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Em virtude das transformações significativas nos processos comunicacionais ocasionados pelas TIC em todos os segmentos da sociedade, cada vez mais, os fenômenos educacionais devem ser compreendidos em um contexto mais amplo e dinâmico, exigindo dos educadores não só conhecimento objetivo e explicativo, mas também métodos de pesquisa que enfatizem o conhecimento intersubjetivo, compreensivo, transdisciplinar, considerando, inevitavelmente, a complexidade dos fenômenos estudados.

Para a pesquisadora Marli André,

Constata-se que para compreender e interpretar grande parte das questões e problemas da área da educação é preciso lançar mão de enfoques multi/inter/transdisciplinares e de tratamentos multidimensionais. Pode-se afirmar que há quase um consenso sobre os limites que uma única perspectiva ou área de conhecimento apresentam para a devida exploração e para um conhecimento satisfatório dos problemas educacionais (ANDRÉ, 2001, p.35).

O presente trabalho insere-se no campo das ciências sociais aplicadas como uma pesquisa exploratória, desenvolvida com o objetivo de proporcionar uma visão geral, de tipo aproximativo, acerca da questão: o professor conhece e/ou utiliza minimamente as mídias interativas – entre elas a TVD - e as integra em seu trabalho docente?

Segundo Antonio Gil (1999, p. 42) as pesquisas exploratórias tem o objetivo de proporcionar uma visão aproximativa de determinado fato e constituem a primeira etapa de uma investigação mais ampla mediante procedimentos mais sistematizados. Por tratar-se de um estudo relacionado ao conhecimento e utilização, por parte dos professores, em relação às TIC nos processos pedagógicos da escola e da sala de aula e por levar em conta a área de atuação e perfil da pesquisadora, escolheu-se a pesquisa qualitativa, tendo como métodos de coleta de dados a observação participante e a entrevista por meio de questionário estruturado online.

As metodologias qualitativas mostram-se cada vez mais presentes em estudos e pesquisas na área de educação. Bogdan e Biklen (1982) apresentam

o conceito da pesquisa qualitativa em educação, baseada em cinco pressupostos básicos que, segundo os autores, configuram este tipo de estudo. No primeiro pressuposto, os autores afirmam que: “a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento.” (BOGDAN e BIKLEN, 1982, apud ANDRÉ, 2008, p.11). O pesquisador deve estar em campo e em contato direto com o meio e situação a ser investigada, visto que “a situação onde os fenômenos ocorrem naturalmente é a de que estes são muito influenciados pelo seu contexto. Sendo assim, as circunstâncias particulares em que um determinado objeto se insere são essenciais para que se possa entendê-lo”. (ANDRÉ, 2008, p.12).

O segundo pressuposto refere-se à coleta de dados: “os dados coletados são predominantemente descritivos.” (BOGDAN e BIKLEN, 1982, apud ANDRÉ, 2008, p.11). O material obtido nas pesquisas devem conter detalhadas descrições de pessoas e situações, o que faz com que todos os dados de realidade sejam considerados fundamentais. Assim, o pesquisador deve apurar sua observação, sem perder de vista qualquer informação ou detalhe, visto que qualquer aspecto corriqueiro pode ser considerado essencial para o melhor entendimento da situação estudada.

O terceiro aspecto importante na opinião de Bogdan e Biklen sobre a pesquisa qualitativa é o processo. Para esses autores, “a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto.” Neste sentido, ao estudar um determinado problema ou situação, o interesse do pesquisador deve estar voltado muito mais para o momento em que tal situação ocorre no cotidiano, do que com o resultado que ela possa ocasionar. (ANDRÉ, 2008, p.12).

O quarto pressuposto está diretamente relacionado ao “significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida” que deve ser um dos principais focos de atenção do pesquisador. Para Marli André:

Nesses estudos há sempre uma tentativa de capturar a “perspectiva dos participantes”, isto é, a maneira como os informantes encaram as questões que estão sendo focalizadas. Ao considerar os diferentes pontos de vista dos participantes, os estudos qualitativos permitem iluminar o dinamismo interno das situações, geralmente inacessível ao observador externo. (ANDRÉ, 2008, p.12).

Por isso é fundamental que o pesquisador seja cuidadoso com relação às suas percepções em relação aos pontos de vista dos informantes,

checando, sempre que possível, com outros pesquisadores ou mesmo a partir de discussões abertas com os próprios participantes, de forma a serem confirmadas ou não.

O quinto é último pressuposto abordado por Bogdan e Biklen é sobre a tendência da análise dos dados seguir um processo indutivo.

Os pesquisadores não se preocupam em busca evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos. As abstrações se formam ou se consolidam basicamente a partir da inspeção dos dados num processo de baixo para cima. O fato de não existirem hipóteses ou questões específicas formuladas a priori não implica a inexistência de um quadro teórico que oriente a coleta de dados e a análise dos dados. O desenvolvimento do estudo aproxima-se a um funil: no início há questões ou focos de interesse muito amplos, que no final se tornam mais diretor e específicos. O pesquisador vai precisando melhor esses focos à medida que o estudo se desenvolve. (ANDRÉ, 2008, p.13).

