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O projeto antropológico de Lévi-Strauss se insere no campo específico das ciências humanas, cuja metodologia sempre reivindicou o estatuto científico.

A antropologia francesa se desenvolveu com força no decorrer do século XIX. No entanto, uma corrente cientificista, derivante de um discurso da biologia, e racista culminou em sua própria derrocada e no consequente surgimento de uma escola sociológica embasada no pensamento de Émile Durkheim.

Durkheim pretendia estudar o homem objetivamente como um ser social. É nesta escola que Lévi-Strauss se insere com o objetivo específico de realizar um estudo das estruturas formais inconscientes seguindo o modelo da ciência da linguagem.

Alguns comentadores da obra de Lévi-Strauss veem-no como um herdeiro crítico da escola de Durkheim na medida em que toma o social como uma ordem objetiva e desenvolve um método de explicação.

61 “(...) Interroguei-o [um jovem militante socialista belga, amigo de seus pais] sobre autores dos

quais não se ouvia falar entre os estudantes secundaristas. Marx, Proudhon... Ele fez com que eu os lesse. (...) Dezesseis anos. E Marx me fascinou imediatamente. (...) logo estava lendo O

Capital. (...) Fui secretário do Grupo de Estudos Socialistas das Cincos Escolas Normais

Superiores, mesmo não sendo normalista, e fui até secretário-geral da Federação dos Estudantes Socialistas” (LÉVI-STRAUSS, 2005, p. 17-19).

“Seu interesse pelo mundo da natureza soma-se, desde muito cedo, a uma abertura para o mundo social. Já no liceu engaja-se no combate socialista. Adquire, ainda cedo, um conhecimento profundo da obra de Marx graças a um jovem socialista belga, Arthur Wanters, convidado num verão para a casa de sua família e que o fez ler Marx aos 17 anos” (DOSSE, 2007, p. 39).

Claude Lévi-Strauss é um herdeiro crítico da escola de sociologia fundada por Émile Durkheim. Essa escola baseou-se na definição do social como uma ordem objetiva das coisas, cujo estudo depende de um método de explicação específico. O social constituir uma ordem de coisas significa que a união dos indivíduos produz uma nova totalidade que age sobre as consciências individuais à maneira de uma causa natural. Nessa perspectiva, o sociólogo deve colocar-se no exterior das consciências individuais e se situar no nível do próprio social, para determinar as modalidades variáveis de sua ação (KECK, 2013, p. 28).

Um afastamento importante que Lévi-Strauss terá de Durkheim se refere à necessidade que o primeiro vê de aproximar-se das sociedades primitivas. Podemos dizer, com Frédéric Keck, que ele é contrário ao antagonismo entre explicação e compreensão, enquanto a explicação é o estágio distanciado do objeto e a compreensão o da relação de aproximação, para ele é preciso aproximar-se para distanciar-se. Trata-se de uma retomada da diferenciação de Dilthey entre “erklären” e “verstehen”, explicar e compreender, problema ligado à história da hermenêutica.

A ruptura com Durkheim acontece frente à defesa da etnografia contra as conceitualizações dos documentos históricos. A proibição do incesto, primeiro tema de relevo para Lévi-Strauss, é tomada em suas raízes atemporais e universais na busca de permanências da interdição entre diferentes grupos sociais (DOSSE, 2007).

François Dosse vê duas heranças importantes da escola sociológica francesa no pensamento de Lévi-Strauss, notadamente o cientificismo e o holismo. Para Auguste Comte, era o modelo inspirado no método científico que poderia dar credibilidade às ciências sociais; em Comte e Durkheim encontramos um horizonte universal da explicação no campo das ciências sociais, o mesmo que vai impulsionar Lévi-Strauss ainda que com ferramentas e concepções bastante diferentes.

