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Biló1, ao descrever o contexto no qual foi criado, evidenciou-nos como aquela vila, durante a sua infância, era desprovida de recursos técnicos básicos e de entretenimento, como luz e TV. O rádio parecia ser um artigo de luxo para os seus habitantes.

1 A entrevista com Biló foi realizada no dia 07 de setembro de 2001, no período da manhã, no adro da igreja matriz da cidade, enquanto ele se preparava para organização daquele espaço para a Cavalhada. Essa foi a nossa primeira entrevista feita naqueles dias e teve a presença do professor Miguel, dada a familiaridade que o depoente já tinha com o pesquisador, facilitando o estabelecimento do relacionamento com esse morador, que é reconhecidamente uma autoridade para aquela comunidade, cuja coleta de seu depoimento seria de suma importância para o trabalho em questão. Para o registro utilizamos gravador e fitas cassete, não havendo

oposição do entrevistado, embora fizesse brincadeiras quanto à utilização do “radinho”. Essa conversa teve a

duração de mais ou menos uma hora, com uma pequena interrupção em função do barulho provocado por um caminhão, que trazia o material para a montagem do cenário da festividade que aconteceria à noite, forçando-nos mudar de local, pois poderia prejudicar a audição clara daquele depoimento para a transcrição e futuro tratamento e análise dos dados. Essa entrevista encontra-se analisada em sua integralidade (Araújo, 2003).

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[...] Aquele tempo, aqui no Morro, a gente era... a gente tinha aí uns sete, oito, nove ano, a gente não era um menino ativo, porque a gente não conhecia nada, a gente... aqui não tinha luz, aqui não tinha uma televisão. Ocê não saía do Morro. Cê entendeu? A gente tando aqui dentro do Morro, a gente não saía, a gente não sabia o quê que tava acontecendo fora, nem nada. Então, os menino, hoje.... fosse uma época agora, os menino tava... a gente tava mais ativo, a gente sabia o quê que tava fazendo, o quê que tem... Mas, aquele tempo, a gente não tinha... vô falar que mal-mal um rádio... até dentro de casa a gente não tinha. Era poucas pessoa que tinha rádio, naquela época, aqui no Morro. Então, a gente era menino mais bobo. [...]2.

A ausência de certos recursos, o desconhecimento de outras regiões e o pouco contato com estas, quando ainda era menino, de certa maneira criou um isolamento de tudo o que acontecia no entorno daquela região; colocando-o em uma situação de razoável ingenuidade e desinformação, quando comparada com os dias atuais.

Foi dentro dessa circunstância particular que ele relatou seu interesse pelos acontecimentos internos ao distrito, que lhe suscitaram curiosidades e questionamentos. No convívio com as pessoas e suas práticas locais, surgiam perguntas sobre o que era “promessa” ou sobre as razões do fazer algo e, em suas recordações, começavam a aparecer referências que poderiam responder às suas interrogações: seu pai foi a presença destacada, bem como “outros da igreja”; estes eram aqueles que o introduziam aos conhecimentos acerca das atividades tradicionais próprias de Morro Vermelho.

[...] Então, eu tava com sete ano, os outro falava de promessa, esses trem; então, eu ficava perguntando pra aqueles mais... Igual, tinha papai, tinha os outros na Igreja. A gente escutava... Eu era... Eu ia na Igreja lá, quando eu tava começando mexer, gostando, a gente ficava perguntando os outros tudo que eles ia fazer, a gente queria ajudar, mas a gente perguntava por quê que

era isso... por quê que fazia isso? É igual Senhor dos Passos “Mas, papai, por quê que num pode olhar o Senhor dos Passos trocar de roupa?”. Ele

falou comigo assim... ele falou comigo: “É respeito...”3.

Através das atividades propostas por seu pai, que preparava o adro e os foguetes para a Cavalhada, Biló iniciou a sua co-participação na festa. Acompanhava-o na organização do local em que ocorreria a representação da guerra entre mouros e cristãos realizando atividades

2 LOPES, J. M. José Márcio Lopes - Biló: depoimento [set. 2001]. Entrevistadores: R. A. Araújo e M. Mahfoud. Morro Vermelho: externo, 2001. 1 fita cassete (60 min). Entrevista concedida a Renata Amaral Araújo.

Capítulo 02 – Análise da entrevista com Biló

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como carregar e pintar estruturas simples de madeira, que serviriam para circundar o espaço em que ocorreria aquela festividade tradicional.

Ele [pai] mexia com essas parte do círculo, é que ele mexia é com foguete. Aí, ele punha nós carregando os pau, pondo no buraco, pintando os pau, e isso tudo nós tava fazendo. Aí, depois, ele tava... ele mexeu com foguete, eu já foi

atrás dele acompanhando foguete. Ele até voltava pr‟atrás: “ah, mas menino num pode subir... acompanhando onde tá o foguete não”. Num ia não. Ficava

esperando ele na porta e trem. Mas, eu ia assim mesmo. Ali, dali, eu já fui carregando foguete pra ele, já fui naquele trem e segurando – “Ah, segura aqui

pra mim” – e eu segurando e nisso, depois, já foi passando4

.

