Antônio Salles casou-se com Alice, irmã de José, a 16 de junho de 1894. Ela nascera em Zurique,119 no dia 30 de agosto de 1875. Sabia ler e escrevia sobretudo cartas. Tendo marido e irmão como membros da Padaria Espiritual, ela também participava da
118 Constantino Paletta, concunhado do pai de Pedro Nava, casado com Berta, uma das tias maternas do
escritor.
119 De acordo com as Memórias, Pedro e Ana viajavam pela Europa desde 1874 (NAVA, BO, 2002, p.51).
associação literária. Entretanto, apesar de sua inteligência, como ressalta o sobrinho em suas Memórias, Alice jamais teve o brilho literário que teve o marido “e os literatos seus amigos”. “Clotilde de Vaux”. Mostrando “o gênero secretário, arquivista”, Alice e outras duas “clotildes”120 participavam da Associação, “não com frases de sabichonas, mas com feminil moderação, com simplicidade, reserva, dignidade, conveniência, decência e modéstia” (NAVA, BO, 2002, p.85). Em contrapartida, Antônio Salles, quando entrou para a família de José, “[...] já vinha consagrado, pela publicação, em 1890 dos seus Versos Diversos. [...]” (p.74). De qualquer modo, ainda que como coadjuvantes, vale notar a presença dessas mulheres nas reuniões da Padaria Espiritual. Enquanto na época do primeiro casamento de Ana Cândida, avó paterna de Pedro Nava, as mulheres se reuniam para rezar, costurar e fazer renda, na geração do pai do memorialista, verificamos a presença delas em eventos de uma associação literária, relacionada aos usos sociais da leitura e da escrita.
A força da experiência da Padaria Espiritual na formação de José Nava, como salientamos no tópico anterior, e na vida de Antônio Salles é perceptível. A rotina que construíram em Fortaleza, ligada ao cotidiano da sociedade de letras, de certo modo, teve continuidade quando José e Salles se mudaram, junto com outros parentes, para o Rio de Janeiro. A vida cultural na cidade, em fins do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, possibilitava-lhes isso. Assim, as conversas e os debates sobre os rumos da política brasileira, o envolvimento com intelectuais, as leituras literárias, a escrita, inclusive de textos para publicação, permaneceram no dia-a-dia, na vida desses dois antigos “padeiros”. Nesse sentido, vale destacar a publicação de O Babaquara, livro de Antônio Salles, entendido por Pedro Nava como a desforra de Salles contra as perseguições que ele sofrera no Ceará, chefiadas pelo Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly.
O cotidiano de Antônio Salles parecia mesmo ser organizado pela escrita. Suas atividades diárias, sua participação em movimentos políticos ligavam-se ao exercício e ao domínio de habilidades letradas em usos sociais da leitura e da escrita:
uma amiga de Pedro. A viagem internacional dos avós paternos de Pedro Nava aconteceu depois da primeira viagem do avô do escritor à Europa, no início de 1872, para tratar de negócios (p.50-51).
120 Trata-se de “Dona Raimundinha Teófilo, mulher de Rodolfo” e a “prima Maria Feijó da Costa Ribeiro,
[...] Quanto a Antônio Salles, esse já veio para a Padaria com uma tradição de rebelde. Abolicionista de ação. Autor de manifestações de desacato ao Conde d’Eu. Um dos proclamadores da República no Ceará [...]. No fim do século passado,121 ele define a classe a que pertencia como a dos “proletários
intelectuais” e, pela mesma ocasião, mostra-se fortemente simpatizante do movimento, no artigo “Socialismo no Brasil”, que escreveu a propósito do aparecimento de A nação – primeira folha socialista impressa no Rio de Janeiro. Seu romance Aves de Arribação, antes de ser bela história regionalista, é a sátira social que o põe na mesma posição de Anatole France [...] (NAVA, BO, 2002, p.87).
