenças significativas nos tem pos de resposta quando as rotações se davam no plano da figura ou no plano da profundidade. Outros pesquisadores confirm aram os resultados de Shepard e Metzler em outros estudos sobre rotações m entais, com o, por exem plo, em rota- ções de figuras bidim ensionais ( JORDAN e HUNTSMAN, 1990) e de cubos ( JUST e CARPENTER, 1985) . Tudo se passava com o se os sujeitos estivessem , de fato, girando essas figuras com as m ãos diante dos olhos.

A conclusão de que os sujeitos estão girando m entalm ente essas figuras é inevitável. Parece razoável concluir que os seres hum anos geram im agens m en- tais das form as apresentadas e giram -nas em algum espaço m ental. Afinal, “um dos constructos m enos tangíveis da psicologia havia gerado um a lei científica de precisão im pressionante” ( GARDNER, 1995, p.343) . À luz desses resultados, faz sentido pensar que um indivíduo possui figuras em sua cabeça, tornando

1 1 Os term os ‘im agético’ e ‘analógico’ indicam , aqui, form as representacionais diversas das

form as sim bólicas e digitais tradicion alm en te assu m idas pelos m odelos com pu tacion ais algorítm icos da m ente . Por exem plo, a representação do som em um disco de vinil é análoga à onda sonora, enquanto que em um disco digital ( CD) ele está registrado em form a de dígitos binários.

1 2 Um a am pla discussão sobre esses tópicos pode ser encontrada em Bechtel, W. e Graham , G.

respeitável a idéia de um m odo análogo de representação m ental, um m odo que capta as relações espaciais que tam bém podem ser percebidas no m undo físico. Esses resultados colocaram em questão a tradição que im perou durante grande parte do século XX, que explicava todos os processos cognitivos em ter- m os de m ecanism os sim bólicos com putacionais, já que fazia m uito m ais sentido conceber que o curso do pensam ento, nesses casos, im ita os processos que ocor- rem quando estím ulos físicos estão sendo percebidos no m undo. A im agética deveria ser concebida em seus próprios term os, e não com o resultado de um processam ento sintático form al.

Stephen Kosslyn e seus colegas da Universidade de Harvard ( KOSSLYN et al.,

1979 e KOSSLYN, 1980) em preenderam um estudo sistem ático da im agética, fundam entalm ente centrado no estudo da percepção visual. Sua estratégia con- siste em abordar o processam ento de inform ações do sistem a visual através da análise das funções que esse sistem a deve realizar. A visão tem duas funções gerais: reconhecer objetos e partes de objetos; e navegar através do espaço e coorden ar os m ovim en tos. Para execu tar essas fu n ções, o sistem a precisa equacionar algum as necessidades opostas, especificam ente o reconhecim ento da perm anência, unidade e identidade dos objetos, em contraste com suas ocor- rências na percepção, sem pre sujeitas a variações, seja na form a, no tam anho, na posição relativa, na parcialidade e integridade das apresentações.

Para equacionar o problem a do reconhecim ento de objetos totais e suas partes, é necessário considerar um sistem a que codifique partes independente- m ente de sua posição no todo, outro sistem a que codifique posições relativas e ainda um sistem a que coordene a m ontagem do todo. Kosslyn argum enta que, para explicar os tipos de oposição funcional envolvidos nos processos perceptivos visuais, é necessário distinguir dois sistem as operacionais distintos que deno- m inou, respectivam ente, de categorial e contínuo.

O sistem a categorial supõe algum tipo de representação estável arm azenada na m em ória de longo prazo, que perm ite o reconhecim ento de form as particu- lares, inclusive o reconhecim ento, com o conhecidas, de form as nunca vistas antes. Esse sistem a deve registrar im agens prototípicas de objetos, que podem ser acessadas pelas sem pre m utantes m anifestações visuais dos objetos e que per- m item todas essas m anifestações serem reconhecidas com o tais. Estas im agens prototípicas e suas partes são estáveis a m udanças de posição e form a. Consti- tuem as representações do m undo dos objetos. O conjunto de variações visuais que serve para acessar um a im agem prototípica de um dado objeto, Kosslyn cham a de classe funcional de equivalência. O processador categorial ignora as varia- ções na m esm a classe, respondendo ao conjunto de variações com a m esm a representação. O sistem a categorial tam bém representa relações, em especial rela- ções espaciais prototípicas, com o por exem plo, “em cim a” ( independentem en-

