4.1 Dyseplaten og komponentene rundt den
4.1.5 Knivaksel
Conforme anunciamos na Introdução, é proposta nossa, nesta pesquisa, fazermos uma reflexão acerca da produção textual em sala de aula com foco na autoria dos textos produzidos nesse contexto. Para nos respaldarmos nessa discussão sobre a autoria, recorreremos mais uma vez a Bakhtin. Na abordagem teórica feita até o momento, temos mostrado que os conceitos bakhtinianos vão sendo apresentados ao longo da sua obra. Coerente com o seu próprio pensamento de que estamos sempre em constante processo de construção na relação dialógica intrínseca à vida em sociedade, Bakhtin escreve/inscreve os seus textos nessa cadeia ininterrupta. Desse modo, torna-se inevitável à discussão sobre autor e autoria a recorrência a mais de um texto do autor russo.
De acordo com Faraco (2008, 2009a), o tema do autor e da autoria é recorrente nos escritos conhecidos de Bakhtin. Segundo o linguista, esse tema envolve uma extensa elaboração de natureza filosófica e tem apresentado diferentes desdobramentos a cada nova abordagem. O princípio desencadeador dessas reflexões nos escritos bakhtinianos está relacionado à sua concepção de linguagem
36 Obra assinada por Mikhail Bakhtin, datada de 1929/1963.
duplamente orientada, na qual o eu e o outro se encontram e se constituem em uma relação dialógica permanente. A questão da autoria torna-se imprescindível à discussão de Bakhtin e seu Círculo sobre enunciado e está presente em vários textos, entre eles, O autor e a personagem na atividade estética38, escrito nos anos 1920, em especial, no subitem O autor e a personagem, e O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária39.
Antes de nos voltarmos para tal discussão no âmbito desses textos, destacamos que Bakhtin, logo em suas primeiras reflexões filosóficas a que temos acesso sobre a responsabilidade ética do autor na atividade estética, apresenta algumas observações que serão desenvolvidas no decorrer de sua obra. A concepção de que as ações humanas são atos responsivos, marcados por eventos únicos e irrepetíveis, está no cerne da proposta teórica bakhtiniana, que é uma proposta da atividade humana e, por conseguinte, da linguagem, sempre dialógica e vista no processo da interação entre sujeitos. De acordo com o autor,
o princípio arquitetônico supremo do mundo real do ato é a contraposição concreta, arquitetonicamente válida, entre eu e outro. A vida conhece dois centros de valores, diferentes por princípio, mas correlatos entre si; o eu e o outro, e em torno destes centros se distribuem e se dispõem todos os momentos concretos do existir. Um mesmo objeto, idêntico por conteúdo, é um momento do existir que apresenta um aspecto valorativo diferente, quando correlacionado comigo ou com o outro; e o mundo inteiro, conteudisticamente uno, correlacionado comigo e com o outro, é permeado de um tom emotivo-volitivo diferente, é dotado, no seu sentido mais vivo e mais essencial, de uma validade diferente sobre o plano do valor. Isto não compromete a unidade de sentido do mundo, mas a eleva ao grau de unicidade própria do evento (BAKHTIN, [1921] 2010b, p. 14240). Esse caráter dialógico com o qual Bakhtin concebe a linguagem humana é uma marca de todos os seus escritos, conforme abordamos aqui neste capítulo, quando, para tanto, recorremos a outras obras desse autor e de seu Círculo, especialmente Marxismo e filosofia da linguagem (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, [1929] 2006). Na referida obra, os autores explicitam a dupla orientação da palavra (procede de alguém e se dirige a alguém), produto da interação entre os
38 Texto assinado por Bakhtin, nos anos 1920, publicado no livro Estética da criação verbal ([1979]
2003), uma coletânea de textos escritos em diferentes épocas.
39 Texto assinado por Bakhtin, nos anos 1920, publicado no livro Questões de literatura e de estética: a teoria do romance ([1975] 2010a), que reúne uma coletânea de ensaios do autor.
40 Texto assinado por Bakhtin, nos anos 1920, publicado no livro Para uma filosofia do ato responsável (2010).
interlocutores. Tendo em vista ser a palavra determinada por tal duplicidade e sendo os enunciados por ela constituídos, a dupla orientação é também característica do enunciado: sempre serão respostas e suscitarão outras respostas. Assim sendo, o enunciador assume uma posição axiológica e valorativa. Não pode haver neutralidade, porque as palavras que tomamos da língua já estão carregadas de sentidos, pois constituem uma cadeia discursiva.
