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Antes de relatar a nova fase inaugurada com a entrada dos profissionais selecionados no novo hospital, vale a pena lembrar alguns momentos vividos com a primeira equipe de transição, aquela composta por servidores públicos e criada a partir da mudança do antigo hospital.

Um dos momentos importantes e significativos foi o da festa realizada em conjunto com a cooperativa dos artistas de nossa cidade. Essa cooperativa era uma associação informal de jovens artistas, preocupados em divulgar a cultura e a arte local, em promover mudanças estéticas capazes de influenciar as condições concretas de vida, inclusive das populações vulneráveis socialmente.

Fomos procurados por representantes da cooperativa já desde o início da intervenção, quando propuseram a realização de um evento dentro das dependências do hospital.

O evento seria público, e teria como objetivo geral trazer as pessoas comuns para conhecer os internos e conviver com eles, levando a entender a necessidade de se mudar o atendimento em saúde mental e os valores que ajudam a afastar e a excluir os loucos do convívio social.

Os artistas também queriam sensibilizar e envolver seus pares no trabalho de transformação do hospício, desenvolvendo oficinas culturais com os internos, além de obter doações em espécie que pudessem atender a necessidades básicas dos pacientes, tais como roupas e produtos de higiene.

A aproximação dos artistas, iniciada pelas lideranças da cooperativa, traduzia uma certa curiosidade na descoberta dos internos, daquelas vidas reclusas que expressavam uma produção social, ou seja, que eram também o reflexo de processos sociais que as haviam produzido.

O limiar em que se encontra a arte, a vivência da criação, comunica-se diretamente com as ilusões e os fantasmas que cada interno produz, na tentativa de percorrer o mundo vivenciando o que muitos de nós deixamos de conhecer ao nos entregar ao pobre mundo fantasmático da mercadoria e do consumo. Esse limiar vibra na vivência dos artistas. E os internos vivem essa fruição intensamente, às vezes sem limites e até de modo atordoante. As vozes das mensagens sociais lhes aparecem por vezes de modo ensurdecedor, em decibéis quase insuportáveis.

Jovens artistas e internos que residiam num manicômio havia anos compartilharam a rua defronte ao novo hospital – localizado bem no centro da cidade -, que foi fechada para o trânsito de veículos numa tarde de domingo.

Festa com cooperativa de artistas, diante do prédio do Festa com cooperativa de artistas, diante do prédio novo serviço, no centro da cidade: dança da ciranda I. novo serviço, no centro da cidade: dança da ciranda II.

Festa com cooperativa de artistas, diante do prédio do novo serviço, no centro da cidade: roda de capoeira.

No palco, embalados por um potente som, ocorreram muitos shows musicais, apresentação de dança, um debate, mostra de trabalhos gráficos e documentários em vídeo.

Ainda havia muitos pacientes com os pés descalços no chão de asfalto porque, devido à velocidade dos acontecimentos, conseguimos muitas roupas, mas não calçados suficientes para todos os pés. Além disso, alguns pacientes também resistiam a vestir sapatos (por que os pés no chão resistiram até agora? Será que eles representam uma forma de estar na realidade?). Poderia haver alguma correlação entre os pés descalços e a necessidade de sentir o corpo, como forma de evitar a sensação de desintegração deste. O contato da pele com o chão poderia intensificar a sensação tátil, assim como o uso simultâneo de várias blusas de lã em pleno calor (como às vezes fazem certas pessoas) poderia intensificar a sensação térmica, de forma a reproduzir a intensificação das percepções que ocorre durante uma alucinação (ou seria um excesso de realidade?), por exemplo. Os pés no chão poderiam ainda representar um rechaço dos pacientes ao processo de normalização, um sinal de resistência, nem tão consciente, que informa que depois de tantos anos reclusos à força, a própria sociedade deve olhar e lembrar da violência que cometeu. O fato é que nenhuma dessas hipóteses basta para explicar a opção pelos pés descalços, e seria desejável que todas as pessoas pudessem ter a sua disposição um par de calçados, para usá-los ou não. A partir daí haveria a negociação e a produção de sentidos sobre colocar ou não os pés nos calçados.

Mas o encontro desprezou os calçados nos pés e outras carapuças que sempre evitaram o convívio com os loucos: os mitos de periculosidade e de irracionalidade.

Artistas e pessoas comuns dos arredores conheceram enfim os ex-internos do antigo hospital, estes últimos utilizando, junto com pessoas da equipe e alguns artistas, camisetas com o lema do evento: “FECHEM AS PORTAS DO HOSPÍCIO, ABRAM AS DO CORAÇÃO”.

Lembranças de Santos XII

Em Santos, o envolvimento de artistas foi um dos aspectos que permitiu metamorfosear a imagem cristalizada que historicamente se produziu com relação à loucura. Através dos “loucutores”, como eles próprios se denominavam, da Rádio TAM-TAM (que tinha um programa numa rádio comercial), as novas mensagens, produzidas também nas situações concretas em que os pacientes participavam (as experiências de inserção no trabalho que ocupavam espaços diversificados, a freqüência em eventos públicos de lazer e cultura etc.), eram potentemente emitidas pelas ondas do rádio (Nicácio, 1994). Além desse tipo de intervenção focada na emissão de mensagens (pelo rádio), ocorriam também muitas festas tentando trazer as pessoas para dentro do manicômio. Lembro até de uma grande festa com vários grupos musicais, no pátio do Anchieta, em que um interno conseguiu subir no alto muro da instituição e, lá de cima, tirava o pênis de dentro da calça tentando provocar um escândalo, com cara de quem estava fazendo arte. De certa forma, era como se ele lembrasse que ainda se separavam os loucos dos normais, pois depois da festa ainda persistia o manicômio para alguns, enquanto outros voltavam para casa. Enquanto isso, uma legião de colaboradores tentava convencer o rapaz a descer, pois uma queda seria perigosa. E logo ele desceu. Grandes lembranças estas de Santos!