te da distância) , “ligado a” ( independentem ente da posição) , “dentro de”, etc... Essas relações prototípicas tam bém constituem classes funcionais de equivalên- cia de relações espaciais que são aplicáveis ao conjunto de im agens de objetos. O sistem a contínuo com puta as distâncias e ângulos, onde um objeto especí- fico está, e onde está o vidente em relação ao objeto. Esse processam ento é necessário para a navegação no espaço, para dirigir as ações m otoras e para fazer discrim inações finas. Kosslyn considera que as com putações contínuas levadas a cabo no sistem a visual não podem ser concebidas com o m edições, no sentido m atem ático usual, pois estas requerem sistem as m étricos com unidades explícitas e coordenadas específicas. Ao contrário, o sistem a visual deve ter à sua disposição um sistem a de com putação de natureza intuitiva e analógica, para servir de guia para a ação m otora e antecipação dos m ovim entos, capaz de integrar o processam ento de várias inform ações sim ultâneas e em períodos de tem po m uito curtos. Para se ter um a idéia disso, basta pensar num jogador de futebol ou basquete no m om ento em que se dirige ao gol ou à cesta, ou m esm o

no cálculo preciso do pulo de um gato.13

Com o am bos os sistem as se integram ? A idéia é de que a inform ação im plí- cita, processada pelo sistem a contínuo é agrupada e afunilada, através de classes funcionais de equivalência, para as im agens prototípicas, incluindo-se aí as representações de objetos, os protótipos, e as representações de relações. Johnson ( 1990) e Lakoff ( 1990) intitulam essas im agens esquem áticas prototípicas de relações de imagens- esquema, term o que tam bém é utilizado por Mandler ( 1992) em seus estudos sobre os prim itivos pré-lingüísticos na form ação de conceitos pelas crianças.

O sistem a de classes funcionais de equivalência que conduz às im agens prototípicas desem penha um papel fundam ental para a organização do siste- m a conceitual, inclusive considerando sua conexão com a linguagem . A in- form ação perceptual, advinda da m esm a ou de diferentes m odalidades senso- riais e qu e varia em gradien tes con tín u os, é agru pada em classes qu e são experim entadas com o equivalentes para o funcionam ento do organism o — equivalência de estrutura, de função, de associação no tem po ou espaço, etc. Essas classes de estím u los fu n cion alm en te equ ivalen tes, con stru ídas com o

1 3 Atualm ente, os m odelos considerados m ais adequados para o processam ento contínuo são

os sub-sim bólicos ou conexionistas. Os m odelos conexionistas, introduzidos num trabalho clássico de Jam es MacClelland e David Rum elhart ( 1988) , são hoje a grande vedete das ciências cognitivas. Com o sua fonte de inspiração é o funcionam ento neuronal, eles divergem dos m odelos sim bólicos tradicionais em duas características fundam entais: não supõem unidades discretas com o representações na base do processam ento, m as sim padrões de conexões que

dão com o output um a representação; consideram o processam ento com o ocorrendo em parale-

lo em m últiplos canais ao m esm o tem po, ao contrário do tradicional processam ento em série dos com putadores.

chunks,14 são representadas com o im agens prototípicas nos sistem as categoriais, provendo um m ecanism o básico de sim bolização, num dom ínio não verbal, equipando o indivíduo com um código sim bólico não verbal, fundam ental- m ente im agético e analógico.

As imagens podem ser, portanto, caracterizadas com o entidades interm ediá- rias entre a experiência sensorial contínua e as representações puram ente sim - bólicas relacionadas com a linguagem . É im portante notar que tanto as im agens prototípicas de objetos quanto as im agens-esquem a não se confundem com im agens concretas ou ‘pinturas m entais’. Elas são representações abstratas e gerais e não estão restritas à percepção visual, um a vez que incluem um con- junto de traços interm odais. São em essência padrões analógicos, com plexos e esquem áticos, que constituem a base da organização da experiência cognitiva, onde ocorrem os processos de pensam ento não verbal, base sobre a qual essa experiência pode ser conectada com a linguagem , fornecendo às expressões lingüísticas seu significado.

