Cabe registrar a título da história da ciência que o nascimento da ciência moderna deve-se à filosofia de Bacon e Descartes, os inventores de uma epistemologia que não precisava de nenhuma autoridade divina para buscar o conhecimento e distinguir a verdade do erro. O homem por si só reúne as fontes do conhecimento, seja pela percepção dos sentidos ou pela intuição intelectual.
Já em Popper, a ideia do critério de falseabilidade surgiu em 1919, como oposição à atitude dogmática dominante do conhecimento científico da época. No entanto, desempenhou papel de suma relevância para Popper o alento de Albert Einstein que escreveu:
não pode haver melhor destino para uma teoria física do que abrir margem para uma teoria mais ampla, na qual sobreviva, como caso-limite (...). Entretanto o que mais impressionou (Popper) foi a explícita asserção de Einstein, de que consideraria insustentável a sua teoria caso ela viesse a falhar em certas provas. (POPPER, 1978, p. 44)
Para Popper está aí um critério científico que traz luzes satisfatórias para ter condições de possibilidades para o progresso científico, pois a atitude científica tem que ser uma atitude crítica do conhecimento, não importando tanto a verificação empírica, provas que podem ser refutadas pela teoria em análise.
A principal diferença entre Einstein e uma ameba é que Einstein busca conscientemente a eliminação do erro. Ele procura matar suas teorias: é conscientemente crítico de suas teorias, as quais, por isto, procura formular nitidamente e não vagamente. Mas a ameba não pode ser crítica vis-a-vis de suas expectativas ou hipóteses; não pode ser crítica porque não pode enfrentar suas hipóteses; estas fazem parte dela. (Só o conhecimento objetivo é criticável: o conhecimento subjetivo só se torna criticável quando se torna objetivo. E torna-se objetivo quando dizemos o que pensamos; e mais ainda quando o escrevemos, ou imprimimos.) (POPPER, 1999, p.34 - 35)
Popper, em seu racionalismo crítico, afirma que somente o conhecimento objetivo é criticável. É neste momento, em que a tese dos três mundos de realidades do conhecimento interage com o racionalismo crítico. Logo, confirma-se que a tese dos três mundos é consequência das considerações advindas do racionalismo crítico popperiano.
Antes de esclarecer o princípio da falseabilidade empírica de Popper, devemos tecer algumas observações preliminares para mostrar que ao formular tal princípio, Popper não intenciona criar um “critério de distinção entre teorias científicas e não-científicas, ele não pretende resolver a questão da distinção entre enunciado com significado e enunciado sem significado” (PELUSO, 1995, p.33). A refutabilidade não quer excluir ou marginalizar saberes que não são refutáveis, o que ele propõe com esse critério de demarcação é exclusivamente de delimitar uma área do discurso.
Cabe destacar, que para Popper, uma teoria que não é científica não significa que ela não tenha significado em seu conteúdo informativo. O princípio da falseabilidade empírica não tem o objetivo de separar e valorar se determinadas teorias são verdadeiras e outras falsas. Distante que está a teoria popperiana da ambição positivista em instituir critérios que excluam ou marginalizem domínios do saber, como o “metafísico”, pois ele tem a consciência do quanto a ciência erra e a pseudo ciência acerta. Portanto, o objetivo da falseabilidade empírica resume-se, simplesmente, à delimitação de uma área do discurso, a ciência. Sobre isto, o filósofo explicita:
Compreendereis então, espero eu, que não proponho que tracemos a linha de demarcação de modo a fazê-la coincidir com os limites de uma linguagem que inclua a ciência e expulse a metafísica, excluindo-a da classe dos enunciados com sentido. Pelo contrário: logo quando da minha primeira publicação sobre esta matéria, eu enfatizei o fato de que seria inadequado traçar uma linha de demarcação entre ciência e metafísica que excluísse esta última – como desprovida de significado – de uma linguagem com sentido. Indiquei uma das razões para isto ao dizer que não devemos tentar traçar a linha demasiado vincada. A questão torna-se clara se nos
lembrarmos de que muitas das nossas teorias científicas têm origem em mitos. O sistema copernicano, por exemplo, foi inspirado por um culto neoplatônico da luz do Sol, que tinha de ocupar o ”centro” em virtude da sua nobreza. Este fato demonstra como é que os mitos podem desenvolver componentes testáveis. No decurso da sua discussão, podem tornar-se proveitosos e importantes para a ciência. (POPPER, 2006, p. 346)
Popper acredita que a solução de determinados problemas não está no uso dos métodos da ciência de verificabilidade empírica, propagados pelos positivistas como o método em que uma proposição torna-se significativa se, e apenas se, puder ser verificada empiricamente. Isto é, se houver um método baseado na experiência para determinar se é verdadeira ou falsa. Na ausência de tal método, julga-se que há uma pseudoproposição desprovida de significado e sentido. A formulação popperiana propõe o rompimento deste método, que é o da verificação empírica e qualquer tentativa de construir uma lógica indutiva. Assim sendo, Popper apresenta outra estratégia para a demarcação da ciência: a falsificabilidade – em que uma proposição classifica-se como científica se, e apenas se, puder ser falsificada pela experiência:
Com seu critério – a falseabilidade –, Popper transfere para o momento da crítica da teoria a possibilidade de identificá-la como científica ou não, ou seja, se uma teoria não fornece os meios para um possível falseamento empírico, se não há experiência capaz de falseá-la, ela deve ser reconhecida como um mito, explicação pseudocientífica do real. Uma teoria científica deve ser falseável empiricamente, ou seja, se as proposições observacionais dela deduzidas forem falseadas, a teoria será considerada falsa. (MACHADO, 2012, p. 51 e 52)
Desta forma, há um critério para o método científico que está além da lógica dos enunciados científicos. Para Popper, assim como o jogo de xadrez tem suas regras próprias, a ciência também poderá ser determinada por uma metodologia.
