• No results found

Tendo em vista a importância da narração como criação, representação do mundo, Weinrich (1968) apresenta o protótipo do narrador, ou seja, a imagem que se tem do narrador da história. O autor descreve a imagem do narrador, mencionando que (p.67-8):

[...] Temos a imagem de uma pessoa mais velha nos contos infantis é um velho, ou a avó, sentado (a) – não em pé – em uma poltrona, sofá ou em um banco junto à chaminé, conta as histórias ao anoitecer depois do trabalho. O velho interrompe alegremente seu relato para dar uma tragada em seu cachimbo, charuto ou cigarro, se move lentamente, leva o tempo necessário para contemplar, um por

um, seus ouvintes, seus gestos são escassos e a expressão do rosto é serena.

Na situação narrativa, tem-se uma atitude relaxada, enquanto a situação comunicativa não narrativa, a atitude é tensa, nela o falante está em tensão e seu discurso é dramático porque se trata de coisas que o afetam diretamente. O mundo desta situação é comentado, no qual o falante está comprometido e seu discurso é um fragmento de ação de modificar o mundo. O autor indica que há tempos para comentar e para narrar, assim há tempos gramaticais do comentar e do narrar. As escalas das situações comunicativas são amplas, isso possibilita diferenciar o comentarista do narrador.

É pelo compromisso, segundo o autor, que se pode conhecer o narrador. Esse compromisso do narrador com a história é um sinal, para que o ouvinte/leitor entenda que se trata de algo que o afeta diretamente e seu discurso exige uma resposta falada ou não falada. Nesta situação, o falante faz uso dos tempos do grupo I, cuja função não consiste em mencionar um tempo, mas sim um sinal de alarme, que:

[...] não se permite ou ao menos não é adequado escutar relaxadamente. Ao contrário, os tempos do grupo II, o leitor ou ouvinte pode interpretá-los como sinal de que está permitido escutar durante um momento com relativa participação, ou seja, com tensão suave. (Weinrich, p.70)

Para Weinrich, esse ponto de vista sobre texto facilita e economiza o leitor de “desperdiçar” concentração, ou seja, se o texto exige do leitor toda concentração (primeiro grau de atenção) em cada comunicação lingüística ou se lhe é permitido relaxar (segundo grau de atenção), Weinrich afirma que é útil conhecer em cada oração se é ou não permitido relaxar.

O autor aponta que é permitido passar do narrar para o comentar ou do comentar para o narrar, contudo a mudança rápida de mundo narrado para comentado ou vice-versa pode colocar em risco a compreensão, ou seja, deve-se observar a limitação combinatória para que a coerência não seja prejudicada com a mudança rápida de mundo comentado para narrado ou vice-versa, mudança permitida somente na fronteira da oração. A definição de frase permanece como unidade linguística segundo a atitude comunicativa, apesar da distinção entre mundo narrado e mundo comentado.

Na página 53, o autor define frase como: “[...] a frase é uma manifestação linguística que, pelo menos, contém um tempo, mas que não permite mudança entre os grupos temporais I e II”. Quando o falante emprega os tempos do grupo II, o ouvinte sabe que a informação se trata de um relato. Os tempos presente e imperfeito não informam sobre o Tempo, mas sim como escutar, ou seja, se o “contar” vai ser narrado ou comentado.

O “contar” comentado exige do ouvinte uma postura imediata (uma opinião, uma avaliação, alteração ou coisa parecida), enquanto o “contar” narrado não é imposto ao ouvinte adotar uma postura, pode ser adiada ou pode, simplesmente, não adotar nenhuma postura.

Pode-se ajustar o passado por uma data, ou o presente ou futuro por qualquer outro dado. Isto não muda em nada o estilo do relato (história) nem a situação falada que lhe é própria. Não se pode mentir o mundo em que se encontram falante e ouvinte, os quais são diretamente afastados, ou seja, a situação falada reproduzida no modelo da comunicação não é cena, evento em que falante e ouvinte, enquanto dure o relato, são mais expectadores do que personagens ativos, enquanto contemplam-se a si mesmos prescindem a existência do falante e do ouvinte.

Em respeito a línguas como o espanhol e o francês que fazem diferença dos dois tempos da narração, imperfeito e perfeito simples (perfecto simple y imperfecto/ imparfait y passé simple). Segundo Jean Pouillon (apud Weinrich), o imperfeito no romance não tem propriamente significação temporal (de Tempo), mais sim espacial: “nos afasta do que observamos”. Não diz que o evento passou, porque, precisamente o romancista quer fazer o leitor participante nesse evento.

O imperfeito nos romances não significa que o romancista está no futuro de sua personagem, simplesmente que não é esse personagem o qual mostra. Quanto ao uso do perfeito simples, o autor na página 78 menciona que: “É o tempo que por estar relatado em terceira pessoa, melhor convém ao romance. Fica-nos a interessante observação de que o perfeito simples caracteriza um mundo que está “muito notadamente” afastado do nosso mundo e mudado ao plano místico”.

Os tempos do mundo narrado não podem ser identificados com nenhuma fração de Tempo do mundo comentado ou o Tempo vivido e muito menos, com a porção de Tempo chamado passado. Os tempos do mundo narrado são, entre outros, determinantes para que a temporalidade não tenha validade enquanto dure a narração (relato).

No mundo narrado alguns advérbios temporais não têm aplicação, por exemplo, Agora, hoje, ontem, amanhã são “traduzidos” ao narrar; por então, naquele tempo, na véspera23, no dia seguinte. Os advérbios temporais, assim como ocorrem com os tempos dividem-se em dois grupos os quais informam ao leitor se é mundo narrado ou mundo comentado.

Na linguagem, não existe “o Tempo”, e, portanto, há diferentes formas de chamar de acordo com as traduções feitas pelos estudiosos da linguagem (observação feita

pelo autor), Weinrich adverte que seria totalmente incompreensível se se tratasse simplesmente de “Tempos do passado”, os quais movem uma ação do passado em dias, anos ou séculos, não se trata aqui de retroceder uma ação, o que sucede é que um mundo se transforma em outro mundo.

Partindo dessa informação de que o discurso humano pertence ao complexo de uma situação comunicativa acompanhada de um comportamento não linguístico, o autor cita como exemplo, a comunicação dos surdos por meio de gestos e signos, cuja significação está determinada pela situação.

No relato, os tempos, tanto na cena quanto na narração podem-se acrescentar outras formas expressivas, porém são secundárias, enquanto no drama (mundo comentado) é imprescindível à representação, em oposição o relato não necessita de representação, o autor afirma que os bons narradores não gesticulam, visto que os tempos constituem liberdade suficiente. E na página 81 em referência ao mundo narrado, o autor afirma que: “O mundo narrado é uma cena”.