3.1 Generelle betraktninger
3.1.2 Kjemisk tilstand
É importante que, tal como já foi referido, os/as educadores/as de pares estejam à vontade com a população de consumidores/as que irão acompanhar e tentar ajudar, para que a ajuda possa surgir de forma mais natural e eficaz. Portanto, é crucial perceber qual é o olhar do educador de pares sobre os/as UD uma vez que este já esteve no outro lugar, compreendendo a realidade em que se encontram por já ter passado pela mesma situação.
Neste sentido, o educador de pares começa por se referir tanto aos/às utentes como aos/às técnicos/as afirmando, “nós temos todos dias bons e maus. Eu também os tenho. Eu vejo o lado deles (utentes) e vejo o lado dos técnicos, às vezes os técnicos também estão em dias menos bons e, nem todos os dias correm bem” (Entrevista Educador de Pares). Contudo, acrescenta clarificando:
“Temos de ser (...) compreensíveis com eles, tanto com os técnicos, como com os utentes. Nem sempre as coisas correm como a gente quer e então temos que ser um ombro amigo para eles, para estar ali para o que eles precisam… Às vezes pedem desculpa porque têm máquina da roupa marcada e não trazem a roupa, ou dizem que tiveram a falar com a técnica e esquecem-se da roupa pedindo-me “vê se arranjas aí uma horinha para marcar”. Posso ajudá-los dessa maneira, naquilo que for preciso. (...) Pedidos de prata ou para desenrascar kits não tendo máquinas para trocar, eu estou ali para desenrascar. Ou podem vir até aqui porque querem apenas desabafar e eu estou ali presente com eles para isso, para ouvir e aconselhar. Estou disponível para tudo. Então eles dão-se bem comigo” (Entrevista Educador de Pares).
Como se pode perceber pelo excerto da entrevista do educador de pares, os/as UD sentem-se à vontade para se dirigir a ele para pedir favores, quando não cumprem as regras do espaço, nomeadamente da máquina de lavar roupa. Mostram assim que o educador de pares é uma pessoa disponível e acessível. Sentem-se também confiantes em poder desabafar com o educador de pares, expondo os seus problemas, uma vez que o educador de pares tem sempre uma palavra para lhes dizer, como se pode ver na nota abaixo.
“O Nelo chegou neste dia e estava um bocado triste. A primeira coisa que pergunta é pela Soraia (sua namorada) para saber se ela já tinha ido à metadona. Tanto eu como o Alex dizemos que não, ela ainda não tinha aparecido. O Nelo vai tomar a metadona e diz que volta mais tarde para ver se apanha a Soraia porque está sem bateria no telemóvel. (...) Perto da hora de fechar o espaço o Nelo volta novamente a perguntar pela Sorais, e o Alex diz-lhe com muito espanto que não percebeu o que se passou com ela, mas que ela não tinha vindo a metadona. Aproveitou para perguntar ao Nelo se tinha acontecido alguma coisa ao que ele responde “sim nós estamos chateados, tivemos a discutir não falo com ela desde ontem a noite e pensava que a
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ía encontrar aqui”. O Alex perguntou se era alguma coisa relacionada com os consumos (porque a Soraia queria que o Nelo deixasse definitivamente a droga) mas o Nelo disse que não. Eram problemas de namorados, de casais. O Alex esteve mais um bocado a falar com ele, a incentivá-lo a ficar animado e para esperar pelo dia seguinte para poder estar com ela e falar porque de certeza que se iam entender” (Nota de Terreno 12/05/2015).
Turner & Shepherd (1999) a este propósito afirmam que a educação de pares tem um importante papel na abordagem de diversas temáticas sensíveis e mais íntimas, que envolvem emoções e valores pessoais/culturais, como é o caso da sexualidade e consumo/abuso de substâncias psicoativas.
