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Kjennetegn ved utvalget

Naquela noite, de madrugada regressei a casa do meu pai; é a sua vez de me ter durante o fim-de-semana.

Ainda ontem eu tinha a impressão de ser feliz. Dançava, ria, brincava. Adiava o mais possível o momento de ir para casa.

Nada de rapazes na minha vida, nada de amores para nos divertirmos. Saio com as minhas amigas, a fim de evitar as armadilhas da mentira.

Ontem o meu pai disse-me como habitualmente: "Cuidado, tem cautela. Não venhas muito tarde, precisas de dormir." E eu em silêncio: "Vai falando..."

Mas qualquer coisa se passou naquela noite. Não consigo lembrar-me. Com o álcool, tudo balançava à minha volta, já não sabia onde me encontrava. Desta vez exagerei.

Estou abatida ao acordar. Aliás, desde há algum tempo que me sinto muito abatida. Quando me olho ao espelho vejo que estou olheirenta, de pele acinzentada, com um aspecto horrível.

E digo a mim mesma: "Mas que trombas são estas? Minha filha, pára de beber, tens a cabeça vazia, foste à festa, bebeste, e agora olha para a tua linda figura! "

Péssima, a cara da gaivota. A gaivota acha-se um estupor. E no dia seguinte recomeça.

Discuto com a minha irmã lá em casa. Cresceu, a Maria. A nossa última discussão tinha sido por um motivo fútil.

Ela é desarrumada, as coisas dela estão espalhadas por todo o lado no quarto e utilizamos o mesmo armário.

"Arruma as tuas coisas, não deixes tudo espalhado por onde calha."

"Deixa-me em paz."

Se não fazes o que te digo, zango-me e não te falo mais." "Não tenho culpa se o armário está no teu quarto.",

"Pois, justamente! Estás no MEU quarto, arruma isso." "Pára de me chatear. Tenho deveres para fazer."

Puxei-a à força para o quarto, para a obrigar a arrumar as coisas. Ela gritava. Eu já não conseguia controlar-me. Amamo-nos e brigamos. Daquela vez ela não se riu quando eu disse:

"És uma chata."

É como tatitão. "Chata" é tifiti a pronunciar. Custa-me dizer os s e os ch. Mas não é grave.

A minha desarrumação está dentro da minha cabeça, neste momento. É debaixo da cabeleira que está tudo num caos, porque quanto ao resto, arrumo tudo como arrumava as minhas bonecas quando era pequena.

É verdade que a Maria cresceu. Dantes, iria a correr fazer "queixinhas" à mãe. Puxávamos os cabelos uma à outra e eu levava uma descompostura. Agora amua, não diz nada à mãe.

Defende-se sozinha. Como uma menina crescida. E quando amua, deixa de me falar por gestos.

Corrige os meus erros de francês, é a primeira em todas as disciplinas. A Maria, minha irmã pequenina, já tem dez anos de autonomia.

Uma noite estendi-me ao comprido no corredor, acordei a minha madrasta e o meu pai. Teve que me levantar e levar-me para a cama. Sentia-me doente, doente como nunca tinha estado.

O meu pai sentou-se ao pé de mim, na beira da cama, à luz da madrugada. O rosto dele mete-me medo. Sinto vergonha que ele esteja ali a contemplar aquele desastre, que tivesse visto em que estado eu vinha. Tenho vergonha, mas está tudo tão mal na minha cabeça, na minha pele... Digo-lhe:

"Ontem bebi de mais."

"Eu sei. Não precisas de explicar. Já entendi.", Está inquieto.

"O álcool, é suposto pôr-nos alegres, estimular o prazer da dança, da festa. Todo o grupo bebe."

Tento explicar ao meu pai que não é nada de grave.

"É perigoso, muito perigoso. Mau para o cérebro. Mata as células nervosas, percebes? Olha para mim, Emmanuelle. Por que é que fazes isso? Não compreendo."

Nem eu. Julgava que era para me divertir, fazia-me voar, planar, esquecer. Mas esquecer o quê? Até já me esqueci do que queria esquecer. Era-me impossível explicar-lhe como me sentia mal pela simples razão de existir. Talvez eu tivesse vontade que ele tomasse conta de mim, vemo-nos tão pouco. Talvez fosse a necessidade de o provocar. A necessidade dele. Para quê o álcool, para quê os cigarros uns atrás dos outros, dançar toda a noite, rir até romper o dia, para cair como um cepo, embrutecida e acordar com aquele aspecto? Não sei.

"Tens de me dizer porquê, Emmanuelle."