Sobre a influência de Durkheim em seu pensamento, assim se expressa Lévi-Strauss:

Quando eu era estudante, no início de minha carreira, insurgi-me contra a escola... enfim, contra Durkheim, porque na mesma época descobria a etnologia anglo-americana e, é claro, eu era especialmente sensível à diferença entre o teórico e pessoas que falavam de coisas que tinham ido ver em campo. Como eu mesmo tinha um grande gosto

pela aventura, sentia-me mais próximo deles. Mas creio que, posteriormente, compreendi bem melhor e retornei, em grande parte, à tradição durkheimiana.

Eu nunca fui aluno de Mauss, já que eu nunca tinha feito etnologia antes de partir para o Brasil, mas de qualquer modo, antes de partir, fui ver Mauss e também fui ver Lévy-Bruhl. Eles me deram conselhos, quando eu retornava à França, ia vê-los. Não houve, portanto, uma ruptura... Foi mais, digamos, uma passagem inconstante e, posteriormente, um retorno muito profundo ao pensamento durkheimiano e ao de Mauss (LÉVI-STRAUSS, 1999, p. 15).

Marcel Mauss também exerce uma grande influência sobre o trabalho de Lévi-Strauss. Sobrinho e discípulo dissidente de Durkheim, ele fala de inteligência classificatória em Algumas formas primitivas de classificação e

Ensaio sobre a dádiva. Neles, a análise de Mauss privilegia fatores de

diferenciação, termos segundo os quais Lévi-Strauss dedica especial atenção quando analisa as estruturas elementares do parentesco. Sobre as aproximações entre Mauss e Lévi-Strauss, trataremos com mais detalhes posteriormente, quando analisarmos o texto de introdução à obra de Marcel

Mauss escrito por Lévi-Strauss.

Um elemento marcante para a guinada etnológica da obra de Lévi-Strauss é o de sua vinda ao Brasil, graças ao convite de Célestin Bouglé para lecionar na Universidade de São Paulo. Neste período, pode realizar duas expedições etnográficas: a primeira entre os Bororo, no Mato Grosso, enquanto lecionava na USP, que resultou em uma exposição etnológica realizada em Paris. A segunda, uma incursão de dois anos entre os índios Nambikwara do Brasil Central, que resultou, especialmente, na publicação de sua tese complementar A vida social

e familiar dos Nambikwara62.

Sobre estas expedições etnográficas Lévi-Strauss escreveu o livro Tristes

Trópicos63 quase vinte anos depois, como ele mesmo atesta, período suficiente

para que as reflexões sobre suas viagens tornassem o texto algo diferente de um simples diário de campo:

(...) fiquei tentado pelo projeto de escrever pelo menos uma vez sem policiamento, e dizer tudo que me passava pela cabeça.

62 LÉVI-STRAUSS, C. La Vie familiale et sociale des indiens Nambikwara. Paris: Societé des

Américanistes, 1948.

Enfim, com o tempo, tinha conseguido um certo distanciamento. Não se tratava mais de transcrever uma espécie de diário de expedições. Eu deveria repensar minhas velhas aventuras; precisaria refletir e filosofar sobre elas, fazer um balanço (LÉVI-STRAUSS, 2005, p. 90).

Frédéric Keck chama a atenção para o fato que sua experiência de campo serviu para que ele refletisse sobre a impossibilidade de uma experiência etnográfica pura, fazendo uma crítica da experiência vivida pelo etnógrafo na realidade social: ela é falha e subjetiva, antes de tudo porque projeta a individualidade do pesquisador. Trata-se, portanto, de introduzir o elemento subjetivo na observação.

Ainda que a ênfase de Lévi-Strauss tenha sido colocada na explicação das estruturas sociais, a experiência subjetiva do etnógrafo deve ser colocada no mesmo patamar do objeto que deve descrever. Veremos que não há contradição nisso.

A inserção de Lévi-Strauss na antropologia64 pode ser considerada em

dois momentos: o de suas etnografias no Brasil e o de sua teoria nos Estados Unidos.