Havendo empatia, os/as UD sentem que podem confiar no educador de pares, e dão-se bem com ele. Claro que esta empatia é bilateral, sendo por parte do educador de pares para com os/as utentes e vice versa, não havendo distinção por parte do educador de pares sobre os/as utentes no que diz respeito à amizade, e à forma de olhar os/as utentes:
“eu é assim, eu brinco e o caraças mas se algum se portar mal eu posso castigá-lo. Posso dizer: “olha não vais fazer isto porque não vieste”. Mas se falarem com educação, já lhes digo “pronto está bem”. É assim, não devemos ter mais amizades a uns do que a outros, tenho que ser igual para todos” (Entrevista Educador de Pares).
Sendo o educador de pares a figura mais presente para os/as UD, porque passa o dia com eles na sala de convívio, consegue-se perceber a proximidade sem distinção. “A principal preocupação dos Educadores de Pares é “chegar” aos UD: estabelecer relações de profundidade com os UD e aceder a informação privilegiada para mais facilmente promoverem sua mudança” (Marques, Mora & Santos, 2012, p.50).
Este facto da preocupação e amizade pelos/as utentes percepciona-se muito bem aquando duma saída de rua do/a investigador/a com o educador de pares:
“Saímos para a rua, passamos por São Bento e descemos até à Rua Escura, ainda era cedo hoje, mas contudo não estava ninguém na rua e achamos estranho. Passado um pouco vem um consumidor a descer que nos diz que a polícia estava ali a fazer rusga e que por isso não estava ali ninguém. Estava tudo lá em cima com a polícia, a serem revistados e a serem apanhados. O Alex ficou logo preocupado com a polícia ali e vira-se para mim e para o senhor que lá estava dizendo, “porque apanham sempre os pequenos e nunca vão ter com os traficantes, que esses sim são os importantes de apanhar, não os desgraçados dos consumidores, que estão a ressacar e que mal têm droga para consumir”. Ficamos ali parados algum tempo até que começaram a descer alguns consumidores, estava tudo bem, tinham sido revistados mas não lhes tinham tirado nada. Disseram que havia apenas um que ia preso. Pediram kit´s e pediram maioritariamente papel de estanho para poderem
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preparar os canecos. O Alex ia perguntando aos consumidores com quem tinha mais confiança se eles estavam bem se a polícia lhes tinha feito algo de mal, porque ficou logo preocupado e disse-me “eu também já andei nesta vida, bem sei como são complicados estes momentos”. Nota-se na sua cara que não gostou de saber o que tinha acontecido e que tinha ficado preocupado com a situação dos consumidores” (Nota de Terreno 11/12/2014).
Wye (2006) posiciona-se neste sentido afirmando que
“[a] educação de pares é antes de tudo sobre os utilizadores de drogas, o falar uns com os outros como iguais, é a empatia, a partilha de informações e a oferta de encorajamento – capacitando – de modo a que os consumidores de drogas possam construir as suas próprias ideias sobre a melhor forma de gerir a sua saúde e bem- estar” (p.19).
Claro que, como em todos os contextos, existem alguns constrangimentos inesperados, que faz com que os/as utentes ao invés de encararem o educador de pares como um amigo, passa a assumir um papel mais rígido.
“O Toni entra, mais uma vez não trás o seu copo de ter tomado a metadona para poder tomar o café, e o educador de pares dá-lhe na cabeça porque não se pode deitar assim os copos fora sempre que lhes apetece. Ele toma o café que lhe dou num outro copo e quer ir embora. Vai dizendo “estou farto desta merda, destes Doutores daqui que não ajudam nada, só nos fazem mal”. O trabalho do Alex torna-se mais “agressivo” quando os utentes falham com as regras, porque ele é obrigado a ser mais duro com eles nas conversas para os chamar à razão” (Nota de Terreno 04/12/2014).
Tendo em conta a observação e citações das entrevistas apresentadas, percebe-se que o educador de pares tem sobre os/as UD um olhar de igualdade, de amizade, de ajuda, só se colocando num papel mais rígido quando os/as utentes infringem regras do EP ou ultrapassam as normas da boa educação.
Os “bons” educadores de pares devem sugerir, oferecer, recomendar, fornecer informação e material mas falando do seu ponto de vista de uma maneira holística, sem julgar, juntando e pesando os custos e benefícios, enquanto consideram os valores, experiências, as circunstâncias e os objetivos dos pares com quem trabalham (Wye, 2006).
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