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Para definir as diferentes maneiras dos sujeitos estabelecerem as relações, Lacan desenvolveu algumas formas de discurso e, a partir de sua teoria, podemos analisar como o sujeito na posição débil constrói seus laços sociais e estabelece suas relações. Para tal, vamos nos deter sobre alguns pontos referentes a essa elaboração da teoria de Lacan.

A teoria dos discursos foi desenvolvida por Lacan no Seminário de 1969- 70, O Avesso da Psicanálise, utilizando de matemas para definir as formas de

141 discurso. Essa produção foi justificada por Lacan considerar que o discurso pode ser entendido como uma estrutura,

[...] que ultrapassa em muito a palavra, sempre mais ou menos ocasional [...] Mediante o instrumento da linguagem instaura-se um certo número de relações estáveis, no interior das quais certamente pode inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe das enunciações efetivas. (Lacan, 1969- 70/1992, p. 11)

Com esta proposição, Lacan apresenta um objeto matemático nomeado de quadrípodes.60 (Ibid., p.15) O termo quadrípodes se refere ao fato de serem quatro discursos, com quatro elementos e que circulam por quatro lugares distintos. No discurso, trata-se de estabelecer um lugar de agente que transmite o discurso a outro, contendo a verdade desse agente, que é a verdade inconsciente, e obtendo uma produção como efeito desse discurso, uma produção como o mais-gozar (termo elaborado por Lacan proveniente do termo mais-valia de Marx).

agente outro

verdade produto

No discurso, o mais-gozar aparece como resultado de uma perda presente no discurso. O discurso sempre terá um resto e uma relação de disjunção entre verdade e produção. O nível de cima estabelece uma relação manifesta e da ordem do impossível, o de baixo, uma relação latente e do possível ou da impotência. Nesta representação esquemática a barra tem uma função de corte, uma mediação entre a verdade e sua representação (contendo algo do necessário), e entre a mensagem e sua produção, que contém algo do contigente. O discurso mantém uma relação dual entre o agente e outro, mas em uma estrutura quaternária.

Para ocupar os lugares de agente, verdade, outro e produto, Lacan utilizou termos móveis: S¹, S², $ (sujeito barrado) e a (objeto), que circulam de forma anti-horária em um processo de análise. O sujeito pode ocupar posições diferentes em momentos distintos e em lugares diversos. Conforme a posição que esses elementos ocupam, o discurso assume determinadas

60 O tradutor esclarece que não existe uma referência dicionarizada do termo e pela etimologia

142 características, o que veremos abaixo, com o primeiro deles sendo o discurso do mestre com a seguinte formatação:

Discurso do mestre S¹ S² $ a

No discurso do Mestre, o S¹, ou significante primordial, está na posição de agente; o S², ou o saber inconsciente, assume a posição do outro; o $ sujeito barrado ocupa a posição de verdade; enquanto o objeto a ocupa o lugar da produção, de resto da operação. Este é o discurso que permite um tipo de laço social em que o sujeito se submete à enunciação de um comando. É o discurso que organiza a sujeição política (Cf. Lebrun, 2008), e também o discurso da relação do senhor e escravo. A direção manifesta do S¹ ao S² é marcada pela vontade, pelo domínio, pela lei, pela sugestão; no caso deste discurso, exclui o sujeito e sua divisão, eliminando toda subjetividade. Este discurso é também o próprio discurso do inconsciente, tem a mesma estrutura do sujeito dividido que representa uma verdade inconsciente. O S¹ está no lugar do agente pela suposta identidade entre o sujeito e o significante que o representa, que se dirige a um outro em uma operação que produz um resto, um objeto perdido, causa de desejo.

O segundo discurso é o discurso da histérica, com a seguinte configuração:

$ S¹ a S²

No discurso da histérica, as posições se deslocam a partir de um quarto de rotação, na qual o sujeito dividido assume a posição de agente que se dirige a um Outro supostamente detentor do saber. O discurso da histérica é também o discurso do analisante. A relação manifesta está entre $ e S¹, provocando a produção de um saber, estando S² em um lugar impotente para dizer a verdade. O objeto que ocupa o lugar da verdade neste discurso é o objeto do qual o sujeito padece e sofre. O sujeito, ocupando o lugar do agente do discurso, apresenta-se com o seu sintoma, um sujeito dividido e que se pergunta por essa divisão. O sintoma aparece como dominante e se dirige ao

143 Significante mestre, que ocupa o lugar do outro. A busca do sujeito é por esse significante que o represente.

O terceiro discurso é o discurso do analista: a $

S² S¹

O discurso do analista surge com mais um quarto de volta, como efeito de uma análise. É o revés do discurso do mestre. Existe uma renúncia à educação e ao governo. Ocorre a produção de S¹ que será a chave da divisão do sujeito. O analista assume o lugar de resto da produção subjetiva e o objeto a está no lugar do agente. O saber da estrutura e do inconsciente é colocado no lugar da verdade.

