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3. Hamsun, Brandes og Nietzsche

3.1. Knut Hamsun og veien mot Sult

Desde a Antiguidade, várias tentativas surgiram a fim de explicar as diferenças de comportamento entre os homens, a partir das variações dos ambientes físicos – Marcus V. Pollio, arquiteto romano, Ibn Khaldun, filósofo árabe do século XIV, Jean Bodin, filósofo francês do século XVI, entre outros, foram alguns dos que buscaram responder algumas questões sobre a cultura (LARAIA, 1996).

A espécie humana, conforme Laraia (1996), rompeu com suas próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda natureza e se transformou no mais temível dos predadores: “Tudo isto porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura” (p. 24). Então, o que é cultura?

De acordo com este autor,

O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam (LARAIA, 1996, p. 46).

Tudo que o homem faz, ele aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura. Ou seja, toda a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação. É tão importante a cultura que, juntamente com o bipedismo e de um adequado volume cerebral, é uma das características da espécie humana (LARAIA, 1996).

Segundo Thompson (1995), o conceito de cultura possui uma história própria, longa e complicada, uma história que tem produzido muitas variantes e muita ambigüidade. Diversos conceitos, teorias e concepções surgiram, cada qual defendendo uma posição que ora divergia de outra. No entanto, algumas teorias modernas sobre cultura tem se empenhado na reconstrução desse conceito, fragmentado por numerosas reformulações (LARAIA, 1996).

Dentre aqueles com o propósito de reformulação do conceito de cultura, encontra-se Thompson, que faz ressalvas sobre a amplitude de algumas conceituações.

O conceito de cultura, de acordo com Thompson (1995), se usado no sentido de englobar tudo o que “varia” na vida humana, afora os desvios físicos e as características fisiológicas dos seres humanos, se torna vago e redundante, pois perde a precisão que beneficiaria uma disciplina que busca estabelecer suas credenciais intelectuais.

Thompson (1995), em sua obra Ideologia e cultura moderna, ao revisar o desenvolvimento do seu conceito, distingue três concepções de cultura: a concepção clássica, a concepção descritiva e a concepção simbólica. Acrescenta a essas concepções, a concepção estrutural, formulada por si próprio. Cada concepção possui seus principais teóricos e conceituadores.

A concepção clássica de cultura é aquela que pode ser definida, de maneira ampla, como o processo de desenvolvimento e enobrecimento das faculdades humanas, um processo facilitado pela assimilação de trabalhos acadêmicos e artísticos e ligado ao caráter progressista da era moderna (THOMPSON, 1995). Tal conceito dialoga com os preceitos do Iluminismo e com as crenças no progresso da humanidade por meio do conhecimento. Ainda hoje existe essa visão sobre o termo “cultura”.

A concepção descritiva de cultura entende que a cultura de um grupo ou sociedade é um conjunto de crenças, costumes, idéias e valores, bem como os artefatos, objetos e instrumentos materiais, que são adquiridos pelos indivíduos enquanto membros de um grupo ou sociedade (THOMPSON, 1995). Os principais representantes dessa concepção são Gustav Klemm e E.B. Tylor.

A concepção simbólica de cultura caracteriza como o padrão de significados incorporados nas formas simbólicas, que inclui ações, manifestações verbais e objetos significativos de vários tipos, em virtude dos quais os indivíduos se comunicam entre si e partilham suas experiências, concepções e crenças (THOMPSON, 1995). O maior representante dessa concepção é Clifford Geertz (1989), com sua obra A interpretação

das culturas.

Considerado o pai do conceito moderno de cultura, o antropólogo inglês Edward Tylor acreditava, vide sua obra Primitive Culture (1871), que cultura é um conjunto complexo de conhecimentos, crenças religiosas, arte, moral, direito, costumes e todas as outras aptidões e hábitos que o homem adquire como membro da sociedade (TYLOR, 1871. In: CASTRO, 2005).

Geertz (1989) defende um conceito de cultura mais limitado, mais especializado e teoricamente mais poderoso. Além disso, defende também uma visão neutra sobre a cultura por parte do antropólogo, sem cair nas armadilhas do etnocentrismo e do preconceito. Para ele, “compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir sua particularidade” (GEERTZ, 1989, p. 24).

No entanto, para Geertz (1989) não existe o que se chama de natureza humana independente da cultura. Ou seja, é possível perceber a complexidade e a importância da cultura para a natureza humana do ser humano. Em outras palavras, os seres humanos sem a cultura “seriam monstruosidades incontroláveis, com muito poucos instintos úteis, menos sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto: verdadeiros casos psiquiátricos” (p. 61).

Assim,

Sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens (GEERTZ, 1989, p. 61).

Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas (GEERTZ, 1989, p. 64).

É necessário descer aos detalhes, muito além das etiquetas enganadoras, dos tipos metafísicos, das similaridades vazias, para apreender corretamente o caráter essencial não só das várias culturas, mas também dos diversos tipos de indivíduos dentro de cada cultura, para assim encontrar a humanidade face a face (GEERTZ, 1989).

Uma afirmação conhecida de Geertz (1989) é que todo ser humano nasceu com um equipamento para viver mil vidas, mas termina no fim tendo vivido apenas uma. Ou seja, o ser humano, ao nascer, está apto a ser socializado em qualquer cultura existente, porém se socializa num contexto específico onde de fato ele cresce.

Cultura, de acordo com a Antropologia, é o conjunto complexo dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico, e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de comportamento, crenças,

instituições, valores espirituais, criações materiais etc. (FERREIRA, 1999). Em síntese, é um processo através do qual a humanidade atribui sentidos ao mundo.

Dessa forma, percebe-se que a cultura é um bem intangível, não só inerente como indispensável a todo corpo social. Cultura é, assim, de caráter imaterial, simbólico e totalmente dependente de redes sociais, mas também algo que, embora abstrato, se manifesta de forma concreta sob várias maneiras.