Na relação criadora com a língua não existem palavras sem voz, palavras de ninguém. Em cada palavra há vozes às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais (as vozes dos matizes lexicais, dos estilos etc.), quase imperceptíveis, e vozes próximas, que soam concomitantemente.
Toda observação viva, competente e imparcial feita de qualquer posição e de qualquer ponto de vista sempre conserva o seu valor e o seu significado. A unilateralidade e as limitações do ponto de vista (da posição do observador) sempre podem ser corrigidas, completadas e transformadas (enumeradas) com o auxílio das mesmas observações levadas a cabo de outros pontos de vista. Os pontos de vistas pobres (sem observadores vivos e novos) são estéreis (BAKHTIN, [1959/1961] 2003, p. 330).
O pensamento expresso na citação acima também está presente no ensaio Para uma filosofia do ato responsável ([1921] 2010b). Nessa obra de caráter embrionário, o conceito de ética, responsividade ativa do ser humano, é discutido como essencial à diferença entre atividades enunciativas daquelas mecânicas, baseadas em uma concepção de linguagem automatizada, que toma a palavra do léxico, sem autor, portanto, descompromissada da vida. De acordo com Faraco, naquilo que ele denominou de Um posfácio meio impertinente da referida obra,
PFA41 contém (em gérmen, é verdade, considerando seu caráter de rascunho fragmentário) as coordenadas que sustentarão boa parte do edifício posterior: a eventicidade (o irrepetível), o sempre inconcluso (o que está sempre por ser alcançado), o antirracionalismo (o antissistêmico), o agir (o interagir) e, acima de tudo (segundo meu ponto de vista), o axiológico (o vínculo valorativo), que, em PFA, é designado pela expressão “tom emotivo- volitivo” (FARACO, 2010, p. 147, grifo nosso).
Não somente no texto citado, mas também nos demais escritos bakhtinianos, a presença do autor e o seu inevitável posicionamento axiológico constituem o elemento distintivo da palavra tomada como enunciado em relação à palavra tomada
apenas como elemento lexical. Seguindo bem de perto o pensamento de Bakhtin, Puzzo (2013, p. 332) observa que, uma vez integrando o enunciado, as palavras incorporam um sentido atribuído pelo autor, passando a representar pelo menos duas vozes: “o sentido literal e o novo sentido que o enunciado faz ecoar”. A estudiosa destaca: “Ao imprimir sua assinatura ao enunciado, o autor já expressa seu posicionamento pelo qual se torna responsável”. Recorrendo a Bakhtin ([1921] 2010b, p. 86, grifos nossos), vamos encontrar a seguinte afirmação:
O tom emotivo-volitivo é um momento imprescindível do ato, inclusive do pensamento mais abstrato enquanto meu pensamento realmente pensado, isto é, na medida em que o pensamento realmente venha a existir, se incorpore no evento. Tudo isso com que tenho a ver, me é dado em certo tom emotivo-volitivo, já que tudo me é dado como momento do evento, do qual eu sou participante. Se eu penso num objeto, estabeleço com ele uma relação que tem o caráter de um evento em processo. Na sua correlação comigo o objeto é inseparável da sua função no evento. Mas esta função do objeto na unidade do evento real que nos abarca é o seu valor real, afirmado, o seu tom emotivo-volitivo.
Depreendemos das leituras até aqui realizadas que o enunciado é sempre marcado tanto pelos valores sociais que as palavras expressam quanto por aqueles que constituem o sujeito enunciador, também socialmente construído no decorrer da sua vida. Tudo isso se materializa por meio de textos. O texto, em uma perspectiva enunciativa, terá sempre um autor, a quem cabe o papel de negociar vozes, pontos de vista diversos, mas sem deixar de apresentar a sua voz, o seu ponto de vista, já marcado por vozes outras. E é nessa perspectiva de autor que este trabalho se ancora: aquele que “orquestra” as vozes no texto, distanciando-se dele para dar-lhe o acabamento estético, que não pode deixar de ser também ético.