A escrita do tio, na perspectiva de Pedro Nava, mostrava também um pouco de seu temperamento, de seus posicionamentos, contraventores para a época. Autor de desacatos a homens nobres, a escrita era útil a esse proletário intelectual. Apesar de ferramenta com fins bastante pragmáticos como se verifica no trecho citado anteriormente, de Baú de Ossos, sua sátira social, para o sobrinho que o admira, estaria no mesmo patamar dos textos de um escritor da literatura universal. Escrever para os outros e escrever para si mesmo, Antônio Salles transitava entre essas possibilidades. Como Marout, tia-avó de Pedro Nava, José, o pai de Nava, e Diva, a mãe do escritor, Salles organizava, em cadernos ou “livros de colagem”, recortes de textos, retratos: “[...] entre os livros de colagem de recortes de Antônio Salles, hoje em meu poder, está um retrato do anarquista Vaillant, cuja execução deve ter sido para a sua geração o que foi para a minha a de Sacco e Vanzetti. Pode ser que ele não concordasse com os métodos do retratado da sua miscelânia. Mas, pelo menos, mostra por ele preocupação simpática” (NAVA, BO, 2002, p.87-88).
Livros e jornais eram os suportes em que Antônio Salles publicava seus textos. Como já se destacou, Salles não escrevia textos visando apenas aos objetivos de socialização literária; sua escrita atrelava-se também ao jogo político, à sátira, à crítica social:
[...] Antônio Salles [...] iniciou sua famosa campanha do “Tudo passa... e o Nuno fica” nos “Pingos e Respingos” de O Correio da Manhã. A cidade gozou e as quadrinhas corriam de boca em boca.
Passa o bonde do Catete, Passa a preta da canjica, Passa a lata do sorvete... Tudo passa, e o Nuno fica. A planta medra, floresce Se dá frutos, frutifica,
Depois a fronde emurchece
Tudo passa... e o Nuno fica. (NAVA, BO, 2002, p.212-213).
Assim como a casa de Pedro Nava em Juiz de Fora, o lar em que vivia no Rio de Janeiro também era um espaço com muitos materiais do mundo da escrita. As descrições que o memorialista nos oferece, em Baú de Ossos, de seus móveis e dos livros, das revistas que lá existiam nos permitem fazer tal afirmação. Todavia, haveria nessa casa livros e revistas reunidos pelo “tio Júlio Augusto Luna de Freire, que estavam em caixotes, no porão”; “livraria reunida pelo tio, durante sua vida. Com sacrifício de bacharel pobre, com paciência de bibliófilo e com bom gosto de letrado”, que se perderam na ocasião em que a casa de Aristides Lobo fora invadida pela “pororoca”, pelas águas do Rio Comprido:
[...] Mais de dois mil volumes de que escaparam um exemplar da edição ilustrada de O Ateneu, de Raul Pompéia [...]; um antigo volume traduzido de A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe; vários fascículos da Revista do Instituto Histórico de Pernambuco e tomos desemparelhados de Tácito, Zola, Plutarco e Latino Coelho, que foram depois para Juiz de Fora com os livros de meu Pai e que lá se perderam. Era o que restava [...]. Só ficou o que eu disse... Que o resto foi inutilizado pelas águas (NAVA, BO, 2002, p.306).
Se se tratava de livros reunidos de acordo com “o bom gosto de letrado” do tio, “com sacrifício de bacharel pobre”, por que eles estavam no porão da casa? Por que um volume tão grande de livros estaria encaixotado em um cômodo da casa que praticamente não é visitado e utilizado pelos moradores? Seria por causa de seu volume? Afinal, onde se poderia organizar “mais de dois mil volumes” de material impresso? Seria porque os livros pertenciam ao tio já morto? Ao que parece, tanto na casa do Rio, como na casa da avó materna muitos livros se perderam... Se o quadro que nos é pintado de Maria Luísa nos fornece elementos para pensar uma explicação para o descaso da “Sinhá” em relação aos pertences do marido falecido da filha Diva, não há nas Memórias, de modo tão claro, razões para que a tia paterna de Pedro Nava, tia Cândida, tivesse deixado os livros do marido em um porão, que mais tarde seria atingido pela chuva.
A casa do Rio de Janeiro, de propriedade de “Dona Candidinha”, pelo que se observa nas Memórias, era bastante ampla. Composta por dois andares, que pareciam se
contrapor segundo as atividades realizadas em cada um dos pavimentos,122 a casa comportava, inclusive, um cômodo em que tia Candoca guardava seus livros, o piano, seus materiais de música: “Àquela lembrança da Morte que era estímulo para o aproveitamento do Tempo, subiam todas para o andar do alto. O ponto de reunião era a área cheia de sol que correspondia à escura, de baixo. Era larga, dava no banheiro de cima, no quarto de Dona Candidinha e numa saleta onde ficavam o piano, as estantes de música e as de livros desta minha querida tia. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.349).
