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4. EMPIRI OG ANALYSE

4.2 K LYNGER

4.2.6 Klyngenes styringssystem og kontekstuelle faktorer

A veiculação das informações diegéticas depende do narrador, em primeiro plano, e da focalização adotada ou que lhe é possível. Assim, a focalização se relaciona à perspectiva daquele que relata, como também à quantidade e à qualidade dos acontecimentos que são levados ao conhecimento do leitor. Aliada considerável à condução da narrativa para surtir os efeitos esperados (que, via de regra, são intimamente relacionados ao cânone estético), a focalização obedece a três circunstâncias, podendo ser operacionalizada de forma tal que se “classifique” em externa, interna e onisciente.

Como, no conto em estudo, salientou-se que o narrador (não nomeado textualmente) possui dois comportamentos em relação à diegese, a focalização sofre

reflexos dessa variação. Dessa maneira, na primeira seqüência (apresentação e contato com Macário), observam-se dois modos de operacionalização ao transmitir as informações. Inicialmente, o narrador revela o seu pensamento, os seus princípios, a sua interioridade:

Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates (...) o fato é que eu – que sou naturalmente positivo e realista – tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. (QUEIRÓS, 1999, p. 7).

A vantagem dessa focalização interna é clara: expondo sua particularidade, estabelece uma relação de confiança entre o seu relato e o leitor, além de caracterizar-se, declarando-se, de imediato, ser “realista”.

O foco narrativo torna-se mais distante quando o protagonista é delineado. Apenas o que é possível visualizar é fornecido à estória e, por extensão, ao leitor:

(...) Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retidão (...). (QUEIRÓS, 1999, p. 7).

Enfatizando os aspectos físicos que impressionaram o narrador, este se detém ao seu campo de visão. Tratando-se da representação das características facilmente notáveis das personagens, o narrador utiliza a focalização externa. Ao tratar do nível psicológico de Macário, ele levanta possibilidades, apoiadas naquilo que vê e percebe. Quando o tema “mulheres” vem à tona, de maneira até superficial, o narrador nota que o assunto incomoda Macário, pois reage silenciosamente:

“O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino. Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança.” (QUEIRÓS, 1999, p. 9).

A subjetividade do seu parecer se confirma no próprio discurso que se segue. Através de modalizadores, que expressam o conhecimento limitado da situação, o narrador deduz que o assunto era delicado para Macário. Registrada pelo modalizador “decerto”, a incerteza se configura, para mais tarde se confirmar. Saliente-se o uso do artigo definido “o” anteposto a “facto”, “caso”, singularizando os termos:

Havia decerto no destino daquele velho uma “mulher”. Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na idéia de que o “facto”, o “caso” daquele homem, devera ser grotesco, e exalar escárnio. (QUEIRÓS, 1999, p. 9, grifo nosso).

Na narrativa principal – a que traz à luz a história de Macário – o narrador heterodiegético é somente um ouvinte/espectador. A focalização é externa, uma vez que é transmitido aquilo que lhe é contado, não ocorrendo, em momento algum, uma intrusão no universo psicológico das personagens. Quando considera necessário, coloca sua dúvida, buscando a resposta que esclareça o fato também ao leitor. Exemplo disso é o relato do sumiço da peça durante o jantar, em que o narrador pergunta:

“– Enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela. – Mas a peça?

– Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!” (QUEIRÓS, 1999, p. 21).

É o discurso do protagonista que domina inteiramente esse relato, não tendo o narrador o menor conhecimento da questão, a não ser o que passa a conhecer na condição, repita-se, de ouvinte. O encerramento da narrativa coincide com o final do discurso de Macário, não se apresentando nenhuma informação a mais do que conta o protagonista.

Nesse segundo momento, o narrador heterodiegético se afasta da focalização. Esta é fornecida em segunda mão, do que se depreende a idéia da imparcialidade desse narrador. Não se pode perder de vista o tema central implícito que permeia a narrativa: o embate romantismo versus realismo. Distanciando-se, aparentemente, dos fatos narrados, a impressão de verossimilhança é ratificada. Com sutileza, porém de forma explícita, o foco narrativo evidencia situações em que se apresenta a conduta romântica:

O tabelião era um homem letrado, latinista, e amigo das musas: escrevia num jornal de então, a “Alcofa das Damas”: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, “moço escudeiro de Vênus.(...) Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. (QUEIRÓS, 1999, p. 16).

Na seqüência do episódio do jantar (“assembléias simples e pacatas”) na casa de um tabelião, Macário relata ao seu companheiro de quarto os acontecimentos que lá se sucedem. No entanto, o narrador menciona a certa altura que “Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembléia. Apesar disso, salienta um dado da memória: o recital do corregedor de Leiria – o “Madrigal a Lídia”. O narrador retrata rica e detalhadamente a platéia:

(...) as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas, terminadas num fofo de rendas, mitenes de retrós preto cheias da cintilação dos anéis, tinham sorrisos ternos, cochichos (...) (QUEIRÓS, 1999, p. 17).

O público é caracterizado: ouve um madrigal – tão ao gosto romântico – e delicia-se com ele. Ironicamente, o quadro é pintado em detalhes e, mais uma vez, lançando mão desse recurso, aponta o contraste da cena: “E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo – e via-se-lhe um dente podre”. (QUEIRÓS, 1999, p. 17).

O ”choque” causado não é casual. O “dente podre” do corregedor focalizado pelo narrador contrasta com a atmosfera romântica do recital, reconstituída com detalhes pela memória de Macário. O vestuário da platéia, juntamente com o seu comportamento (cochichos, risos) criam um ambiente festivo, distante da realidade. Esse grupo, que pretende sentir-se pertencente à aristocracia, vivencia um mundo de aparências. Porém, apesar desse “esforço”, a verdadeira situação vem à tona quando o corregedor, que promove a reunião, observando a todos os presentes, não vê o seu próprio “dente podre”, ou seja, a sua própria verdade. Assim, a oposição entre o parecer e o ser é estabelecida pela ironia. Por outro lado, a figura apodrecida encerra em si a estética romântica: um modelo “estragado”, não sadio.

Essa tensão criada entre a proposta romântica e a realista resulta do trabalho do narrador que disponibiliza ao leitor detalhes e informações, promovendo o estado tensional da narrativa.