Apesar de, no referido texto, escrito por um Bakhtin ainda muito jovem, o autor não tratar especificamente da linguagem, ele já apresenta um pensamento peculiar da teoria bakhtiniana a ser desenvolvido em escritos posteriores: a correlação entre atividade estética e atividade real da vida cotidiana. Não por acaso, mas coerente com esse pensamento, Bakhtin ([1951/1953] 2003) vai discutir a questão dos gêneros do discurso. De acordo com Alves Filho (2006, 2008), ainda que tenha recebido pouca atenção nos estudos que envolvem a questão dos gêneros do discurso, a noção de autoria é fundamental para a sua compreensão. No entendimento do autor, o acabamento, o estilo e a estrutura composicional dos
textos, embora prefigurados pelo gênero, decorrem em grande parte do trabalho de autoria:
A autoria é construída através de uma complexa interação que envolve o modo como o próprio autor aponta para si nos enunciados e o modo como os interlocutores o representam sociocognitivamente. Mas é claro que autores e interlocutores trabalham não num vácuo enunciativo-genérico, e sim tendo como horizonte de perspectiva os gêneros do discurso e as práticas sociais de linguagem que os gêneros, a um só tempo, possibilitam e por elas são possibilitados (ALVES FILHO, 2008, p. 338).
Na citação acima, o pesquisador defende que a autoria precisa ser estudada na sua interface com os gêneros do discurso, o que nem sempre tem ocorrido quando do trabalho realizado com estes. Para ele, os sujeitos produzem suas ações comunicativas a partir de certo “feitio enunciativo, seja realizando determinados atos sociorretóricos, seja justificando as ações que não serão realizadas” (ALVES FILHO, 2008, p. 339). Embora defenda que tal autoria esteja, em grande parte, já determinada pelas características do gênero, esse pesquisador admite que ela pode sofrer reenquadramentos, ao se considerar os elementos envolvidos na comunicação concreta. Ressaltamos que o trabalho desse autor é fundamentado na concepção de gênero de base bakhtiniana, tomando por gêneros do discurso os tipos sócio-históricos de enunciados, relativamente estáveis, pois são também dinâmicos e complexos, possibilitadores e decorrentes das práticas de linguagem (BAKHTIN, [1951/1953] 2003). Nesse sentido, para Alves Filho (2008), secundado pelas leituras bakhtinianas, o autor é aquele que reflete e refrata o social em seu texto.
Essa leitura do linguista sobre a autoria está em sintonia com aquela realizada por Faraco (2008, p. 38) sobre a mesma temática no texto bakhtiniano. Para ele, em O problema do texto, do material e da forma na criação literária, “Bakhtin amplia o escopo da posição axiológica do autor-criador, incluindo nela tanto o herói e seu mundo quanto a forma composicional e o material”. Em outras palavras, as escolhas composicionais e de linguagem materializadas no objeto estético estão diretamente relacionadas ao posicionamento axiológico do autor. Ainda de acordo com Faraco (2009a), na referida obra bakhtiniana, o autor não se prolonga na sua discussão sobre autor e autoria, diferentemente do que ocorre em
O autor e a personagem42, quando Bakhtin estabelece a distinção entre o autor
pessoa e o autor criador, sendo este a função estético-formal, o criar artístico, a figura central da obra, que não coincide ou não se confunde com aquele (autor- pessoa/o escritor), mas que nos ajuda a compreendê-lo. Partindo dessa concepção bakhtiniana de autor e com base na leitura dos escritos desse estudioso russo sobre o tema, Faraco (2008, p. 39; 2009b, p. 108) destaca:
O autor-criador é, assim, uma posição refratada e refratante. Refratada porque se trata de uma posição axiológica conforme recortada pelo viés valorativo do autor-pessoa; e refratante porque é a partir dela que se recorta e se reordena esteticamente os eventos da vida.
Segundo Bakhtin ([1975] 2010a, p. 58, grifos do autor), “o autor-criador é um momento constitutivo da forma artística”. Ele constitui o objeto estético, dando-lhe forma. “Eu devo experimentar a forma como minha relação axiológica ativa com o conteúdo, para prová-la esteticamente: é na forma e pela forma que eu canto, narro, represento, por meio da forma eu expresso o meu amor, minha certeza, minha adesão”. Portanto, trata-se de uma posição estético-formal que também materializa uma certa relação axiológica com o herói e seu mundo: “ele os olha (de fora) com simpatia ou antipatia, distância ou proximidade, reverência ou crítica, gravidade ou deboche, aplauso ou sarcasmo, alegria ou amargura, generosidade ou crueldade” (FARACO, 2009b, p. 106). No entanto, observa o linguista, devemos ficar atentos ao fato de que uma posição axiológica nunca é um todo uniforme e homogêneo. Ao contrário, “agrega múltiplas e heterogêneas coordenadas”. Por isso, embora os exemplos citados pelo linguista estejam apresentados em alternativas, a posição do autor-criador pode requalificá-los com um tom outro: a simpatia pelo herói e seu mundo poderá ser nuançada por uma crítica melancólica; e a reverência, por uma sutil ironia, e assim por diante (FARACO, 2009b).
