4.2.1. A Escolha da Profissão
Haddad (2000) aponta a profissão de enfermagem como essencialmente feminina, relacionada com o ato de cuidar e cuja origem etimológica da expressão enfermagem refere-se à palavra nurse, que originalmente significa aquela que nutre, que cuida de crianças e, que por extensão, assiste ao doente, e o termo enfermeira, no português, designa as pessoas que cuidam dos infirmus, ou seja, daqueles que não estão firmes, como crianças, velhos e doentes.
A autora relata que, sob estas características, o trabalho de enfermagem foi executado até o final da idade média por religiosas, viúvas, virgens e nobres, tendo como objetivo central a caridade. As mudanças sociais ocorridas neste período incorporaram também, neste grupo, as prostitutas, que buscavam a própria salvação, prestando cuidados aos enfermos.
Oliveira (2005) cita o conceito de “cuidar” de Boff (1999) que se refere a mais que um ato, é uma atitude de ser, de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento com o outro; significa reconhecer o cuidado como um modo-de-ser essencial.
Aparece enfaticamente nas falas das enfermeiras quando indagadas acerca dos motivos da ‘escolha’ da profissão de enfermagem, a referência ao cuidar, a importância de estar inserida na área de saúde, estar perto do enfermo, enfim, o seu caráter “cuidador”:
“[...] Esse desejo foi desde adolescência mesmo né [...] assim
sempre mexer com a área de saúde [...]. Eu queria tá sempre por perto de quem tava doente, meu problema era a saúde da pessoa.”
“[...] eu escolhi uma profissão da área de saúde, eu queria uma profissão na área da saúde e dentro as profissões eu fui pesquisar... a qual que eu tinha mais identificação, né [...]. Eu sabia que eu queria cuidar de pessoas, não sabia de que forma [...].”
“[...] bem, desde adolescente eu gostava muito de trabalhar, de lidar com pessoas doentes, vamos dizer doentes, da família, né? E eu comecei, me interessei pela área de saúde [...].”
Percebemos, entretanto, que a sua grande maioria apontava inicialmente o desejo principalmente para cursos como o de medicina e de odontologia:
“Desde que eu estudava que eu queria área de saúde né, o primeiro vestibular eu fiz pra medicina, eu queria muito só área de saúde, aí fiz o meu primeiro vestibular pra medicina, não passei [...].”
“Eu tinha muita vontade de fazer odontologia, aí fiz o primeiro vestibular não passei, aí fiz o segundo não passei [...].”
Mas, apesar de escolherem primeiramente outros cursos, revelaram atualmente sentirem satisfação e afinação com a profissão da enfermagem. Retomaremos este ponto mais adiante.
4.2.2. A Inserção e a Formação Profissional na Estratégia Saúde da Família
A ESF permitiu às enfermeiras um outro tipo de inserção profissional, quando comparada aos hospitais, por exemplo. Percebe-se um avanço da categoria, quanto à participação igualitária nas decisões tomadas pela equipe, e principalmente, quando se refere à sua relação com a categoria médica, como também na relação enfermeiro-
comunidade e, na forma como esta comunidade as percebe na escala hierárquica (Araújo, 2004-2005).
O processo seletivo se deu de forma uniforme, por intermédio de entrevistas e análise curricular. Mesmo no caso de uma enfermeira apresentada por indicação para o cargo, esta submeteu-se aos mesmos critérios acima. Após esse processo, as profissionais pioneiras, participaram de um curso, chamado de introdutório, onde se apresentava a proposta do Programa, como também às qualificavam para os atendimentos à comunidade.
No tocante à formação profissional na graduação acadêmica, apenas duas enfermeiras tiveram acesso, às disciplinas e estágios voltados para Saúde da Família e Saúde Pública:
“[...] eu sempre procurei desenvolver projetos [...] projetos de pesquisa e projetos de extensão. É [...] disciplinas eletivas, todas voltadas pra área de saúde coletiva [...] eu sempre procurei me identificar muito com estágio no PSF [...]. Quando eu terminei a graduação o meu intuito sempre foi Saúde da Família que é a minha paixão [...]. Eu e minha esposa, que também é apaixonada por PSF [...] nós dois tínhamos interesse por PSF, houve uma oportunidade e a gente abraçou, foi ótimo e foi isso.”
