4. Diskusjon
4.1 Klinisk relevante interaksjoner
Maria da Glória Gohn (2010) se propõe a avançar sobre a interpretação das premissas elementares estabelecidas historicamente para a qualificação dos movimentos sociais, quais sejam: possuir identidade e caráter permanentes, ter um opositor e se fundamentar em um projeto de sociedade, apresentar suas demandas por meios de pressão e contribuir para conscientizar a sociedade. Segundo a autora, muitos deles se apresentam atualmente também com um projeto civilizatório mais amplo, que pode envolver a busca pelo reconhecimento da diversidade cultural ou a sustentabilidade, por exemplo. Ainda, a atuação com vistas à redefinição da esfera pública, o estabelecimento de parcerias com outras entidades da sociedade civil e política, com forte controle social e desenvolvimento de modelos de inovação – possibilitando a geração de saberes – renovariam o arcabouço de concepções acerca dos movimentos sociais na atualidade.
No Brasil, se no período da chamada redemocratização a luta pelo “direito a ter direitos” envolvia um número menor de organizações (em comparação aos dias atuais), com plataformas mais universais, hoje verifica-se a ampliação de sujeitos protagonistas de ações políticas, a exemplo das organizações não governamentais e das redes cidadãs e ativistas, com demandas mais específicas e fragmentadas. Nesse ponto, Gohn alerta para as alterações do papel do Estado no que tange às suas relações com a sociedade civil: as novas políticas sociais estatais, ao priorizarem processos de inclusão social das camadas consideradas vulneráveis e/ou excluídas de condições socioeconômicas ou de direitos culturais, geram resultados contraditórios. Captura-se o protagonista da ação política do interior da sociedade civil, outrora organizado em ações coletivas e movimentos, e transforma-se sua identidade política em política de identidade:
A inversão da ordem dos termos: identidade política para política de identidade muda radicalmente o sentido e o significado da ação social coletiva dos movimentos sociais. Disto resulta que se deslocam os eixos
de coordenação das ações coletivas – da sociedade civil para a sociedade
política – entendida com o espaço possível de construção histórica, de
análise da tensão existente entre os diferentes sujeitos e agentes
capturada por estruturas políticas – de cima para baixo, na busca de coesão e de controle do social (GOHN, 2010, p.21).
Assim, a principal mudança apontada quando da análise das políticas resultantes de parcerias entre Estado e sociedade civil organizada está no deslocamento do foco - do agente para a sua demanda imediata e específica. Os sujeitos coletivos passam a ser reconhecidos e tratados de forma segmentada, fragmentados em campos isolados e destituídos, por conseguinte, de sua capacidade de ação política propriamente dita – o que evidencia uma contradição complexa entre integração e emancipação.
Com efeito, o professor de comunicação Murilo Ramos problematiza a utilização arriscada do termo sociedade civil em perspectiva polissêmica, que pode acomodá-lo confortavelmente dentro dos limites do liberalismo político e econômico, tornando-o um substituto do Estado em vez de compreendê-lo como parte do Estado gramsciano. Sob tal prisma, sociedade civil poderia ser entendida também como terceiro setor, com características idealista, pluralista e essencialmente corporativista.
Em suma, a ideia de terceiro setor é de inspiração pluralista, estruturalista
e neopositivista, logo fragmentadora. O terceiro setor é de “procedência
norte-americana , contexto onde associativismo e voluntariado fazem
parte de uma cultura política baseada no individualismo liberal”
(Montaño, 2002:53). Ela foi primeiro cunhada em 1978 por John D. Rockfeller III, ao escrever sobre um three sector system: mercado, governo e o privado sem fim lucrativo. Em outras palavras, na análise de
Montaño, “o conceito terceiro setor foi cunhado por intelectuais
orgânicos do capital” (RAMOS, 2007, p.42).
Jacques Godbout (1983), ao analisar o comportamento dos movimentos sociais no período pós-industrial, alerta que, em muitos países que alcançaram promover um sistema de bem-estar social, a atuação desses coletivos se ligaria muito mais a uma "nova prática profissional", com a promoção de disputas apenas na esfera da distribuição de bens, e não propriamente voltadas à redistribuição do poder político. Além disso, a autonomia ideológica dos movimentos não garantiria, a priori, alterações reais no status quo. A fragmentação crescente e a intervenção do Estado devem sempre ser encaradas como obstáculos aos NMS.
A despeito do acúmulo da produção acadêmica já obtida em torno dos movimentos sociais, Gohn sinaliza algumas lacunas a serem preenchidas para a compreensão deste tema na atualidade: qual o conceito de movimento social; o que os qualifica como novos; o
que os distingue de outras ações coletivas; quais as consequências de uma ação política que se institucionaliza; que papel exercem os movimentos sociais neste século e, por fim, quais novas teorias vêm sendo desenvolvidas para discuti-los e explicá-los.
No movimento de reinterpretação de nosso objeto, este breve percurso teórico nos ensina que o cenário é favorável à consolidação de redes de movimentos, ultrapassando fronteiras espaciais em nome de uma temática comum. A comunicação pode ser uma dessas temáticas. No entanto, os autores citados também apontam para o isolamento dos movimentos sociais em relação ao restante da sociedade, visto que a consciência cidadã é desestimulada no pensamento hegemônico. A comunicação, novamente, surge como possível resposta, por sua capacidade de ajudar os movimentos a compartilharem suas causas.
Mesmo diante da existência de redes, algumas características dos movimentos podem dificultar as parcerias e trocas. Uma dessas diferenças pode ser a origem de classe de seus integrantes. Movimentos de trabalhadores e de classe média às vezes não se comunicam, os que lutam por categorias e por causas mais gerais nem sempre conseguem dialogar. A relação demasiadamente estreita com o Estado, que pode culminar na captura do protagonista da ação do movimento social, também se coloca como um possível entrave a seu desenvolvimento autônomo. E em nas entidades ora investigadas? Como isso ocorre?