O posicionamento valorativo ao qual Bakhtin se refere é que vai dar ao autor- criador a possibilidade de construção do todo da obra, de dar forma ao conteúdo. “Nisso está a diferença essencial entre a forma artística e a cognitiva; esta última não tem autor-criador: a forma cognitiva eu a encontro no objeto, nela não encontro nem a mim mesmo, nem a minha atividade criadora” (BAKHTIN, [1975] 2010, p. 58).
42 Em outras edições, a de 1992, por exemplo, o título deste capítulo foi traduzido como sendo O autor e o herói.
Ainda de acordo com o estudioso russo, a atividade criadora do autor envolve também o trabalho axiológico com a linguagem. Conforme abordado por Bakhtin em vários outros textos, muitos já referenciados neste capítulo, a linguagem empregada pelo autor-criador é tomada de uma cadeia discursiva ininterrupta, portanto, já marcada por vozes outras. No entanto, ao tomá-la em sua criação, o autor dá-lhe uma entoação específica, uma determinada direção axiológica. Dessa forma, destaca Faraco (2009b), no ato artístico, aspectos do plano da vida são isolados de sua eventicidade e organizados de um novo modo, subordinados a uma nova unidade. Essa transposição de um plano de valor para outro é realizada pelo autor- criador, sempre a partir de uma posição axiológica.
Cabe ressaltar que, nos textos referenciados, Bakhtin analisa o autor na obra literária, condição diferenciada da autoria que tratamos neste trabalho. O autor- criador, específico da esfera literária, lida com vozes da sua criação. Diferentemente, o autor-enunciador, de um texto acadêmico, por exemplo, como é o caso dos que compõem os dados desta pesquisa, lida com vozes de outros também autores. No entanto, em ambos, cabe ao autor (criador/enunciador) o papel de orquestrar as vozes neles presentes, dando-lhes um tom harmônico (não necessariamente harmonioso). Para isso, torna-se imprescindível o movimento exotópico, o olhar de fora, que só a posição de autor (criador/enunciador) permite, para dar o acabamento estético. Assim sendo, acreditamos ser coerente defender que é possível (e necessária) a atividade de autorar enunciados em esferas não-literárias, no sentido de realizar o acabamento estético ao seu todo, pois, como enfatiza o próprio Bakhtin ([1959/1961] 2003), não há texto sem autor, sem sujeito, e há diversos tipos de autoria. A atividade de autorar é um ato estético e também ético, realizada por um sujeito, portanto, axiológica.
A questão do axiológico na linguagem também é retomada por Bakhtin ([1934/1935] 2010) em O discurso no romance. Nesse texto, é desenvolvido o conceito de heteroglossia/plurilinguismo: a linguagem entendida “como um conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes ou línguas sociais, isto é, um conjunto de formações verbo-axiológicas” (FARACO, 2008, p. 40; 2009b, p. 107). Para o linguista, embasado nas leituras bakhtinianas, o ato artístico comporta um complexo jogo de deslocamentos das vozes sociais. Nesse jogo, o escritor, cuja fala é refratada, atribui as palavras às vozes alheias, deixando para uma outra voz a construção do todo artístico. Assim, essa voz revelada no criar artístico não coincide
com a voz direta do escritor, mas se trata do autor-criador. Ainda que a voz desse autor coincida com a daquele como pessoa, somente haverá criação estética se houver deslocamento. A esse respeito, Bakhtin ([1934/1935] 2010, p. 105) ressalta:
A linguagem do prosador dispõe-se em graus mais ou menos próximos ao autor e à sua instância semântica decisiva: alguns momentos de sua linguagem exprimem franca e diretamente (como em poesia) as intenções semânticas expressivas do autor, outros as refratam; o autor não se solidariza totalmente com esses discursos e os acentua de uma maneira particular, humorística, irônica, paródica, etc.; outros elementos se afastam cada vez mais de sua instância linguística última e refratam ainda mais intensamente as suas intenções; e há, finalmente, aqueles elementos que estão completamente privados das intenções do autor: o autor não se expressa neles (enquanto autor do discurso), ele os mostra como uma coisa verbal original; para ele eles são inteiramente objetais. Por isto, a estratificação da linguagem, em gêneros, profissões, sociedades (em sentido restrito), concepções de mundo, tendências, individualidades, diferentes falas e línguas, ao entrar no romance ordena-se de uma maneira especial, torna-se um sistema literário original que orquestra o tema intencional do autor.
