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A narrativa esteve presente em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as sociedades, já que o seu surgimento é concomitante à própria história do homem, que sempre foi um apreciador, independentemente da cultura a qual estava incorporada. Para esta Dissertação, percebe-se a necessidade de conceber uma estrutura de análise da narrativa, visto

que a crônica faz parte desse grupo de histórias que se utilizam da ficção e da criatividade humana.

A partir dessa questão, incorporam-se tópicos de uma análise estrutural da narrativa, propostos por Roland Barthes (1972), que se desvincula de postulados literários, a fim de trabalhar mais intimamente com dados lingüísticos. Uma dessas primeiras idéias trabalhadas encontra-se no entendimento da frase como menor unidade significativa que se relaciona com a literatura, que faz uso da frase para exprimir a sua arte, proporcionando, assim, a visão de que a narrativa é uma grande frase, aumentada e modificada a sua medida.

Surge, então, a idéia de que a narrativa está fundamentada em três processos dominantes e que, de acordo com Carlos Reis & Ana Cristina Lopes (1988: 67), são fundamentais para conceituar o processo narrativo. O primeiro pede uma atitude de distanciamento assumido do narrador em relação ao narrado; o segundo revela uma tendência para uma exteriorização, que se responsabiliza pela caracterização e descrição de um universo autônomo, constituído pelas personagens, espaços, acontecimentos, entre outros. E o terceiro instaura uma dinâmica temporal que se impõe devido à temporalidade inerente à história relatada.

Por essa razão, propõe-se distinguir três níveis que estão interligados de acordo com um modo de integração progressiva da narrativa: funções, ações e narração. Neste estudo, importa a primeira, que permite entender a narrativa em unidades estruturais mínimas, sendo elas unidades de conteúdo, pois apontam o que desejam informar. Para determinar essas unidades mínimas narrativas, é necessário que não se perca de vista o caráter funcional dos segmentos que se examinam, admitindo que não existem possibilidades de coincidência nas diferentes partes do discurso narrativo (ações, cenas, parágrafos, diálogos, monólogos interiores etc.) e nas classes psicológicas (condutas, sentimentos, intencionalidade, motivações, racionalizações das personagens).

De acordo com Roland Barthes (op. cit.: 32), as funções constituem verdadeiras articulações da narrativa (ou de um fragmento da narrativa); outras não fazem mais do que preencher o espaço narrativo que separa as funções-articulações. Para as relações sintáticas das frases, a análise tende a descronologicizar o contínuo narrativo e a relogicizá-lo, a fim de dar uma descrição estrutural da questão cronológica, podendo dizer que a temporalidade não é mais do que uma classe narrativa que entende que o tempo não existe a não ser sob a forma de sistema.

Nesse sentido, entende-se que a idéia de tempo é conceituada como algo múltiplo, admitindo-o como um elemento plural, mas que se baseia em direcionamentos comuns acerca

dos acontecimentos da narrativa: a ordem, a duração e a direção. Nesta pesquisa, dá-se importância ao apontar a idéia de tempo lingüístico, isto é, o tempo do discurso, que revela a condição intersubjetiva da comunicação humana, pois suas divisões atualizam-se no texto escrito junto às direções espaciais.

Na narrativa, o tempo é efetuado por meio das personagens, ou dos enunciados proferidos a respeito delas, que o marcam a partir da utilização de dêiticos13 que funcionam como troca lingüística entre esses interlocutores. Ainda, o tempo lingüístico depende do seu narrador, sendo onisciente ou impessoal, próximo ou participativo em relação ao narrado e da sua relação com as personagens; entende-se, também, que narrador e personagens são essencialmente seres de papel: o autor de uma narrativa não se pode confundir em nada com o narrador desta pesquisa.

No plano imaginário da narrativa, o tempo é apresentado por meio dos acontecimentos e de suas relações com as personagens, mediado por expressões e frases temporais; segundo Benedito Nunes (2003: 25), no mundo imaginário qualquer modalidade temporal existe em função da sua apresentação na linguagem, o tempo da obra – e a mesma condição terá o espaço – é um dos correlatos do discurso. Nessa perspectiva, o discurso é entendido como linguagem concreta, formado por unidades consecutivas que ordenam sucessivamente as representações dos acontecimentos. A narrativa, portanto, é entendida como uma língua sintética, fundada sobre uma sintaxe de encaixamento de palavras e expressões lingüísticas que se desenvolvem na direção de seu tema.

A partir dessa orientação, três direções principais são apontadas, sendo a primeira que trata de reconstruir a sintaxe dos comportamentos humanos empregados na narrativa, de traçar as escolhas às quais cada personagem fica submetido em suas ações. O segundo caminho é lingüístico e tem a sua preocupação essencial de descobrir oposições paradigmáticas nas funções, estendidas ao longo da trama da narrativa. O terceiro caminho propõe estabelecer as regras pelas quais a narrativa combina, varia e transforma certo número de predicados.

Esses três direcionamentos não devem ser encarados como rivais, mas como concorrentes que coexistem e atuam em conjunto, sendo necessária essa visão para descrever detalhadamente e dar conta de todas as unidades da narrativa. Para cobrir essas questões funcionais, impõe-se uma organização de substituição, cujas unidades agrupam-se em seqüências. Uma seqüência é uma série lógica de núcleos, unidos entre si por uma relação de solidariedade, aberta assim que um de seus termos tenha antecedente solidário e se fecha logo

que um de seus termos não tenha outro conseqüente. Trata-se cada um desses pontos de união como sentidos que se imbricam uns aos outros, intercalando-se em outras seqüências que surgem.

Assim, para esta Dissertação, as crônicas selecionadas reúnem-se como textos narrativos, pois apresentam um narrador-personagem, que participa ativamente de uma trama que resgata um cenário maior, a cidade do Rio de Janeiro. Por essa razão, são narrados fatos e opiniões que circularam junto a personagens principais como, por exemplo, o escravo Pancrácio na crônica 19 de maio ou personagens secundárias como as pessoas que votaram nas eleições distritais na crônica 19 de abril.

A dinâmica espaço-temporal de cada crônica segue as características da narrativa, visto que, em um plano, o Rio de Janeiro é pano de fundo para os acontecimentos, mas, também, a Rua do Ouvidor e a casa do narrador são cenários de ações proferidas pelas personagens. Nessa perspectiva, o tempo de cada crônica relaciona-se com o discurso que envolve a trama, proferido pelos enunciadores da narrativa, isto é, o narrador-personagem e as personagens participantes.