Posteriormente, Biló arriscou seguir seu pai na preparação dos foguetes, aceitando, num primeiro momento, auxiliá-lo com os devidos cuidados. Assim, aos poucos, compartilhando esses momentos com seu progenitor, seguindo-o, Biló começou a ser solicitado por ele a realizar certos tipos de tarefa5.

O freqüente contato com o seu pai, a experiência de acompanhá-lo, o envolvimento nas atividades da festa, a satisfação em realizá-las, embora parecessem difíceis para um garoto, foram fatos que introduziram Biló naquele ambiente do qual começava a fazer parte. Mexer com a festa junto de seu pai – acompanhando-o, isto é, indo atrás dele enquanto trabalhava, passando a ajudá-lo concretamente e colaborando adequadamente em certas funções, sob sua supervisão –, permitiu-lhe assumir responsabilidade na festa e “tomar fé”.

Nasceu assim, com os pais. Com... papai mexia, eu acompanhando ele, a gente... ele ia lá pegava um trem e a gente ia atrás; então, assim, a gente foi tomando aquela fé, aquele trem que junto com ele, mexendo, depois a gente assumiu... vai assumindo a responsabilidade de festa. A gente já foi... ficando, assim, com mais fé... mais fé e assim nos tão tendo; igual a gente vai tendo as coisa... igual nós tá hoje... acabou que a gente, agora, já tomando até responsabilidade de festa. Aí, nós... aí, podia... papai, quando

mexia com nós, até xingava também. Às vez, tava com um... “oh, ajuda a carregar os pau aqui, uai, „cês agüenta, leva um” – xingando! Nós

carregando e trem. A gente, pra mexer, falei: “Tô gostando”; aí, já foi passando as coisa pra nós também6.

4 Lopes (2001), op. cit. 5

Percebemos que a situação de isolamento, diante da inserção de Biló nas atividades tradicionais da vila pelo seu pai, foi substituída pela participação efetiva na comunidade, na qual seu genitor, através da transmissão de um ofício, ofereceu-lhe uma possibilidade de sentido à sua vida presente e futura.

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Entretanto, para Biló, esses fatos carregavam um significado que ia além da tarefa que era executada.

[...] Eu lembro... às vez, ele afastava até do Silvinho, se deixava a gente

ficar pra poder... ele falava assim: “Ocês tem que aprender. Hoje, eu tô mexendo; mais tarde, é ocês mesmo”. Então, assim foi tomando a fé, foi

tendo graça em Nossa Senhora aí, mais fé foi dobrando que eu já tive muitas. Então, é nisso que a gente vai tendo fé com Ela e com a festa também. Num pode deixar acabar7.

Havia uma preocupação do pai em relação ao aprendizado dos filhos, pois seriam eles a dar continuidade ao seu trabalho naquele contexto. O que estava sendo “passado” precisava seguir existindo, apresentava um valor que excedia a mera realização aparente do que deveria ser feito8.

Aceitando essa provocação, Biló encontrou, aos poucos, o seu lugar na festa e, assim, foi “tomando fé”, recebendo graças de Nossa Senhora de Nazareth e “tendo fé com Ela e com a festa”. Essa constatação, além de confirmar a importância do que lhe era transmitido, afirmava a necessidade de sua colaboração.

O momento oficial em que essa responsabilidade foi tomada para si ocupou um lugar nas memórias de Biló. Essa ocasião coincidia com dois fatos: o afastamento de seu pai daquele serviço e a sua certeza de que os filhos já eram capazes de assumir a direção daquelas atividades. Foi diante dessa convicção de seu genitor que Biló, mesmo hesitando no início, e seu irmão deram continuidade às tarefas que tinham seu pai como responsável.

Aí, já foi passando. Ele [pai] falava assim: “Ó...” até que o dia que... quando ele tava mais... qu‟ele num tava agüentando mais mexer com essa busca da bandeira l‟embaixo, ele falou comigo, assim: “Esse ano, ocê vai buscar a bandeira l‟embaixo que eu num vô lá não”. Falei assim: “Mas, sozinho?”. Eu falei assim: “Ó, eu... tem que ser ocês, uai? Ocês já queima

foguete, ocê já sabe, ocê olhando os fio pra num dá foguete nos fios de luz,

ocê que vai buscar”. Aí eu fui, e nisso eu fiquei até hoje. Ele falou isso e

largou. Eu e meu irmão; meu irmão também. Ele e minha mãe com o Sílvio, mexendo com Sílvio, e eu com foguete9.

7

Lopes (2001), op. cit.

8 Naquilo que está sendo “passado” para Biló encontram-se presentes não apenas os conhecimentos práticos acerca de uma determinada tarefa na festa, mas, sobretudo, a possibilidade de se alcançar a fé na Padroeira. 9 Ibid.

Capítulo 02 – Análise da entrevista com Biló

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