1.6 Kjemisk bakgrunn
1.6.2 Knoevenagel kondensasjon
Na busca do consenso em opinião pública, a mídia pode construir simulacros. Quem denuncia essa estratégia de manipulação é o pesquisador Mamoru Ito, ao analisar programas de televisão no trabalho acadêmico intitulado Television and Violence in the Economy of Memory. Ito esquadrinha a estratégia da televisão japonesa para criar uma memória coletiva a partir de abordagem autoritária, construída com artifícios, tais como releituras pseudocientíficas, falsificação histórica, hipervalorização da produção tecnológica do país e ambientada numa atmosfera ufanista.
O trabalho do pesquisador se ateve a dois programas analisados a partir das técnicas de produção e posteriormente confrontados com estudos de recepção. Um deles é o Project X: The Challengers, veiculado em março de 2000. O segundo programa foi denominado Nippon Hoso Kyokai: Special Edition Judgin War. Ito parte do princípio de que a retórica política adotada pelo Japão no pós-guerra consiste em
supervalorizar o modelo desenvolvimentista como artifício para tentar fazer o país esquecer a humilhação sofrida na Segunda Guerra Mundial. A abordagem dos programas analisados por Ito estava perfeitamente alinhada com a política interna de recriar este novo Japão. Como se existisse um país capaz de sair de um confronto com a magnitude destrutiva da Segunda Guerra Mundial sem sequelas, ainda mais com as bombas atômicas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki (ITO, 2002).
Ito (2002) tomou como base as transmissões do Project X a partir de outubro 2001 em cima de três episódios específicos de um universo de 70 capítulos. Ele observou que os temas do Project X estavam relacionados com eventos ocorridos entre 1955 e 1974 e ressaltou que 50% dos programas tinham o foco nesse período. O objetivo era conquistar a atenção de quem “chegou aos 70 anos”, ao enfocar imagens e experiências relacionadas com a labuta dos antigos e ao criar um nexo causal com os avanços do Japão. A primeira característica do programa era rechear os episódios com depoimentos do cidadão anônimo, de maneira a torná-lo o principal personagem.
Uma segunda característica diz respeito ao conteúdo em que predominavam notícias das dificuldades enfrentadas por engenheiros e técnicos responsáveis pelo desenvolvimento de novas tecnologias, com as quais o Japão conheceu as décadas de ascensão econômica. Para esquentar a audiência, a retórica de dramaticidade e melodrama tomava conta da cena. Saúde e meio ambiente recebiam um tratamento menos importante. Apesar da proposta de privilegiar o anonimato, ganharam destaque os relatos de jovens que se transformaram em proeminentes engenheiros e técnicos.
Outro aspecto é o fato de que sete ou oito pessoas apareceram na maioria dos 70 episódios. É o caso de Washizuka Wada. Ele teve mais visibilidade por ter desenvolvido, a partir de 1964, as tecnologias de uma nova geração de telas de liquid crystal (cristal líquido), com a qual o Japão venceu uma batalha tecnológica, industrial e comercial contra os Estados Unidos. A tecnologia de Wada culminou com o surgimento das primeiras calculadoras com tela de cristal líquido e, a
posteriori, originou os monitores de computador e as telas de TV LCD. No Project X, Wada foi alçado ao papel de herói nacional.
Mais adiante, Ito comenta o episódio intitulado “A conquista mundial do quartzo”. A série de reportagens contemplou a história da introdução do quartzo no relógio, comercializado pela primeira vez em 1969. Neste caso, do outro lado da trincheira estavam os suíços, e o programa perguntava quem detinha a liderança mundial de relógios eletrônicos.
Ao mesmo tempo Project X respondia ao questionamento e alçava os japoneses como campeões mundiais em comercialização de relógios eletrônicos de primeira linha. O episódio 68, The Piano Richter Loved, bate na tecla do piano de cauda Yamaha, e o objetivo era mostrar como os técnicos responsáveis pela fabricação do instrumento trabalharam para reverter a avaliação ocidental de que essa marca de piano, apresentada ao mundo em 1950, era imprópria para as grandes salas de concerto, por sua afinação soar imperfeita aos ouvidos dos concertistas de renome internacional, detentores de ouvidos absolutos.