Considerem os um exem plo. Na linguagem cotidiana é com um encontrar expressões com o as seguintes para falar das relações am orosas:

Veja quão longe chegamos. Foi uma longa e difícil caminhada. N ão podemos voltar para trás agora. Estamos numa encruzilhada. Talvez tenhamos que tomar caminhos separados. N ossa relação não está indo a lugar nenhum. Estamos patinando. N ossa relação saiu do caminho, perdeu- se na estrada. Chegamos à beira de um precipício. Temos que parar imediatam ente.

Lakoff e Johnson, em Metaphors we live by ( 1980) propõem um tratam ento m etafórico para a sem ântica de expressões com o estas. Consideram a m etáfora não com o um a figura de linguagem que faz parte das gram áticas das línguas naturais, m as com o parte do sistem a conceitual que em basa as línguas. A cognição hum ana contém um sistem a de metáforas conceituais: m aneiras de pensar conceitos abstratos em term os de conceitos m ais concretos, que se refletem na linguagem cotidiana. Assim , o pensam ento m etafórico é concebido com o um m apeam ento de um domínio- fonte para um domínio- alvo, com correspondências ontológicas15 sistem áticas entre as entidades dos dois dom ínios. Isso quer dizer que o signi- ficado de expressões abstratas é obtido através de m apeam entos m etafóricos e m etoním icos a partir do significado de expressões concretas, que estão rela-

1 4 O ter m o chunk pode ser tradu zido por ‘n acos, pequ en os pedaços’. A idéia é exatam en te de

u m com posto de traços fu n cion alm en te equ ivalen tes da m esm a ou de diversas m odalidades sen soriais.

1 5 O ter m o ‘correspondências ontológicas’ está sendo utilizado aqui no sentido das conexões

que se estabelecem nas m etáforas conceituais entre os elem entos do dom ínio-fonte e os elem entos do dom ínio-alvo.

cionadas com a experiência perceptual e m otora dos hum anos com seu próprio corpo e com seu m eio.16

No caso das expressões acim a, tem -se o m apeam ento: AMOR é um a VIAGEM, em que o dom ínio da experiência am orosa é com preendido através do dom ínio concreto das experiências de deslocam ento físico entre dois pontos no espaço. Sua base categorial é a im agem -esquem a: INÍCIO-MEIO-FIM,17 derivada dos deslo- cam entos corporais das pessoas no m undo, quando saem de um lugar para chegar a outro, passando por lugares interm ediários e seguindo um a determ i- nada direção. Disso deriva-se um a lógica básica, que servirá para estabelecer as correspondências ontológicas entre os dom ínios da experiência que estão sen- do considerados em um dado discurso. Quando se sai de um ponto de partida em direção a um ponto de chegada ao longo de um cam inho, deve-se passar por todos os pontos interm ediários e vencer todos os obstáculos desse cam inho. Além disso, quanto m ais longe se está do ponto de partida, m ais tem po passou desde o princípio ( LAKOFF, 1990, p.275) .

No caso do m apeam ento m etafórico referido antes, o conjunto de corres- pondências ontológicas é o seguinte: am antes correspondem a viajantes, a rela- ção am orosa corresponde ao veículo, os objetivos com uns dos am antes correspon- dem ao destino com um da viagem e as dificuldades na relação correspondem aos obstáculos na viagem .

O que constitui a m etáfora AMOR é um a VIAGEM é o m apeam ento ontológico entre dom ínios conceituais, do dom ínio fonte das viagens ao dom ínio alvo da relação am orosa. O m apeam ento cognitivo é prim ário e sua expressão lingüís- tica secundária, um a vez que ele im plica em generalizações dos significados de expressões lingüísticas com base nas generalizações feitas sobre inferências através de dom ínios conceituais.18