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A paisagem é uma espécie de geografia afetiva que repercute os poderes de ressonância que os locais têm sobre a imaginação.

Jean-Marc Besse

Mais do que ver a paisagem e retomando a ideia de estarmos inseridos nela, Jean- Marc Besse (2013) fala de porosidade do corpo, de expor-se ao mundo e de experiências sensoriais presentes na elaboração de subjetividades.

(...) a experiência da paisagem exprime uma dimensão da relação humana com o mundo e a natureza, que a ciência moderna deixou de lado: a relação direta, imediata, física com os elementos do mundo terreno. A água, o ar, a luz, a terra, antes de serem objetos de ciência, são aspectos materiais do mundo abertos aos cinco sentidos, à emoção. A paisagem é

uma espécie de geografia afetiva que repercute os poderes de ressonância que os locais têm sobre a imaginação. A paisagem é, antes de mais, da

ordem da experiência vivida, no plano da sensibilidade corporal. (BESSE, 2013, p. 46, grifos meus)

O corpo é a condição de experimentar a paisagem, de receber e conceder afetividades e é por isso que a vida urbana, possibilitada pela relação entre corpo e espaço, acaba por definir, ainda que inconscientemente, algumas zonas de preferência, maior afetuosidade e afinidade. A dificuldade maior dessa “geografia afetiva” descrita por Besse é encontrar a linguagem adequada para expressá-la. Em Santa Tereza, essa linguagem pode ser percebida pelas regiões no interior da paisagem boêmia. Essas experiências se dão ao longo do tempo, se constroem lentamente e se fortalecem no dia a dia, no decorrer da vida.

Nem tudo é objectivável na experiência geográfica que fazemos do mundo. (...) É um saber que exprime, com efeito, uma inteligência quotidiana do mundo e do espaço, uma familiaridade fundada no uso. É uma geografia vivida, tanto quanto pensada. (BESSE, 2013, p. 47)

Besse desenvolve a noção de paisagem com a discussão do sentido de habitar o espaço, trazendo a ideia de que habitar é dar qualidade132 ao tempo em

determinado local, é o desenrolar da vida. Paisagem é, portanto, um ato de habitar e “o lugar habitado é uma realidade nem objetiva, nem subjetiva, mas sim: a expressão de uma vida que, ao mesmo tempo, impregna o espaço e é impregnado pela matéria”. (BESSE, 2013, p. 38) O espaço-tempo habitado, ou seja, a paisagem, expressa a vida que ali acontece, os significados dados, as intenções dos atos, os sentidos; é o cotidiano transfigurado em história.

Ao falar de paisagem, devemos considerar também que ela é “(...) como o conjunto das relações existenciais mantidas pelos humanos com o mundo que os rodeia (...) experimentadas de diferentes maneiras (elas são perceptivas, afetivas, imaginárias, cognitivas, práticas)”. (BESSE, 2013, p. 35) O resultado da maneira como as relações existenciais humanas acontecem no território, de como as pessoas o habitam, é o território carregado de afetividade e sentimentos, experiências e afetos, tornado paisagem.

Deveríamos considerar as paisagens (...) de acordo com a sua maneira de satisfazer as necessidades elementares, como a de partilhar algumas dessas experiências sensoriais num lugar familiar: as canções populares, os

pratos populares, uma espécie particular de clima que seja suposto não ser

encontrado em qualquer outro lado, um desporto ou um jogo especial, praticados unicamente neste local. Estas coisas lembram-nos que nós somos ou que nós vimos de um local particular: um país, uma cidade, um bairro. Uma paisagem devia estabelecer ligações entre as pessoas, a ligação criada pela língua, os usos, a prática do mesmo gênero de trabalho

ou de lazer, mas, sobretudo, uma paisagem devia conter o gênero de

organização espacial que favoreça essas experiências e essas relações: espaço para juntar, para celebrar e espaços para a solidão. (JACKSON, John Brinckerhoff, 2005 apud BESSE, 2013, p. 37)

Anne Cauquelin (2013) interpreta a paisagem a partir de uma perspectiva espaço- temporal e afetiva, ligada à existência, por uma perspectiva que coloca em evidência a afeição e os sentidos para além do olhar. Para a autora, pensar a paisagem “induz ao registro existencial, emotivo, da presença” do indivíduo no espaço. (CAUQUELIN, 2013, p. 21) Nas palavras de Cauquelin, a paisagem dá um nó entre o espaço e o tempo e os torna inseparáveis (CAUQUELIN, 2013).