O meu pai é um filósofo, um teórico. Um autêntico psiquiatra. Um pai muito surpreendido perante a gaivota que gerou. Ultrapassado pelo seu voo, desorientado. Gostaria muito de ouvir respostas no género: "Tenho medo do mundo, não amo a vida"; e talvez também: "Sou surda, tenho problemas."

Quando regressámos de Washington resolveu trabalhar com surdos. Não pára de afirmar que não há a "psicologia do surdo" e que há diferenças entre os surdos precisamente como há entre as pessoas que ouvem. A língua é que é especial. Muita gente parte do

princípio de que os surdos não conseguem estabelecer contatos, manter um relacionamento normal com quem ouve.

O meu pai bate-se contra essa ideia. Os surdos são como os ouvintes, há doentes mentais surdos como os há entre as pessoas que ouvem, não é uma particularidade que nos esteja reservada. Os surdos estão bem, muito obrigada. No entanto, talvez de momento ele receie que o meu comportamento actual tenha a ver com a minha surdez. Que me seja difícil adaptar-me ao mundo que me rodeia, que seja por causa disso que me refugio no álcool e na paródia. Mas eu não acho. Não é isso, meu pai.

Não sou a única. A adolescência é terrível para certos jovens. Surdos ou não. Há aqueles que navegam à vontade entre os treze e os dezoito anos, sem problemas, os que se enganam no rumo, os que avançam em frente na tempestade, como eu, os que nunca regressam e aqueles que um dia agarram numa bóia para porem a cabeça fora de água. Tudo isso depende de muitos

parâmetros. A educação, o carácter, o amor, o meio social.

A adolescência é uma alquimia complicada. Procura-se a pedra filosofal, como se ela existisse.

O meu pai bombardeia-me com perguntas: Qual é o problema? Onde estão as frustrações? É por causa do liceu? Estou apaixonada? Por que é que bebo, porquê isto e mais aquilo, porquê tudo?

E eu só tenho uma resposta para aquela avalanche de perguntas: "Não me sinto bem na minha pele. Preciso de ti."

Silêncio mortal. Reflexão. Emoção. Perturbação. Mal-estar.

Visualmente, instintivamente, sinto nele tudo isso. Mas isso não é uma resposta.

"Amanhã levo-te ao médico. Quero saber como vai a tua saúde." "Está bem."

Está bem no que respeita ao médico. Mas continua a não ser uma resposta.

Ele não pode tomar conta de mim. Não sabe. Ou não quer.

É o que penso na altura, friamente. Foi como o abrir de uma nova chaga que vai levar o seu tempo a cicatrizar.

Gaivota, adolescente com problemas. Precisas ainda de crescer, sem o teu pai, de digerir a separação dos teus pais e de fazer o ninho noutro rochedo.

Estas são as reflexões que se fazem mais tarde.

Aos dezassete anos, dói no coração e na pele, mais nada. Uma pessoa considera-se sem graça, coisa nenhuma. De cabeça vazia.

E lá vou ao médico com o meu pai. A propósito, não sei se em França há algum médico surdo. Posso ler-lhe nos lábios, explicar-me por escrito, mas ele põe-se a dizer palavras muito complicadas, a falar de remédios e aí já não compreendo nada.

O meu pai escuta o que ele diz. E traduz-me evidências.

Nada está bem naquela desordem. E eu agora lamento ter procurado sentir-me bem na minha pele. Lamento mesmo. Física e moralmente. Fisicamente sinto-me um trapo, cheia de nódoas negras das quedas que dou quando me embebedo. Moralmente, estou completamente arrasada.

Se o que eu pretendia era ultrapassar os meus próprios limites, já consegui. Não queria encarar a realidade, está feito! Queria fugir dos meus problemas de surdez, da vida social, da vida na escola. Resultado: entre os dezasseis e os dezassete anos, aprendi o quê?

Foi como o estalido de um interruptor, aquela minha última

noite de loucura. De repente digo a mim mesma: "Estou saturada. Farta, farta. Já não aguento, não é possível. Não faço com aquele grupo a refillar, a contestar. Oprimem-nos, fazem-nos zangar; e nós vingamo-nos com festas, é fantástico.", Fantástico? Na realidade, é sempre a mesma coisa, não acontece nada, vamos sempre aos mesmo sítios, estamos sempre juntos, as mesmas caras, a mesma lengalenga. O que é que há ali de construtivo? Beber uma garrafa de whisky, afogar-se nela, pássaro ébrio, sem norte, onde é que isso te conduz?

Gaivota, não tens mesmo nada na tua cabeça.

Precisas de estar à vontade, de te sentires bem. Necessitas encontrar a alegria sem ser nas festas. Precisas de ser independente, procurar uma tarefa, trabalhar para ganhar algum dinheiro. As férias estão a chegar, é a primeira vez que partes sozinha. Põe-te direita!