Nos anos 80 e 90 os temas e referenciais relacionados à educação diversificaram-se e foram complexificados, o que resultou em mudanças significativas também nas abordagens metológicas e intensificação nos estudos qualitativos, que contém uma diversidade de leituras, perspectivas, métodos, de técnicas e de análises, compreendendo desde estudos do tipo etnográfico, pesquisa participante, estudos de caso, pesquisa-ação até análises de discurso e de narrativas, estudos de memória, histórias de vida e história oral (ANDRÉ, 2001, p. 36).

A pesquisa qualitativa faz uso do ambiente natural como fonte direta de coleta de dados, preocupando-se com o processo, demonstrando como ele se manifesta nas situações do cotidiano. A grande aceitação da pesquisa qualitativa no campo da educação se dá devido ao seu potencial para estudar as questões relacionadas à escola, pois se entende que pesquisador não faz um retrato - ou reprodução - da realidade, mas uma interpretação dela. Para Marli André (2007, p. 25) das preocupações com o peso dos fatores extraescolares no desempenho de alunos, passa-se a uma maior atenção ao peso dos fatores intraescolares: “é o momento em que aparecem os estudos que se debruçam sobe o cotidiano escolar, focaliza o currículo, as interações sociais na escola, as formas de organização do trabalho pedagógico, a aprendizagem da leitura e da escrita, as relações da sala de aula, a disciplina e a avaliação”.

A relativização implica em deslocar o foco do observador para o eixo de referência do universo investigado, o que deverá resultar em um estranhamento, caracterizado pela distância adotada da situação a ser investigada, de modo a assimilar os modos de pensar, sentir, agir, os valores, as crenças, os costumes, as práticas e produções culturais dos sujeitos ou grupos estudados. O pesquisador deve interagir com a situação estudada, contaminando-se dela e contaminando-a, o que implica em um cuidado especial para que não interfira a partir de sua opinião, prejulgamento e pontos de vista. Na pesquisa qualitativa, não é necessário o problema estar ligado a uma linha teórica predeterminada ou explicitar uma hipótese, sendo suficiente que o pesquisador apenas possua um esquema conceitual que possa originar questões relevantes. Diferentemente de outros esquemas de pesquisas, a pesquisa qualitativa parte do princípio de que o pesquisador pode modificar os seus problemas e hipóteses durante o processo de investigação.

Na presente pesquisa a coleta de dados foi realizada no contexto escolar das escolas em que a pesquisadora atua, baseando-se fundamentalmente em textos técnicos, nas observações in loco durante suas aulas e registros em notas de campo, bem como na entrevista por meio de questionário estruturado online no decorrer das aulas. O questionário aplicado online buscou diagnosticar o conhecimento dos professores no que se refere às TIC e à TVD – definição e conceitos básicos, funcionamento, possibilidades de utilização em processos educacionais, como também investigar de que forma estão integradas ao cotidiano das aulas em geral. Desta forma, buscou- se contemplar os cinco pressupostos básicos que caracterizam a pesquisa qualitativa abordados por Bogdan e Biklen (1982).

Segundo Marli André, nas novas abordagens de pesquisa educacional, a observação é tão ou mais importante que a entrevista, podendo ser utilizada como o principal método investigativo ou ser associado a outras técnicas de coleta. Além disso, a observação privilegia um contato mais próximo do pesquisador com o objeto a ser estudado, pois a “experiência direta é sem dúvida o melhor teste de verificação de ocorrência de um determinado fenômeno.” (ANDRÉ, 2008, p. 26). Para a autora, a técnica de observação apresenta vários pontos positivos:

Sendo o principal instrumento da investigação, o observador pode recorrer aos conhecimentos e experiências pessoais como auxiliares no processo de compreensão e interpretação do fenômeno estudado. A introspecção e a reflexão pessoa tem papel importante na pesquisa qualitativa.

A observação direta permite também que o observador chegue mais perto da “perspectiva dos sujeitos”, um importante alvo nas abordagens qualitativas. Na medida em que o observador acompanha in loco as experiências diárias dos sujeitos, pode tentar apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que eles atribuem à realidade que os cerca e às suas próprias ações. (ANDRÉ, 2008, p. 26).

As técnicas de observação permitem ainda outras vantagens como, por exemplo, a possibilidade de desvendar aspectos novos e não previstos no estudo de um problema, principalmente nas situações em que a coleta de dados não está pautada em uma base teórica sólida; bem como a possibilidade da coleta de dados em situações onde as formas de comunicação estão comprometidas, muitas vezes por conta dos participantes não divulgarem nenhum tipo de informação, por motivos diversos. Neste trabalho, a observação foi utilizada de forma ampla e irrestrita, relatadas a partir de situações vivenciadas no cotidiano das aulas da pesquisadora e de seus colegas professores, de forma a assegurar características importantes de uma pesquisa qualitativa em educação.

Assim, este trabalho foi construído a partir das percepções, hábitos e atitudes em relação às TIC, estabelecido em pesquisa com um grupo de professores da rede privada em todos os níveis de atuação, tratando-se de uma amostra não probalística, adequada para um estudo exploratório. Como continuidade a este trabalho, é possível realizar projeções para o todo o universo de professores, por meio de estudos estatísticos adicionais a partir das hipóteses levantadas nesta pesquisa.