Para a filósofa, “qualquer tentativa de teorização – ou seja, de fixar um quadro, de formular e de dissecar aquilo que vive e mexe – está voltada a um rearranjo permanente. E até a uma desconstrução parcial”. (CAUQUELIN, 2013, p. 29). E é por isso não podemos nos restringir à visão e ao olho para discorrer sobre paisagem e, mais especificamente no contexto desta pesquisa, sobre as experiências boêmias em Santa Tereza. Elas exprimem afetividades construídas entre indivíduos e bairro, entre indivíduos e bares, entre pessoas e espaços, entre pessoas e sensações. Alain Corbin (2001)133, professor de História do Sensível (ou das Sensibilidades) e da Paisagem, dedica parte de seus estudos a explorar a sonoridade delas. Inicia um trecho acerca do assunto no capítulo Comment l´espace devient paysage134 de sua obra L’homme dans Le paysage com o questionamento: “os historiadores fecharam

os olhos e abriram os ouvidos?” (CORBIN, 2001, p. 30)

Segundo Corbin, Michelet propõe a evocação da sonoridade, ou da falta dela, ou seja, do silêncio, como sugestão de leitura das paisagens para além de descrições, inclusive como forma de reviver e se inserir em paisagens que já não mais existem. As referências aos sons e barulhos característicos de certo lugar funcionariam como um artifício de gatilho da memória. E é isso que acontece frequentemente ao ouvirmos os interlocutores da pesquisa. Rememoram as músicas de determinada época – retreta, seresta – para relembrar aspectos passados do bairro; evocam sons característicos – trem em movimento na linha férrea – para definir os seus limites, ou os limites de sua paisagem; associam a boemia (ou ausência dela) à música e ao burburinho (ou barulho!) das pessoas conversando e interagindo nos bares e à porta deles.

Nos momentos de incursão em campo, observando o movimento das ruas, praças e comércio do bairro, é possível afirmar que sua sonoridade é característica, tanto nos momentos diurnos quanto nas horas reservadas à boemia, durante a noite. Pela certa distância de grandes avenidas de forte movimento de tráfego e pelo parco abastecimento de linhas de ônibus, nas porções geograficamente mais altas do bairro ouvem-se mais sons de vozes do que de carros. As praças de Santa Tereza

133 CORBIN, Alain. Comment l´espace devient paysage; Pratiques d’espace. In: L´homme dans le paysage. Paris: Lés

editions textuel, 2001.

recebem crianças e bebês em seus passeios matinais e vespertinos, bem como idosos que se encontram para conversar e jogar damas, adolescentes no intervalo da escola. À noite, as vozes vindas das conversas nos bares, muitos deles com mesas nas calçadas, enchem o bairro de vida em curso, em plena ação. Sons de copos nas mesas, garrafas se partindo acidentalmente ao caírem no chão, talheres nos pratos. Música aqui e ali, nada que chame muito a atenção, pois como a entrevistada Eliza afirmou anteriormente, não são muitos os bares com música. Há ainda o ruído que incomoda os ouvidos. Os entrevistados afirmaram que não há muitas reclamações quanto ao barulho das pessoas conversando nos bares e da música, mas quando passam carros com som alto ou há brigas na madrugada, é motivo de grande incômodo. Walmir também cita um bar nas proximidades do seu que é motivo de reclamação entre os moradores.

Tem um bar ali na esquina que os vizinhos ficam todos doidos! Ali abre é 23h30, meia noite, aí esse incomoda porque fica até de manhã cedo! O povo fica ali atrás da casa da minha mãe, ali vira um inferno. Mas, no geral, no geral não tem confusão não. (Walmir, entrevista)

Orlandinho também menciona algumas reclamações, mas fala da preocupação em manter um bom relacionamento entre os vizinhos.