A decisão aqui proposta para chegar ao estabelecimento de regras adequadas ao que denomino “método empírico” está estreitamente ligada a meu critério de demarcação: proponho que se adotem as regras que assegurem a possibilidade de submeter a prova os enunciados científicos, o
que equivale a dizer a possibilidade de aferir sua falseabilidade. (POPPER, 2007, p. 51)
A falseabilidade pauta-se no recurso hipotético-dedutivo, em que a teoria é submetida às tentativas de provar sua falsidade. Resistindo tal teoria às provas aplicadas, deverá ser aceita pela comunidade científica.
O princípio fundamental da falseabilidade empírica refere-se ao fato de que uma proposição só poderá ser considerada científica se for possível deduzir enunciados de observação que possam falsificá-las. Fato este que permite determinar o grau de verossimilhança, além de afastar e demarcar as teorias pseudocientíficas.
A teoria que resistir às tentativas severas de falseabilidade define-se como teoria corroborada. A corroboração de uma teoria, cujo efeito de refutação não se confirma, torna a enunciação mais credível, classificada como a indicada pelos cientistas, sem mesmo a confirmação. Jamais se pode afirmar que uma teoria científica é verdadeira.
Uma lei científica será considerada pertinente, se possuir maior conteúdo, isto é, aquela que faz afirmações de amplo alcance e que ao ser testada, resista à falsificação. Importante lembrar, que as teorias que tenham sido falsificadas têm de ser rejeitadas. Porém, enfatizamos que mesmo tendo nossas teorias refutadas pela falseabilidade ainda podemos aprender com elas, visto que, ao descobrirmos que a nossa conjectura era falsa, aprendemos sobre o que não é a verdade, nos aproximando ainda mais da verdade.
Vale dizer que para Popper, as regras do processo científico devem ser elaboradas de maneira a assegurar a aplicabilidade do critério de demarcação, desde que não proteja e blinde qualquer enunciado científico contra o falseamento.
Dentro desse cenário, podemos observar que, de acordo com a visão popperiana, um determinado sistema científico é válido se for passível a falsidade. Equivale afirmar que somente a falsidade de um sistema científico pode ser provada,
ao passo que nunca a sua veracidade absoluta. Neste sentido, a visão de Karl Popper explica-se da seguinte forma:
O jogo da Ciência é, em princípio, interminável. Quem decida, um dia, que os enunciados científicos não mais exigem prova, e podem ser vistos como definitivamente verificados, retira-se do jogo.
Uma vez proposta e submetida à prova a hipótese e tendo suas qualidades comprovadas não se pode permitir seu afastamento sem uma "boa razão” será, por exemplo, sua substituição por outra hipótese, que resista melhor às provas, ou o falseamento de uma consequência da primeira hipótese. (POPPER, 2007, p. 56)
Segundo esse critério, podemos comparar somente teorias concorrentes, tais como a teoria da gravitação de Newton e Einstein. A teoria mais influente e que conter persuasão, logo, maior poder explicativo, consequentemente, será a tese de maior conteúdo, como será também a de maior verossimilitude, pois por ter maior conteúdo será a teoria mais ousada. Porém, a mais arriscada e, por sua vez, a mais vulnerável à refutação. Segundo Popper: “Uma asserção que transmita mais informação tem maior conteúdo informativo ou lógico; é a asserção melhor. Quanto maior for o conteúdo de uma asserção verdadeira, melhor será ela como abordagem da verdade” (POPPER, 1999, p.61).