O quarto discurso é o discurso universitário:

S² a S¹ $

Esse discurso se produz em uma volta no sentido inverso do discurso do mestre. Neste discurso, o saber (S²) está no lugar de agente, sendo caracterizado pelo discurso da ciência, da universidade, e tem como produção o sujeito, que ocupa o lugar do mais-gozar. Neste caso, a relação manifesta está entre o saber e o objeto de desejo.

Para Lacan, para se estar solidamente instalado como sujeito é preciso ater-se a um discurso, ter algum saber sobre o que se faz com este discurso. Existe um saber partilhado com certa coerência dos enunciados que estabelecem o discurso e os laços sociais.

Na debilidade existe uma forma peculiar de lidar com os discursos. Lacan, na lição de 15 de março de 1972, no Seminário Ou pire..., situa a debilidade na teoria dos discursos:

Chamo de debilidade mental o fato de que um ser, um ser falante, não esteja solidamente instalado em um discurso. É isso que dá um caráter especial ao débil. Não existe nenhuma

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outra definição que se pode dar a não ser a de ser aquilo a que se chama de estar um pouco “por fora”. Quer dizer, que entre dois discursos ele flutua. (Lacan, 1971-72, p. 32)

Esta é mais uma afirmação lacaniana na qual se pode diferenciar a debilidade da psicose, pois o psicótico é aquele que está fora, que é exterior ao discurso. Bruno, a partir dessa afirmação de Lacan, caracteriza o sujeito na posição débil como alguém que está ao lado, que erra o alvo, à margem do que funda o sujeito do desejo. Este sujeito é, portanto, alguém que fica meio de lado, suspenso, mas não completamente fora, como na psicose. “Na

debilidade, o sujeito se recusa a colocar qualquer um dos quatro termos do discurso no lugar da verdade”. (Santiago, 2005, p. 176) Estar entre dois

discursos significa não assumir uma posição de agente do discurso por recusar desvendar a falta do Outro, pois assumir uma forma de discurso significaria algo que poderia contestar a verdade do Outro, ou se dirigir a um Outro. O sujeito na debilidade repete o que o outro diz, mas não se autoriza como agente do discurso. Ele recusa a posição de sujeito dividido e não pode se situar no discurso no qual um significante se dirige a outro significante; de forma circular ele se dirige sempre ao mesmo, como relatamos anteriormente.

Sob este aspecto Cordié afirma: “o débil inclui seus significantes

principais em discursos que eles não têm nada a fazer”. (Cordié, 1996, p. 141)

Estar às margens dos fatos, para Cordié, significa ter um discurso sem sentido, “como se não conseguisse saber onde ele quer chegar, um mal encadeamento

das idéias (sic) e uma derrapagem no que se quer dizer”. (Ibid.) Percebe-se

que muitos destes sujeitos reproduzem tudo ao pé da letra por não assumirem este direcionamento de um discurso a outro.

Para Laurent (1995), o sujeito débil entre os dois discursos ocupa o lugar da verdade e não se modifica, não faz o giro, assumindo o lugar da verdade do discurso que está em baixo e à esquerda do discurso. Mas não é por ocupar o lugar da verdade que ele diz a verdade, nos lembra Laurent. (Cf. Laurent, 1995, p. 172) O fato de flutuar entre dois discursos permite a Laurent ratificar sua digressão entre os dois e a debilidade. Como já salientamos, ele coloca o débil fixado no S², o significante do saber. (Cf. Ibid.)

145 O flutuar entre os dois discursos e não ter uma entrada e apropriação do discurso ou ocupar o lugar de agente leva o débil a desenvolver uma série de particularidades como: ter facilidade para cantar e guardar determinadas músicas, ou lidar com cálculos, como já citamos. Estas são ações realizadas de forma a não precisar de uma decifração, o que seria necessário para a entrada do discurso. “Elas conhecem a canção como a tabuada de

multiplicação, mas não conhecem nem as palavras nem as notas”. (Balbo e

Bergès, 2003, p. 187)

Não havendo o deslizamento e um discurso, ocorre a imitação, uma ação que os mantêm no registro do imaginário. Mais uma vez denunciamos os tratamentos pautados nas repetições e nos “copismos” para esses sujeitos, assim como representações musicais ou teatrais, onde se colocam simplesmente como marionetes e não como atores ou autores das peças. Nestas propostas está implícita a manutenção do sujeito na posição débil e fora do discurso, ocupando o lugar do escravo no discurso do mestre, assumindo o lugar do objeto no qual o Outro trabalha para ele, sem assumir um saber-fazer.

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