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Knocked into Subjectivity

CHAPTER 6............................................................................................................................................................... 73

6.4 S UBJECTIVITY AS P ERSONAL C HOICE

6.4.4 Knocked into Subjectivity

Neste trabalho, nos propusemos a expor e a analisar a ação política da Igreja Católica na ditadura militar, tendo o bispado como unidade de análise. Esperamos que tenha ficado clara a complexidade do tema: se, por um lado, quando os canais de contestação ao regime militar foram reprimidos ou eliminados, a Igreja Católica permaneceu como um espaço em que a discussão política era possível, de outro é preciso salientar que a ideia de que os bispos eram unívocos na oposição, mesmo após 1968, é falaciosa. Embora tenham passado por momentos de muita tensão, Igreja e Estado nunca romperam completamente suas relações.

Trinta e um anos após a redemocratização do Brasil, a pesquisa sobre o tema da ditadura militar ainda encontra os seus desafios. O primeiro, sempre comum às pesquisas históricas, é o acesso a fontes documentais seguras e organizadas: documentos públicos sem filtro de chaves de pesquisa; jornais que apresentam lacunas na seriação; arquivos privados (como os das igrejas) que demandam um relativo capital social para alcançar autorização; etc. O segundo é confrontar com novas propostas de pesquisa aquelas já consolidadas não só na literatura mas sobretudo na memória histórica: um bom exemplo é a ideia de “bispos progressistas” elaborada por uma literatura simpática às atividades de oposição de determinados membros da Igreja, que reforçou após a redemocratização a imagem do bispo-herói, deixando para trás significativas divergências entre os epíscopos e toda a complexidade que pode conter o viés explicativo da ação política.

De um modo geral, mesmo sem consenso sobre os procedimentos políticos, havia uma concordância entre os bispos no repúdio moral ao uso da violência, que fica claro no documento de 1977, Exigências Cristãs de uma Ordem Política, pautada nas diretrizes da Doutrina da Igreja. Contudo, se considerarmos o grau de autonomia que os bispos possuem na diocese que governam, veremos que os fatores de constrangimento e estruturação da instituição per si não permitem estabelecer um grau de racionalidade nas diversas formas de agir politicamente que os bispos assumiram.

Por isso tentou-se, no estudo dos casos de São Carlos e Assis, encontrar evidências de que a relação entre a instituição e o comportamento individual do bispo está expressada na concepção de missão (motivação simbólico religiosa que o motiva a tomar determinadas decisões) e na rede de que o epíscopo dispunha enquanto estava no comando da instituição.

No que se refere a São Carlos, dom Ruy Serra era um bispo bem relacionado com os industriais da cidade, tinha presente em sua fala um anticomunismo muito claro e fora acusado de participar da perseguição política na cidade. Dom José Lázaro deliberadamente se esquivava de assuntos políticos, transferindo em grande parte essa responsabilidade para Monsenhor Floriano Garcez, seu braço direito, mas que, no fim das contas, fazia com que o bispado servisse de abrigo a católicos que sofressem perseguição política. Para resumirmos um pouco o perfil destes bispos, podemos destacar:

Tabela 4 – Perspectivas dos bispos de São Carlos e Assis

Dom Ruy Serra Dom José Lázaro

Participou das Marchas da Família com Deus pela

liberdade e atividades anticomunistas afins?

Sim Sim

Instituíram a Comissão de Justiça e Paz para averiguar

infrações aos Direitos Humanos em sua diocese?

Não Não

Deram apoio às pastorais sociais (Pastoral da Terra, Juventude Operária Católica,

etc.)?

Sim, sob o lema “Ou fazemos nós, ou os comunistas fazem”

Sim, mas deixou essas pastorais a cargo dos padres religiosos, como os do PIME. Há uma forte

iniciativa para as CEBs, mas já no governo de dom Antônio de

Souza, em 1977.

Como se posicionaram frente à perseguição política do

regime militar?

Indícios de que tenha colaborado com a intervenção municipal em 1970, recusando- se a testemunhar a favor do

prefeito.

Era referenciado pelos perseguidos políticos a fim de

que testemunhasse em favor deles.

Fez críticas que questionavam a legitimidade do regime militar ou de seus métodos?

Não é possível determinar com clareza

Não é possível determinar com clareza

Um outro aspecto em esta pesquisa procurou lançar luz foi a da história política das duas cidades do interior paulista. A justificativa para este esforço está na própria razão

dos estudos de poder local: as singularidades do poder político ficam claras se observadas no que tem de específicas, no poder de grupos locais ora em disputa, ora em associação, sendo compreendido a partir de história e memórias próprias e identidades e práticas políticas determinadas num recorte territorial. Ao estudar parte da trajetória política de São Carlos e Assis, este estudo vai na contramão da ideia de que no interior a ditadura foi pouco sentida, seja no apoio, seja na resistência a ela.

Por fim, espera-se que este estudo tenha contribuído para o conhecimento histórico e para o avanço da Ciência Política na análise de duas instituições de grande relevância no Brasil - o Estado e a Igreja Católica – e avançado na análise do comportamento político de atores que ocuparam papeis importantes do processo histórico do país, de Assis e de São Carlos: bispos, políticos, militares e movimentos sociais.

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