Após o período de pesquisas de campo no Brasil, Lévi-Strauss retorna para a França, onde presta o serviço militar em meio à Segunda Guerra Mundial. É beneficiado por um programa dos Estados Unidos que valoriza estudantes europeus e, por isso, migra para lá.

Durante sua estada em Nova York descobre o rico acervo etnográfico do

Bureau of American Ethnology, que servirá de base para sua extensa pesquisa

acerca das estruturas elementares do parentesco.

É ainda, logo no início de sua permanência na América do Norte, que Lévi- Strauss encontra Franz Boas e sua antropologia cultural65.

64 Podemos encontrar uma distinção em Lévi-Strauss, já formulada em Robert Lowe, entre

etnografia, etnologia e antropologia. A etnografia é a coleta extensiva de dados sobre uma sociedade; a etnologia opera as relações, em vários níveis, entre os dados de uma sociedade; e a antropologia é a dedução de hipóteses sobre o homem. Cf.: KECK, 2013, p. 46.

65 Sobre a diferenciação entre os termos antropologia social e antropologia cultural, encontramos

o esclarecimento de Dan Sperber, que pareceu útil para o uso que faremos do termo em nosso trabalho: “‘Antropologia Cultural’, ‘Antropologia Social’ e ‘Etnologia’ têm sentidos muito próximos e, de qualquer maneira, demasiado imprecisos para serem diferenciados com interesse. Designam, os três, o estudo dos fatos sócio-culturais, seja ele geral, comparativo ou particular. Quando muito, pode notar-se a preferência dos antropólogos britânicos, de orientação mais

Este encontro é importante, pois ele oferece o fundamento para uma antropologia que tem sua base no estudo empírico, mas consegue ultrapassar o nível das comparações internas desenvolvendo uma teoria da natureza inconsciente dos fenômenos sociais.

Quanto a Franz Boas, Lévi-Strauss procurou imediatamente encontrar- se com ele após sua chegada em Nova York. Boas dominava então a antropologia americana e seu campo de curiosidades e investigações não conhecia limites. (...) A mais importante contribuição de Boas e sua influência sobre Lévi-Strauss terão sido a ênfase que deu à natureza inconsciente dos fenômenos culturais e a colocação das leis da linguagem no centro da inteligibilidade dessa estrutura inconsciente. O impulso linguístico estava dado, oriundo do campo da antropologia, a partir de 1911, e iria favorecer a fecundidade do encontro entre Lévi- Strauss e Jakobson (DOSSE, 2007, p. 46).

É ainda nos Estados Unidos que acontecerá o encontro com Jakobson. Como procuramos destacar sucintamente, o percurso formativo da antropologia de Lévi-Strauss já caminhava nas vias de um estruturalismo que ele mesmo chamou de ingênuo naquele momento. Jakobson, ao contrário, forneceu as bases para a impostação epistemológica de grandes proporções que deveria ocorrer na obra de Lévi-Strauss.

Sobre este encontro, Lévi-Strauss salienta:

(...) [Alexandre Koyré] pressentiu que entre mim e Jakobson havia uma certa comunhão de ideias. (...) Na época eu era uma espécie de estruturalista ingênuo. Fazia estruturalismo sem sabê-lo. Jakobson revelou-me a existência de um corpo de doutrina já constituído numa disciplina: a linguística, que eu nunca tinha praticado. Para mim, foi uma iluminação (LÉVI-STRAUSS, 2005, p. 66).

Jakobson exerce uma influência muito grande em Lévi-Strauss. A fonética – disciplina desenvolvida por Jakobson – orienta a antropologia para uma investigação de invariantes e para a percepção da preponderância dos fenômenos inconscientes da estrutura. Sobre a contribuição da linguística estrutural na obra de Lévi-Strauss trataremos a seguir.

sociológica, para o epíteto ‘social’, e a dos americanos, de orientação mais psicológica, para o epíteto ‘cultural’” (SPERBER, 1992, p. 12).

3.2 MOVIMENTO ESTRUTURALISTA: O AVESSO AO SENTIDO MANIFESTO