Kapittel 7 Programstrukturen
7.1 Klasseinndelingen
A título de síntese retomaremos, agora, aspectos do percurso de Reich, desde sua participação no movimento psicanalítico até seu distanciamento da teoria freudiana. Uma trajetória que, como vimos até o momento, deparou-se com
56 É de se suspeitar que o conceito reichiano de princípio comum de funcionamento sofreu alguma
influência das ideias de Lange, embora Reich não tenha, até onde temos conhecimento, admitido explicitamente tal influência. O que nos levou a essa hipótese foi uma ponderação do filósofo alemão em sua monumental obra, em que ele propôs, para lidar com as complexas relações entre o mundo material (físico) e o mundo sensorial (psicológico), que se buscasse por “uma terceira e desconhecida coisa como causa de ambos [os mundos]”, pois isso poderia conduzir a investigação a um âmbito “mais profundo do que a simples identificação daqueles dois mundos” (LANGE, 1866/1950, vol. 2, 2.a
seção, p. 328, tradução nossa, grifo do autor).
117
complexos problemas relativos à construção de uma psicologia científico-natural, à possível associação entre o âmbito psíquico e o âmbito energético, à tentativa de identificar fatores que unificassem fenômenos dinamicamente entrelaçados e à busca por perspectivas epistemológicas não mecanicistas.
Comentamos anteriormente que Reich participou ativamente do movimento psicanalítico por aproximadamente quatorze anos, até que significativas diferenças “teóricas, metodológicas e políticas” havidas entre ele e a cúpula da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) acabaram resultando em sua expulsão da instituição em 1934. O autor considerava a teoria da libido como eixo principal da obra freudiana, mas lhe pareceu que a maior parte dos psicanalistas estaria relegando o conceito de energia sexual a um segundo plano e produzindo, assim, uma “descientifização” da Psicanálise. Em determinado momento de seu período psicanalítico, Reich também passou a questionar veementemente, a partir de estudos teóricos e de sua experiência clínica, o conceito freudiano de impulso de morte (Todestrieb), além de se pôr a desenvolver uma metodologia terapêutica (a Análise do Caráter) que tinha como referencial de cura um conceito jamais aceito pelo meio psicanalítico, a potência orgástica. Houve, ainda, outro fator decisivo na exclusão de Reich dos quadros do movimento psicanalítico: o trabalho de orientação político-sexual que o autor desenvolveu, como apontamos anteriormente, no âmbito dos partidos de esquerda em Viena (1927-1930) e Berlim (1930-1933). Esse envolvimento político reichiano teria incomodado profundamente
118
a cúpula da IPA, justamente no “delicado momento da ascensão de Hitler ao poder” (BEDANI; ALBERTINI, 2009).57
Ao se refugiar na Noruega em 1934, Reich retomou seu antigo intento de vincular os âmbitos psico-qualitativo e energético-quantitativo, contando agora com recursos laboratoriais. Por meio de seus experimentos bioelétricos, o cientista chegou à conclusão, como salientamos em outros momentos, que “a quantidade do
potencial de superfície [da pele] e a intensidade das sensações erógenas ou vegetativas” seriam dimensões fenomênicas “funcionalmente idênticas” (REICH,
1937/1982b, p. 128, tradução nossa, grifo do autor). A qualidade/intensidade de uma dada apreensão sensorial mostrar-se-ia, de acordo com as pesquisas experimentais reichianas, indissociável da quantidade de carga presente em uma dada região da pele ou mucosas. Além disso, os dois registros se igualariam ou, como indicou o autor na citação acima, seriam funcionalmente idênticos no que concerne a um terceiro e mais amplo fator. Ainda que de naturezas bastante distintas, sensação e carga bioelétrica seriam indiferenciáveis ou se unificariam em seu denominador comum. Sempre em busca de princípios comuns de funcionamento, Reich, após algumas incertezas iniciais, localizou aquele fator de base na pulsatilidade plasmático-vegetativa.
O plasma vegetativo em estado de expansão, movendo-se em direção ao mundo, repassaria essa sua expansividade para o registro percepto-sensorial (incremento da sensação de prazer) e para o registro somato-energético (elevação do potencial bioelétrico). Em estado de contração, o plasma se retrairia, havendo,
57
Vai além de nossos propósitos, aqui, examinar detalhadamente a participação de Reich no movimento psicanalítico, assim como o contexto histórico que conduziu a sua expulsão da agremiação. Uma análise pormenorizada do tema pode ser encontrada em Wagner (1995).
119
simultaneamente, sensação de desprazer e diminuição da carga elétrica periférica (REICH, 1937/1982b).
Mesmo excluído da Associação Psicanalítica, Reich continuou buscando, na segunda metade da década de 1930, comprovações científico-naturais para certos conceitos freudianos. Acreditando, naquele momento, que a bioeletricidade representava a objetivação laboratorial da energia sexual sugerida por Freud, o autor fez o seguinte comentário em sua autobiografia científica: “O conceito freudiano de libido como medida da energia psíquica não é mais uma mera metáfora. Ele diz respeito aos processos bioelétricos concretos” (REICH, 1942/1989, p. 377, tradução nossa).58
Em seu período orgonômico (1939-1957), vivendo então nos EUA, Reich passou, contudo, a tomar distância cada vez maior em relação ao corpo teórico freudiano. Ainda que jamais tivesse deixado de assinalar a importância das ideias psicanalíticas para o primeiro estágio de sua produção, ele comentou por diversas vezes (HIGGINS; RAPHAEL, 1972; PLACZEK, 1981) que a Orgonomia destoava profundamente da psicanálise, no que tange ao seu objeto de estudo (as forças orgonóticas que, na visão reichiana, manifestar-se-iam nos domínios do orgânico e do inorgânico) e à sua base epistemológica (que teria como núcleo o princípio da simultaneidade de identidade e antítese).
Em carta com data de 14 de maio de 1947 e endereçada ao educador inglês Alexander S. Neill (1883-1973) (Neill e Reich mantiveram intenso vínculo de amizade por duas décadas), o cientista, referindo-se à ciência orgonômica, foi
58 Reich certamente estava se referindo à definição que Freud deu da libido em “Três ensaios para uma
teoria sexual”, de 1905: “Estabelecemos o conceito de libido como uma força quantitativamente variável, que nos permite medir os processos e as transformações da excitação sexual” (FREUD, 1905/1973b, p. 1221, tradução nossa).
120
bastante enfático: “Há quinze anos meu trabalho não tem, absolutamente, nada a ver com a psicanálise e suas diferentes variações. Há quinze anos um novo ramo da
ciência natural, não da psicologia, está em plena atividade” (PLACZEK, 1981, p.
190-191, tradução nossa, grifo do autor).
No estágio orgonômico de sua produção, Reich estava, em suma, lutando “desesperadamente”, como ele próprio admitiu, “para não ser olhado como um ramo da psicanálise” (PLACZEK, 1981, p. 190-191, tradução nossa). Como observamos há pouco, ele também não nutria qualquer simpatia pela abordagem laboratorial wundtiana, além de ser um veemente crítico da “visão mecanicista da função cerebral” (REICH, 1949/1973h, p. 455, tradução nossa) e da “obsoleta localização cerebral das sensações e ideias” (REICH, 1949/1973g, p. 356, tradução nossa).
Descontente, em suma, com importantes orientações teóricas de sua época, o autor, como notaremos no próximo capítulo, irá se inspirar, para desenvolver suas pesquisas orgonômicas sobre a sensorialidade plasmática, na psicologia celular, uma linha de pesquisa praticamente esquecida, atualmente, pela História da Ciência.