Os livros têm, certamente, extrema importância para Pedro Nava. Por isso mesmo, muitas páginas de suas Memórias são recheadas de referências a eles, elaboradas de diversas maneiras, pelo escritor. Porém, os parentes por quem nutria afeto e respeito têm também grande espaço em sua obra. Graças à admiração de Nava por esses parentes, é que podemos analisar suas características quanto ao capital cultural que detinham:
[...] minha tia Cândida – tia Candoca, Dona Candidinha – [...] vivia completamente para sua filha restante, Maria, interna, então no Colégio Sacré- Coeur, ao Alto da Boa Vista. Sustentava-se com os juros do que sobrara na compra da casa e de dar lições de piano no colégio em que estudava a filha. Ela preferia o que ganhava pelo trabalho ao que usufruía por preço da morte do marido. Esse dinheiro queima! dizia ela, referindo-se ao último. Minha tia era alta, magra, espigada, naturalmente elegante e, sem ser bonita, impressionava pela doçura do olhar, pela doçura da voz e pela suprema distinção que irradiava de toda a sua pessoa e de todas as suas atitudes. [...] (NAVA, BO, 2002, p.323).
Em Aristides Lobo, portanto, não era só o pai de Pedro Nava quem possuía capital cultural. Também sua irmã era uma mulher de posses culturais. Como professora de piano do Sacré-Couer, Cândida tinha, por exemplo, conhecimento o bastante para saber que esse era o Colégio adequado para a filha. Ao lado das características culturais e físicas de “tia Candoca”, Pedro Nava apresenta outras, as quais se associariam às anteriores, relativas ao comportamento, à personalidade de Cândida e que o faziam admirá-la. O escritor destaca uma “suprema distinção”, uma das virtudes que se manifestava nas atitudes da tia. Por meio do que sugere o texto de Nava, a herança disponibilizada pelo ramo da família paterna ultrapassava elementos materiais, próprios da cultura da escrita, como livros; também formas de se comportar integrariam essa herança que, pelas palavras do sujeito-
122 Conforme o que ressaltamos anteriormente em relação às atividades das mulheres, na parte superior da
casa, as moradoras realizariam atividades domésticas “mais dignas” do que aquelas realizadas pelas empregadas no pavimento inferior. A respeito disso, como destacamos, ver AGUIAR (1998).
narrador, eram bem-vistas por ele. Essa aprovação de certos elementos dessa herança seria o primeiro passo para sua apropriação? Mais do que isso, práticas de familiares queridos e disposições letradas presentes em parentes merecedores de admiração, por sua bondade, solidariedade, “doçura”, não seriam também elementos “dignos” de ser repetidos pelos membros mais novos da família?
Nesse sentido, o hábito da leitura e o título que recebe quem o tem aparecem nas Memórias, no caso dos parentes paternos de Pedro Nava, como fatores não somente bons, como também associados a certas características de personalidade e a determinadas maneiras de lidar com o mundo: “[...] Nenhum desses grandes ledores que eram meu Pai, tio Salles, tio Júlio, minhas tias Alice e Candoca se permitiam pedantismo ou brilho. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.337. Os grifos são nossos). Nesse tipo de associação, podemos afirmar que o adjetivo “grandes” assim como caracteriza de uma maneira positiva o substantivo “ledores”, o qual se refere aos membros da família paterna de Nava, também age na mesma direção, do ponto de vista semântico das relações textuais, estabelecidas entre as palavras na frase, sobre as outras características desses parentes. Logo, do mesmo modo que é grandioso ler muito, ler todos os dias, é também grandioso não ser pedante, não se exibir. Na perspectiva do memorialista, embora seus parentes paternos tivessem uma “grande” característica, exatamente aquela de ter a leitura como hábito, que poderia dar a eles motivos para se permitirem “pedantismo ou brilho”, na verdade e ao contrário, fazia com que esses familiares fossem antes, para o escritor, humildes e discretos.
