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2 Varmevekslere

2.2 Klassifisering

Meu primeiro período de permanência na sala de pré consulta durou mais ou menos duas horas e meia, e foi no período da tarde. Importante salientar que esta sala é denominada também de sala de acolhimento. De imediato, percebe-se pouco movimento, havendo inclusive longos períodos em que a sala permanece vazia ou apenas com um auxiliar. Os horários em que a sala é mais frequentada são os que antecedem o início dos atendimentos médicos, tanto no período da manhã quanto o da tarde. Os auxiliares de enfermagem são os principais responsáveis pela realização desta etapa do atendimento ao usuário. Após realizarem os procedimentos referentes à pré- consulta, que se referem à pesagem, medida, anotação da quieixa, os usuários voltam à sala de espera até o médico chamá-los. Os auxiliares, por sua vez, se envolvem em outras atividades, preenchimento de fichas, realização de procedimentos na sala de curativos, e também visitas domiciliares. Este envolvimento com as visitas, como pude observar em alguns momentos em que estava na unidade, tratam-se de algumas demandas pontuais, na casa de um usuário que necessite da realização de curativo, ou da aplicação de medicamentos.

Quem realizou a primeira “pré”, como frequentemente é denominado tanto o espaço quanto os procedimentos, que observei, foi Violeta. Atendeu uma criança de colo, pesou, mediu, sempre brincando com o bebê e sorrindo. Também dá bastante atenção à mãe, perguntando sobre os demais membros da família, respondendo dúvidas. No entanto, nota-se que a temática das conversas circula preponderantemente em torno da saúde física, dos aspéctos biológicos da clínica e, principalmente, da doença. Isso se evindencia a partir de perguntas sobre a cicatrização de um machucado, a sarada de uma gripe, “e seu irmão, como que está da perna?”.

Ainda, em outros atendimentos, tanto conduzidos pela enfermeira quanto pelos auxiliares de enfermagem, percebe-se que alguns aspectos

considerações que se evidenciaram sobre estas abordagens. A primeira delas é que estes tais “aspectos” são tomados enquanto partes separadas da realidade do usuário, na medida em que as perguntas dirigidas pelos trabalhadores, via de regra, seguem-se em sequência: primeiro pergunta-se sobre a queixa que levou o usuário até a unidade, depois, pergunta-se sobre o problema crônico, caso haja um e se este já for de conhecimento daquele trabalhador e/ou da equipe, tais como diabetes, hipertensão, etc.

Outra possibilidade é a abordagem de problemas psíquicos e/ou sociais, desde que eles correspondam de fato a um problema previsto pela equipe, como um estado de gravidez, de drogadição, de transtornos mentais. Por fim, pergunta-se sobre outros membros da família do usuário. Em outras palavras, as questões de saúde são definidas mais por aquilo que se refere ao conhecimento da equipe do que algo que possa ser ineditamente trazido por aquele que busca por atendimento. Demanda e resposta se fecham em um curto circuito balizado pelo hábito de buscar uma unidade de saúde para curar doenças, que por sua vez acaba por se constituir na missão príncipe da equipe. Tal circuito tem como motor uma concepção de saúde centrada no biológico, mantendo a maneira instituída de fazer saúde, que não abre para outras possibilidades, outros percursos que considere e inclua mais a singularidade de cada atendimento, em uma perspectiva de humanização. “É preciso valorizar a queixa dos usuários e decodificá-las e não considerar que são queixas não condizentes para os fóruns onde estão sendo relatadas” (PEREIRA, 2008, p. 191).

Percebem-se também contrapontos, em que algumas vezes, pouco antes de o usuário sair da sala ou quando ele está voltando do consultório médico, abre-se um espaço para que o ele possa expressar outras questões, através de perguntas menos pontuais, como “como estão as coisas no geral?”, “mais alguma coisa que o senhor está precisando?”, “como estão as coisas em casa”, ou mesmo um “que mais?”. Ainda que alguns usuários coloquem-se apenas como representantes da própria queixa, estas possibilidades de abertura mostram-se potentes para a invenção de novos parâmetros do que significa ir bem ou mal de saúde, pois de fato outros problemas são

apresentados diversas vezes, como um casamento que vai mal, um filho que não conversa mais com a mãe, casos estes que pude testemunhar.

A diferença entre a abertura de espaço para a singularidade do usuário e a alocação de sua queixa em uma resposta “do” serviço de saúde pode ser discutida à luz da concepção de vontade em Nietzsche comentada por Deleuze (1976). O autor mostra como o tema da vontade na filosofia sempre colocou a própria vontade em função de representações de poder. A vontade de potência sempre encontrou, em outros autores antes de Nietzsche, uma finalidade específica, que tinha a ver com uma imagem aparente de poder, um desejo de dominar qualquer coisa, inclusive a própria vontade. Ao contrário, a vontade em Deleuze está sempre em um estado criador, ou seja, a vontade não deseja o poder, mas sim dá o poder, atribui o valor. Não se pode tomar o valor em si como a finalidade da vontade. Aproximando esta noção das observações, podemos dizer que não se pode submeter as vontades que atravessam os trabalhadores e os usuários implicados, no atendimento em si como a resposta para a demanda do usuário. Isto deslegitima o usuário, colocando o atendimento em si, ou seja, dentro daquilo que está previsto pelo serviço, na frente das possibilidades do que poderia ser um atendimento pautado na sua demanda singular. Neste sentido, não deixa de poder ser da responssabilidade de cada trabalhador instigar esta vontade que não encontra representações, perguntar “como estão as coisas” e poder encarar algo que está para além do seu conhecimento e dos protocolos do serviço.