A obesidade está associada à quase totalidade dos casos da diabetes tipo 2 mas nem sempre a obesidade está presente quando a diabetes é diag- nosticada. Com efeito, mais importante como factor de risco para a diabetes que a obesidade actual parece ser a obesidade passada, como factor de-
terminante da diabetes tipo 2201, e também mais importante que o grau de
obesidade parece ser a localização da gordura, tendo a medida do períme- tro abdominal sido considerada como o indicador mais fiável das alterações metabólicas verificadas nos obesos. Embora as pregas cutâneas tenham sido propostas para medir e comparar a obesidade entre populações, as mesmas apenas expressam a gordura subcutânea que, metabolicamente, é menos
activa que a gordura visceral23. A obesidade é reconhecida como um factor
de risco importante para a diabetes tipo 2 que, de forma típica, está associa- da a uma sensibilidade baixa à insulina, um estado conhecido como insulino- -resistência202.
Os mecanismos etiopatogénicos da diabetes tipo 2 não se encontram ainda claramente estabelecidos. A resistência à insulina, por exemplo, é verificada na maior parte dos doentes com intolerância à glicose e diabetes tipo 2 mas é também encontrada em cerca de 25% dos indivíduos não obesos e com tolerância normal à glicose e, segundo alguns autores, as alterações da tole- rância à glicose dependem da capacidade das células β do pâncreas para modificar a taxa de secreção da insulina, levando consequentemente a um estado de hiperglicemia crónica.
A hiperglicemia crónica inibe a utilização de insulina23. Todavia, a hipergli-
cemia em jejum ou pós-prandial na diabetes tipo 2 resulta essencialmente da produção aumentada de glicose hepática e menos da alteração na sua utilização. Quando os tecidos se encontram expostos a hiperglicemia crónica, ocorre uma diminuição da secreção de insulina e também da taxa de utiliza- ção da glicose estimulada pela insulina23.
A diabetes tipo 2 aparece em geral depois dos 35 anos e pode não ser diagnosticada por apresentar uma sintomatologia muito escassa ou mesmo nula12;108. Durante este período assintomático, por vezes prolongado, a hiper-
glicemia pode ser suficiente para causar alterações nos tecidos-alvo, mas a diabetes apenas tem expressão clínica franca, com hiperglicemia permanen- te e manifestações clínicas típicas quando as células β do pâncreas são inca-
DOENÇA PERIODONTAL E DIABETES MELLITUS 2
pazes de produzir insulina em quantidade bastante para fazer face à insulina
resistência e a valores progressivamente mais altos das glicemias21. O hiper-
insulinismo deixa de ser compensatório, ocorre uma insulinopenia relativa e, consequentemente, uma insulino-carência. As causas desta situação são a obesidade, o stresse, o sedentarismo e uma dieta com grande consumo de gorduras saturadas, poucas fibras e uma substituição dos alimentos tradicio- nais por alimentos pré-fabricados hiper-calóricos.