Tem reclamação às vezes. O pessoal fala: “pô, o Bar do Orlando tá três, quatro horas da manhã aberto, aquela bagunça”. É por isso que a gente fecha lá pras duas horas. Aí, por exemplo, como a praça é um ambiente muito agradável, o povo acaba continuando, às vezes mesmo sem bebida estão aí, vão fazendo um som (...). A gente é bem calejado com isso. Tem que estar sempre atento para não criar caso. Meu pai sempre preserva isso. Porque a gente é morador também, né? Aí, querendo ou não, a gente tem que dar um auxílio, uma assistência. (Orlandinho, entrevista)

Corbin (2001) cita Olivier Balay, que faz uma análise da cultura sonora e da sensibilidade auditiva por meio de inventário dos barulhos de Lyon, uma cidade considerada sonora. Para Balay cada cultura ou sociedade possui sua paisagem sonora e a paisagem boêmia de Santa Tereza também possui a sua.

A boemia que tem como suporte os bares é uma prática que se dá nesses ambientes, na maioria das vezes coletivamente, com o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja, e pratos conhecidos como tira-gostos. Geralmente, os tira-gostos são comidas simples, como batata frita, mandioca, linguiça, carne de panela, pastel, costelinha, tipicamente servidas em bares. Eduardo Frieiro (1966) fala que

a cachaça engana a fome. Para não relaxar o estômago, o frequentador de botequim pode beber dilatadamente a sua branquinha acompanhando-a de nacos de linguiça frita na hora, o que lhe permite ir longe nas suas libações. (FRIEIRO, 1966, p. 246)

A boemia envolve, portanto, uma tradição de origem popular em Belo Horizonte e em Santa Tereza. Nessa tradição, o preparo dos alimentos é simples e seu consumo desperta memórias relacionadas ao olfato e ao paladar, pois o ato de se alimentar envolve sentir o cheiro do alimento enquanto é preparado, quando de sua chegada à mesa e a degustação em si. Está relacionada a esses pratos tradicionais servidos em bares e às bebidas ali consumidas e, enquanto tradição, não é autoral, mas antes uma apropriação e uma prática coletiva.

Tradição popular, pois, ainda segundo Frieiro

Ao tempo da Comissão Construtora da Nova Capital, era Belo Horizonte um

fervet opus de operários especializados e trabalhadores em geral,

adventícios em sua quase totalidade, gente imigrada da Itália, Portugal e Espanha, sem falar do elemento nacional, construído em maioria de pretos e pardos. Essa população eventual de gente da labuta, a que se juntavam aventureiros e marginais, amontoava-se quase toda num morro que tomou o nome de Alto da Favela, onde é hoje o começo do bairro de Santa Teresa135. Nos botequins eram constantes as bebedeiras, que ameaçavam perturbar a ordem, mantida unicamente em virtude do medo que inspirava o enérgico delegado do lugar, um capitão da polícia militar, assistido por oito soldados”. (FRIEIRO, 1966, p. 249 e 250)

Corbin (1987) 136 também se dedica ao estudo dos odores, evocando o sentido como categoria de análise de valores e práticas sociais e utilizando-se do olfato enquanto uma rica fonte histórica. Podemos falar, então, que há outra dimensão sensorial da paisagem boêmia de Santa Tereza que é composta pelo olfato e pelo paladar, dimensão pela qual podemos acessar determinadas características subjetivas do bairro.

O autor explicita que o olfato é negligenciado enquanto categoria de percepção social por ser um sentido bastante relacionado aos instintos primários dos seres, inclusive dos seres humanos. Mas é justamente por esse caráter primitivo que o olfato se coloca como relevante na percepção da paisagem. E também por trazer à

135 Não foram encontradas fontes que corroborem a origem do bairro Santa Tereza a partir de uma favela, motivo pelo qual

esta versão não é citada no segundo capítulo desta dissertação.

136 CORBIN, Alain. Saberes e Odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia das

tona memórias afetivas e possibilitar a manutenção de tradições conformadas, em grande medida, pelo próprio olfato.