“[...] quando terminei a graduação eu me sentia muito preparado pra atuar no PSF [...] eu me sentia preparado teoricamente né, é claro, e praticamente também devido a muita carga horária em estágios eu também sentia preparado na prática pra atuar no PSF.”
Quanto à maioria que não teve a formação específica na área, apenas restou a alternativa de desenvolvê-la na prática diária. Elas relatam que, foi no exercício da atividade que adquiriram, gradativamente, os conhecimentos necessários, como também, a forma adequada de trabalhar com a comunidade.
“[...] aí eu dizia: vou não, vou não, mas aí quando entrei em saúde pública aí vi que era diferente, não era o que eu pensava e adoro saúde pública [...] faz [...] mais de 20 anos eu estou na saúde pública.”
“[...] eu nunca tinha ouvido falar no PSF [...] tinha uns rumores do PSF, que era um pro [...] não minto, do PACS, que era um projeto novo, [...] depois ouvi falar no PSF, então comecei a pensar como é que eu faria pra ingressar.”
As profissionais que se inseriram a partir dos últimos de cinco anos, não contam mais com o recurso do curso introdutório em sua formação, ao contrário das mais antigas, que relataram como o mesmo contribuiu, mesmo que minimamente, para a compreensão das atividades necessárias à Estratégia.
“Bem, existia né, existia uns [...] uns cursos introdutórios, certo, que era justamente pra formar, vamos dizer, o pessoal, qualificá-los melhor pra desenvolver a estratégia saúde da família, mas nós não chegamos a concluí-lo não o introdutório por completo. Ele é em módulos, fizemos uma parte e outra, e outra parte ficou pra posteriori, ficou pra ser desenvolvido depois e hoje em dia, parece-me até que já foi extinto esse introdutório, o que aconteceu, o que nós tivemos assim oportunidade de fazer foram vários cursos e vários treinamento específicos assim, tubérculos, hanseníase, pequenas capacitações [...]”.
A portaria No 1.886 de 1997, do Ministério da Saúde, preconiza a criação de uma rede nacional/regional de intercâmbio de experiências, com o objetivo de socializar o processo de produção de conhecimento em Saúde da Família. Dessa forma, uma das responsabilidades do governo estadual é promover a articulação com as instituições de ensino superior para capacitação, formação e educação permanente dos recursos humanos de Saúde da Família, além de procurar integrar os pólos de capacitação, formação e educação permanente das equipes, no que se refere à elaboração, acompanhamento e avaliação de seus objetivos e ações. À parcela do governo municipal é dado garantir a capacitação e educação permanente das equipes, com o apoio da Secretaria Estadual de Saúde (Brasil, 1997).
Apesar das pioneiras terem se beneficiado do treinamento introdutório, na fase da implantação do inicialmente designado Programa Saúde da Família, ainda houve, conforme vimos anteriormente, insuficiência do treinamento preconizado pelo Ministério da Saúde.
“Quando eu entrei no PSF foi muito bom, muito diferente de hoje, porque naquela época, como era implantação, então existia uma verba do ministério da saúde, que vinha para o NESC, da Universidade Federal e, nesse núcleo eram feitos os treinamentos, então, fiz o treinamento introdutório, fiz a saúde da mulher, fiz saúde da criança, foi muito boa essa época. Hoje não tem mais, não tem mais, as pessoas entram no PSF, através de equipe, de um profissional mais antigo é que vai aprendendo o que é, como é que se trabalha, de boca a boca.”
“Nenhum programa, é [...] jogado assim pra gente é, a gente sempre fala nisso, nesse sentido em reunião que isso tá muito errado, porque a gente sofre muito né, porque a gente aprende a custas do dia-a-dia.”
Questionadas acerca da não continuidade do módulo, uma das entrevistadas respondeu:
“[...] só especulações né, alguns dizem que é por conta da gestão, não dá aí teve que fazer muitas alterações né, questão de governo mesmo, política mesmo.”