Diversos estudos epidemiológicos transversais e longitudinais foram claramen-
te demonstrativos de uma associação entre a obesidade e a diabetes89;104;196,
tendo-se verificado que a obesidade e o aumento de peso se acompanham
de um aumento de risco para a diabetes196 e que, inversamente, uma perda
intencional de peso reduz o risco de desenvolvimento da diabetes203. Calcu-
lou-se que, nos Estados Unidos, morrem anualmente cerca de 300000 adultos
por causas relacionadas com a diabetes204. Recentemente, Mokdad e cola-
boradores publicaram em 2003 os resultados de uma investigação conduzida com o objectivo de avaliar a prevalência da obesidade e da diabetes em adultos dos Estados Unidos. Os autores verificaram que, em 2001, a prevalência da obesidade nos adultos dos Estados Unidos (indivíduos maiores de 18 anos), considerado um IMC≥30, era de 20,9% versus 19,8% em 2000, tendo o aumento sido de 5,6%, enquanto que a prevalência da diabetes atingiu o valor de 7,9% versus 7,3% em 2000, sendo o aumento de 8,2%. A prevalência de um IMC com o valor de 40 ou superior foi de 2,3% em 2001. O peso excessivo e a obesida- de revelaram-se significativamente associados com a diabetes, hipertensão, níveis altos de colesterol, asma, artrite e baixo nível de saúde oral. Compara- tivamente com os adultos com peso normal, os adultos com um IMC de 40 ou superior tinham um OR (odds ratio) de 7,37 (IC: 6,39–8,50) para a diabetes diagnosticada, de 6,38 (IC: 5,67–7,17) para a hipertensão, de 1,88 (IC: 1,67–2,13) para níveis altos de colesterol, de 2,72 (IC: 2,38–3,12) para a asma, de 4,41 (IC: 3,91–4,97) para a artrite e de 4,19 (IC: 3,68–4,76) para o nível baixo de saúde oral. Os autores concluíram que a diabetes e a obesidade continuam a aumentar de prevalência nos adultos dos Estados Unidos independentemente do sexo, idade, raça, níveis de educação e de hábitos tabágicos e que a obesidade está fortemente associada com diversos e importantes factores de risco para a saúde205.
A diabetes tipo 2 está frequentemente associada com a obesidade e esta as- sociação manifesta-se claramente nas crianças, as quais, cada vez em maior
introDução | José António Ferreira Lobo Pereira
número, sofrem de obesidade e nas quais a prevalência de diabetes tipo 2
começa a aproximar-se da prevalência de diabetes tipo 1206.
A intolerância à glicose durante a gravidez pode induzir uma diabetes gesta- cional, condição que geralmente se desenvolve durante o terceiro trimestre
da gravidez mas que pode verificar-se mais cedo111. Do mesmo modo que a
diminuição da tolerância à glicose, o aumento da glicose em jejum e a dia- betes tipo 2, também a diabetes gestacional está fortemente associada com
a resistência à insulina87, tendo-se verificado que a prevalência da diabetes
gestacional aumenta nas mulheres que têm mais de 25 anos, são obesas, têm uma história familiar de diabetes e pertencem a grupos étnicos com prevalên- cia em geral alta de diabetes tipo 2 como é o caso, por exemplo, dos negros ou dos índios americanos207.
Colditz e colaboradores publicaram os resultados de uma investigação a que procederam com o objectivo de avaliar o peso como factor de risco para a diabetes em mulheres. Para o efeito, determinaram a relação do IMC com o risco parece diabetes tipo 2, tendo analisado os dados de uma coorte de 113861 mulheres com idades compreendidas entre os 30 e os 35 anos. Nas
mulheres com um IMC médio de 23–23,9 Kg/m2, o risco relativo foi de 3,6 vezes
o verificado nas mulheres com um IMC<22 Kg/m2. Os autores encontraram
ainda uma associação muito mais fraca com o peso corporal verificado aos 18 anos, mas esta associação foi eliminada após ajustamento para o IMC ac- tual, o que permitiu concluir que o peso ganho após os 18 anos foi o principal factor determinante de risco. Para um aumento de 20-35 Kg, o risco relativo foi de 11,3 e, para um aumento superior a 35 Kg, o risco relativo foi de 17,3. Segun- do os autores, pode concluir-se que, para um certo peso médio, as mulheres têm um risco aumentado de diabetes tipo 2 e que a relação entre o IMC e
o risco de diabetes é contínua105. Knowler e colaboradores estudaram a inci-
dência da diabetes nos índios Pima (n=3137), tendo verificado que os valores de incidência estavam fortemente correlacionados com a obesidade prece- dente, aumentando regularmente desde 0,8±0,8 casos/1000 pessoas/ano nos
indivíduos com um IMC≤20 Kg/m2 para 72,2±14,5 casos/1000 pessoas/ano nos
indivíduos com um IMC≥40 Kg/m289.