A verificação da verossimilitude das teorias poderá acontecer da seguinte maneira: submeter a comparação as teorias; a teoria (N) de Newton e a Teoria (E) de Einstein. A cada questão que a teoria de Newton (N) oferecer uma resposta a teoria de Einstein (E) também dará uma resposta, que do mesmo modo será precisa. Mas, a teoria de Einstein (E) apresenta respostas a determinadas questões que a teoria de Newton (N) não tem respostas. Portanto, conclui-se que a teoria de Einstein é a que tem o conteúdo maior:
Isto torna a teoria de Einstein potencialmente ou virtualmente a melhor teoria; pois mesmo antes de qualquer teste podemos dizer: se verdadeira, ela tem maior poder explicativo. Além disso, desafia-nos a realizar maior variedade de testes. Assim, oferece-nos novas oportunidades para aprender
mais a respeito dos fatos; sem o desafio da teoria de Einstein, nunca teríamos medido (com o maior grau de precisão necessário) a distância aparente entre as estrelas que rodeiam o sol durante um eclipse, ou o desvio vermelho da luz emitida pelas chamadas “anãs brancas”. (POPPER, 1999, p.59)
Observaremos que a teoria de Einstein (E) apresenta maior grau de verossimilitude do que a teoria de Newton (N). A teoria (E) é mais forte, seu grau de falseabilidade é maior que a teoria (N) e por conter maior conteúdo a teoria (E) é potencialmente melhor e é a mais desafiadora. Portanto, a teoria da gravidade de Newton foi falseada. Quando Einstein percebeu que o tempo e o espaço são relativos, ele propôs que a gravidade é causada por uma distorção do espaço- tempo, oriunda da presença de matéria, e não por uma força atrativa. Ele substituiu a teoria da gravidade de Newton pela teoria da relatividade, bem como, falseou a teoria do tempo absoluto de Newton. Cabe mencionar, que mesmo sendo a teoria de Newton falseada, ela continua útil e válida, pois muitos cálculos ainda são feitos a partir dela.
Outro conteúdo informativo da teoria de Einstein é a hipótese de uma velocidade finita para a luz. A velocidade da luz é o limite sem superação, não há informação que possa ser transmitida com velocidade maior que a da luz. Mostrando, assim outro dado que falseia a teoria de Newton de que a luz tem velocidade instantânea.
Apesar da teoria da relatividade de Einstein ser uma teoria bem fundamentada e consolidada, ela não passa de uma hipótese que, no futuro, poderá ser refutada por outra teoria científica de maior conteúdo informativo, aproximando- se mais da realidade. Como propõe o método popperiano, que tem como principal objetivo da ciência a busca da verossimilitude de uma asserção, e não a formulação simples de que o objetivo da ciência é a verdade. Neste sentido, revela o filósofo austríaco:
A procura da verossimilitude é um alvo mais nítido e mais realista do que a procura da verdade. Mas pretendo mostrar um pouco mais. Pretendo mostrar que, embora possamos nunca ter argumentos suficientemente bons, nas ciências empíricas, para alegar que alcançamos de fato a verdade, podemos ter argumentos fortes e razoavelmente bons para alegar que é possível termos feitos progresso no rumo da verdade. (POPPER,1999, p.63)
Conforme o método da falseabilidade empírica , o progresso da ciência se dá da seguinte forma: a ciência começa a partir de problemas para a solução desses problemas o cientista cria hipóteses que são submetidas a críticas e testes rigorosos, algumas hipóteses são eliminadas e outras podem passar pelos testes obtendo êxito.
Cabe ressaltar, que quando uma hipótese supera os rigorosos testes de falsificação por um determinado tempo, mas que passado um tempo é falsificada, surge, então, um novo problema, que é a invenção de novas hipóteses, seguidas de novas críticas e testes. Assim uma teoria científica não é uma verdade absoluta, por mais testes rigorosos que tenha superado. Somente podemos afirmar que uma teoria científica é superior a sua antecessora pelo fato de seus conteúdos informativos terem superado testes que falsificará as teorias anteriores.
Dentro dessa perspectiva, o progresso da ciência se dá por meio de ensaio de tentativas e erros, permitindo que se resolvam problemas e inventem outros. A falseabilidade empírica não desvaloriza os saberes não científicos como, por exemplo, a filosofia, pois a atitude filosófica é crítica e argumentativa do pensamento humano.
Enfim, para Popper, uma teoria nunca é mais do que uma mera hipótese, nunca poderá ser provada sua veracidade, mas poderá ser bem sucedida se resistir por um tempo determinado pelos testes severos e críticos da falseabilidade. Sendo, portanto uma teoria corroborada que ainda não foi falsificada.