Entretanto, o episódio revaloriza o piano de cauda Yamaha e lhe confere a qualidade de fazer frente aos similares de marcas tradicionais, como, por exemplo, os pianos da marca Steinway & Sons, considerados como uma espécie de Ferrari dos pianos e que são fabricados artesanalmente há mais de um século. Mais
adiante, aparece o estudo de recepção com os telespectadores. O objetivo era verificar como a audiência assimilou a emissão dos programas. Um telespectador disse que as cenas externas eram a principal atração. Quando as imagens migravam para o estúdio, a tendência era a família se retirar da sala. Mas o pai ficava em frente à telinha até o fim. Para Ito, Project X conseguia atrair a atenção de pessoas de diversas gerações, as quais recebiam as informações de maneira diferenciada.
Um número expressivo de jovens em idade escolar ficou impressionado com o prestígio internacional das corporações japonesas para enfrentar a competição tecnológica na arena mundial. Outro grupo de jovens de ambos os sexos ressaltou o aspecto humano das relações de trabalho e demonstrou especial interesse na
capacidade do Japão em conciliar a atividade laboral com as relações humanas e com a produção tecnológica.
Algumas respostas destacadas pelo pesquisador a partir de suas entrevistas com o público jovem: “1) Fez-me consciente de mim como um japonês; 2) Isso me fez perceber os japoneses são muito grandes, também; 3) A coisa que mais me impressionou foi a dedicação dos engenheiros japoneses; 4) Incentivou-me a ver que japoneses são capazes de grandes coisas”.
Ito (2002) considera essas séries de programas como uma espécie de gatilho capaz de fazer disparar no imaginário do público jovem a sensação de que o sucesso está ao alcance de todos. Segundo Ito, a linguagem dos programas foi inspirada numa campanha publicitária governamental dos anos 70, denominada "Descubra o Japão". A ideia era conduzir o espectador a um consenso nostálgico, mas usando signos do presente, calcados nas proezas tecnológicas do país. Ito detecta na própria concepção de Project X a intenção manifesta de estabelecer um ambiente sociopolítico favorável à visão oficial sobre a reconstrução do Japão do pós-guerra. Analisadas as características, Ito alerta: a série foi concebida numa tênue fronteira entre o documentário convencional e o folhetim, em que as conversas de estúdio eram ilustradas com fotografias antigas dos entrevistados. Havia ainda uma variedade de imagens de vídeo em que os textos se assemelhavam aos dos roteiros de teatro (ITO, 2002).
O segundo objeto dos estudos de Ito se refere ao programa ETV 2001 Series “Special Edition: Judging War” (Julgando a Guerra). Tratava-se novamente de reintroduzir na memória coletiva do Japão o debate sobre a Segunda Guerra Mundial. Os programas estavam centralizados no julgamento realizado anos antes sobre os crimes sexuais cometidos pelos militares japoneses contra as populações de mulheres de países ocupados, sobretudo na Coreia, onde até hoje, grupos de vítimas estão organizados e exigem reparações e pedidos formais de desculpa por parte do governo japonês.
No Japão, a historiografia minimiza as causas e consequências da participação do país na Segunda Guerra Mundial. De acordo com o pesquisador, o
programa foi mais uma tentativa de retomar o tema "crimes contra a humanidade", um conceito importante no direito internacional, que recebeu atenção renovada em países envolvidos com crimes de guerra, como a Alemanha e a França. A série foi produzida, a princípio, com o propósito de demarcar o papel de cada nação no conflito e apontar as responsabilidades de cada um. Dentro desse espírito, Judging War, abordou os julgamentos do Tribunal Internacional Penal para crimes contra mulheres, de Haia.
Contudo, na véspera da transmissão, a versão do programa, que já tinha sido aprovada pelas autoridades do tribunal, foi sumariamente reeditada pela TV estatal do Japão, a NHK. “O que foi alterado?”, indaga Ito. Em primeiro lugar, a violência sexual atribuída diretamente às unidades japonesas não foi apresentada como um fato sistemático, mas sim como atitude isolada praticada por alguns militares. Ito critica o programa de TV ao comentar que a Corte de Haia responsabilizou o estado japonês por esses crimes de guerra.
As alterações no conteúdo de Judging War incluíram a supressão completa do acórdão por meio do qual o Japão é incriminado formalmente. Os editores retiraram também as expressões “exército japonês” e "imperador". Na carona da supressão do conteúdo do acórdão, o programa promoveu toda a sorte de revisões. Foram cortadas as entrevistas concedidas por ex-combatentes, confirmando a prática de crimes.
Os editores supervalorizaram os comentários dos especialistas, os quais davam conta de que a decisão do tribunal não produzia efeitos jurídicos imediatos e não havia necessidade de reparação. Na ótica do pesquisador, essa estratégia deu certo porque os estudos de recepção revelaram que a parcela jovem da audiência entendeu ser essa a forma correta de o Japão tratar as feridas da Segunda Guerra Mundial.