Deste modo, o prosador pode se destacar da linguagem da sua obra, e o faz em diversos graus de algumas das suas camadas e elementos. Ele pode usar a linguagem sem se entregar totalmente a ela; ele a torna quase ou totalmente alheia, mas ao mesmo tempo obriga-a, em última instância, a servir às suas intenções. O autor não fala na linguagem da qual ele se destaca em maior ou menor grau, mas é como se falasse através dela, um tanto reforçada, objetivada e afastada dos seus lábios.
Diante da heteroglossia que compõe o ato artístico, o autor-criador deverá também se posicionar. Portanto, mais uma vez, torna-se imprescindível o deslocamento por parte do autor envolvido na geração ativa de um novo enunciado concreto (FARACO, 2009b). Em seu texto O autor e a personagem na atividade estética, Bakhtin ([1924/1927] 2003, p. 11) faz referência à consciência criadora do autor, que é “a consciência da consciência”. Para esse estudioso,
o autor não é o agente da vivência espiritual, e sua reação não é um sentimento passivo nem uma percepção receptiva; ele é a única energia ativa e formadora, dada não na consciência psicologicamente agregativa mas em um produto cultural de significação estável, e sua reação ativa é dada na estrutura – que ela mesma condiciona – da visão ativa da personagem como um todo, na estrutura da sua imagem, no ritmo do seu aparecimento, na estrutura da entonação e na escolha dos elementos semânticos (BAKHTIN, [1924/1927] 2003, p. 6).
A posição do autor-criador é privilegiada em relação à personagem, pois o espaço que ele ocupa, além de lhe permitir enxergar tudo o que as personagens veem e conhecem, possibilita-lhe enxergar além delas, de um lugar a elas inacessível. É nesse excedente de visão do autor que se encontram as possibilidades de acabamento do todo da obra.
Nesse sentido, Bakhtin ([1924/1927] 2003) aponta a necessidade de deslocamento no ato criativo. Trata-se do princípio da exterioridade, do excedente de visão, da posição exotópica assumida pelo autor. O excedente de visão é a possibilidade que um sujeito tem de ver mais do outro do que o próprio poderia ver de si, de ver o outro lado, inacessível ao outro. Essa possibilidade é permitida pela posição em que o sujeito se encontra exterior ao outro. É o olhar de fora:
Quando contemplo no todo um homem situado fora e diante de mim, nossos horizontes concretos efetivamente vivenciáveis não coincidem. Porque em qualquer situação ou proximidade que esse outro que contemplo possa estar em relação a mim, sempre verei e saberei algo que ele, da sua posição fora e diante de mim não pode ver: as partes de seu corpo inacessíveis ao seu próprio olhar – a cabeça, o rosto, e a sua expressão –, o mundo atrás dele, toda uma série de objetos e relações que, em função dessa ou daquela relação de reciprocidade entre nós, são acessíveis a mim e inacessíveis a ele. Quando nos olhamos, dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos (BAKHTIN, [1924/1927] 2003, p. 21).
Diante do outro, eu estou fora dele e por isso tenho o excedente de minha visão, que somente é possível pela singularidade e insubstitutibilidade do lugar que ocupo no mundo: apenas do meu lugar singular e único, a ser ocupado apenas por mim, posso compreender o outro.
A noção de exotopia (lugar exterior) está relacionada à ideia de acabamento e de construção de um todo, “o que implica sempre um trabalho de fixação e de enquadramento, como uma fotografia que paralisa no tempo. O espaço é a dimensão que permite fixar, inscrever o movimento”. Sendo assim, o conceito de exotopia envolve pelo menos dois espaços: “o do sujeito que vive e olha de onde vive, e daquele que, estando de fora da experiência do primeiro, tenta mostrar o que