Já se destacou que as mulheres em Aristides Lobo tinham sempre suas horas preenchidas. Cultivando uma prática que constituía a tradição da família, em seu ramo paterno, elas costumavam costurar e fazer renda. Mas, além dessa atividade doméstica, como a denomina Pedro Nava, além dos preparos para a espera dos homens da casa para o jantar, as horas na casa do Rio de Janeiro eram também dedicadas à leitura: “[...] Não havia nada mais regular que as horas da velha tia.123 [...] Quando não saía, cerzia ou fazia renda. Perguntava a um por um se já tinha acabado com o jornal. Se era sim, ela cortava o folhetim, lia e guardava para costurar em cadernos. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.330-331).
No caso da tia-avó paterna de Nava, a distribuição regular de suas horas incluía também tempo para a leitura. Marout lia o jornal depois de todos os moradores da casa – o
que nos faz pensar que a leitura desse tipo de impresso era uma prática cotidiana no lar dos parentes paternos de Pedro Nava. Além disso, Marout tinha uma maneira bem peculiar de ler o jornal. Interessava-lhe o folhetim124 (gênero preferido pelas mulheres?125) que, uma vez lido, era recortado, retirado de seu suporte original, para ser guardado e costurado por Marout em cadernos.126
Somados ao hábito da leitura, os moradores da casa do Rio de Janeiro cultivavam também outros costumes. Aos sábados, os pais de Pedro Nava costumavam sair para assistir a espetáculos:
[...] aquele costume de veludo preto de minha Mãe, realçado por soutaches negros, mais o chapéu e os sapatos para serem usados com ele. O chapéu era enorme, feito de uma trama dura, meio transparente e com cascatas de pleureuses descendo da aba. Tudo verde – verde o chapéu e verdes as plumas e os veludos da copa. Os sapatos, de bicos compridos e talons bottier eram de cor marron- mordorée e tinham cintilações profundas como as das barrigas das moscas varejeiras. Era com esse trajo fabuloso que minha Mãe saía airosa, aos sábados, com meu Pai, para as matinées do Lírico, para a Viúva Alegre, para o Conde de Luxemburgo, para a Princesa dos Dólares. [...] (NAVA, BO, 2002, p.339. O grifo é nosso; os destaques em itálico, do autor.).
Para esse momento de lazer, nas tardes de sábado, na companhia do marido, Diva se vestia com requinte: elegância na escolha da roupa, sapatos finos, chapéu sofisticado. Por quê?
124 Para uma história do folhetim, ver Marlyse Meyer (1996). Em linhas gerais, o folhetim apresentava-se
como um gênero textual, publicado nos jornais e que se aproxima do que hoje seria a crônica (MEYER, 1996, p.57). O gênero nasceu na França, no início do século XIX, e ocupava o rodapé da primeira página do jornal. Preenchia o lugar destinado ao entretenimento; era o espaço onde se podia treinar a narrativa, onde se aceitavam mestres e estreantes no gênero, histórias curtas ou menos curtas. Adotava-se “a moda inglesa de publicações em série” caso houvesse “mais textos e menos colunas” (p.58). No Brasil, a novidade começou a circular no Jornal do Commercio na primeira metade do século XIX. Conforme Meyer (1996, p.283), “Entre 1839 e 1842 os folhetins-romance são praticamente cotidianos no Jornal do Commercio”. Obras francesas e textos de brasileiros foram publicados na forma de folhetim não só no Jornal do Commercio, mas também em outros jornais do país, como a Gazeta das Notícias (p.294). O guarani, de José de Alencar; A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo; O Ateneu, de Raul Pompéia; A mão e a luva, Quincas Borba, Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas; Crime castigo, de Fiódor Dostoiévski são algumas das obras publicadas por meio de folhetins, nos jornais que circulavam no Brasil, no século XIX.
125 Para MEYER (1996, p.298), o romance e o folhetim estiveram “sempre associados à contumaz frivolidade
da ‘gentil leitora’”. Quem lia romances (ou a quem se proibia a leitura) era a mulher, destinatária “natural” (p.379) do gênero textual, literário.
126 Em pesquisa recente, em que utilizou o acervo de sua família como fonte da investigação, mais
especificamente, fotografias, partituras, documentos, papéis, LOPES (2007) analisou também um caderno de recortes de seu avô. Como a tia-avó paterna de Pedro Nava, que tal e qual o avô da pesquisadora nascera no século XIX, Auxíbio Lopes colava nesse caderno poemas que recortava dos jornais que lia.