Devemos recordar nesse momento que nem todas as deidades que aparecem nos mitos eram cultuadas pelos escandinavos, além de nos lembrarmos de que nos termos mitologia e costumes está implicada uma profunda diferença, sendo o primeiro apenas relatos sobre antigos deuses com compreensões sociais e cósmicas, entre outras. Os costumes, por sua vez, trazem em sua compreensão os ritos e práticas que aproximavam os homens escandinavos de seus deuses, atos que permitiam a troca entre homens e deuses, sendo os primeiros responsáveis por presentear as deidades com rituais como os sacrificais enquanto essas retribuíam aos homens com boas colheitas, longas vidas e vitórias em guerras, entre outras dádivas.
Na tentativa de resgatar as divindades que eram cultuadas durante os sacrifícios poderíamos utilizar as fontes escritas. Contudo, levando em consideração as problemáticas já apresentadas e seguindo outros estudos sobre a Escandinávia do período de prática dos antigos costumes nórdicos, optamos por fontes como a toponímia. Os topônimos já foram utilizados no século XIX por professores de arqueologia como Oluf Rygh, que lecionou em Oslo; eles iriam, porém, começar a alcançar forte potencial apenas em 1994.
O estudo dos topônimos parte da observação dos mais diversos nomes dados às regiões territoriais escandinavas e pressupõe, entre outras coisas, a possibilidade de observação da distribuição dos cultos dos mais diversos deuses do período dos antigos costumes nórdicos.
As primeiras problemáticas dessas fontes provêm do fato de que elas não apresentam uma narrativa histórica completa. Os topônimos fornecem aos estudos apenas conclusões pontuais. Todavia, com a possibilidade de transformar os nomes das regiões em uma massa
material indicativa do que poderia se tornar um recurso para compreensões sociais, culturais e históricas, eles não podem ser menosprezados.
Os historiadores estão trabalhando numa tentativa de agrupamento dos diversos nomes de cada região para demonstrar, entre outras coisas, o fato de um deus em específico ter seu nome mais vinculado em determinadas regiões da Escandinávia do que em outras. Nessa perspectiva, de certa forma matemática, os nomes se tornariam narrativas que teriam a força de apontar para histórias diferentes em regiões diferentes, demonstrando assim a existência de uma pluralidade cultual nas diversas partes da península escandinava (SCHJØDT, 2009, p. 9-22).
Essa nova forma de se fazer História não teria mais como ponto de partida as falas e ações dos seres humanos, a História seria feita pela nomenclatura dada à terra. Contudo, para fazermos essas nomenclaturas se transformarem em fonte, de maneira que possamos relacionar seus apontamentos com os relatos históricos, devemos buscar a datação do período em que esses territórios foram nomeados.
A datação dos topônimos foi uma problemática discutida por 200 anos. mas atualmente os historiadores já conseguiram estabelecer melhores parâmetros para essa discussão. Um importante parâmetro é a comparação de nomes da península escandinava com nomes dados pelos escandinavos às regiões que colonizaram durante o Período Viking, como as atuais ilhas da Escócia, Irlanda, Islândia, Inglaterra, Shetland e Orkney. Dentro desses parâmetros podemos, por exemplo, estabelecer alguns termos, como –by, que aparece muito
nas regiões colonizadas pelos dinamarqueses e também no próprio território dinamarquês, portanto apontando essa utilização terminológica como própria do tempo viking e do período de prática dos antigos costumes nórdicos.
Os termos que logo nos determinam uma atividade cultual são Al-, Sal-, Vi-, Hargh-,
Hof-, -Vé e -Horg, todos advindos de expressões linguísticas que determinam os salões cultuais presentes no mundo escandinavo. Todavia, algumas outras expressões como Fjall- e
Borg- (montanhas e colinas), Lundr- (bosques), Vangr- e Akr- (terras férteis), Eke- (bosque de carvalhos), Ey- (ilhas), Sjór- e Sær- (lagos) e Á- (rios) também apresentam nomes de divindades, nos remetendo aos rituais que ocorriam em espaços naturais (BAGGE; NORDEIDE, 2007, p. 3.338-3.358; DAVIDSON, 2003, p. 54-63; GELTING, 2007, p. 1.862- 1.870; GRÄSLUND, 2007, p. 253; LINDOW, 2002, p. 36-38; HULTGARD, 2007, p. 216- 217). Podemos datar algumas destas denominações como próprias do Período Viking, ao acompanhar nomes de algumas regiões como Hofstathir, região da Islândia que apresenta o
termo Hof-, localizada em uma área colonizada por homens oriundos da atual Noruega durante o Período Viking, mais precisamente a partir de 871 d.C.
Esses são apenas os problemas verificados na tentativa de delimitar os locais e o período desses cultos, porém ainda não estão claras quais são as divindades cultuadas nesses locais. Na tentativa de delimitar as divindades encontramos outros problemas como o fato de serem esses topônimos recordados por obras compiladas durante a Idade Média, período no qual os nomes dados às divindades poderiam variar. Assim sendo, alguns locais dedicados ao culto do deus Thor não teria em sua grafia apenas o prefixo ou sufixo Tor podendo contar também com formas como Tot. Outros problemas também acompanham as nomenclaturas dos deuses, como no caso de Thor que teve seu culto muito difundido entre os escandinavos do Período Viking. Sendo assim, o nome do deus acabou sendo comum em nomes de pessoas, e por vezes pode estar presente em alguma toponímia sem estar necessariamente vinculado à presença de seu culto e sim ao nome do chefe local ou do patriarca de determinada família. Ao levar em conta essa problemática os historiadores acabam por considerar Torseke (bosque de carvalho de Thor) como local de culto102, no entanto necessitam-se maiores informações sobre lugares como Torstad (região de Thor) no momento de atribuir o local como cultual. Além de Thor, a deusa Freyja também apresenta algumas problemáticas quando se tenta identificá-la nos topônimos, uma vez que o nome de Freyja pode aparecer também como frøy (que significa bom crescimento), podendo então se referir a uma terra fértil e não especificamente a um culto à deusa (ABRAM, 2011, p. 913-986; BRINK, 2007, p. 57-66).
Por fim, podemos dizer que encontramos nos topônimos nomes de deuses como Odin (Odense, Onsberga, Onsbjerg, Odensvi, Ódinsoy), Thor (Þórslande, Þórshov), Njördr (Nærdhæwi, Njærdhavi, Nærdhælunda, Nierdhatunum), Freyr (Freysakr, Freyshof, Freysland, Freyslíð), Freyja ( Frøihov, Frövi, Freyjuvé), Frigg (Friggeråker) e Týr (Tyrseng, Tiveden),
além de contar com nomes de outros deuses como Ullinn (Ullinshof) e Forseti (Forsetlund), sobre os quais poucas informações nos chegaram pelas fontes literárias. Tudo o que sabemos sobre Ullinn é que se trata de um deus da caça e sobre Forseti é que se trata de um deus das leis e da justiça. Deuses como Baldr contam com quatro topônimos (Balleshol, Balldrshole, Baldrsberg, Baldrsheimr), dois presentes na Dinamarca e dois na Noruega, mas estudiosos, como Stefan Brink, dizem que o apontamento do deus é pontual e inconclusivo. Contudo, alguns deuses como Loki, Heimdallr, Bragi, Gefjon e Idun, os quais nos aparecem melhor nas fontes textuais do que deuses como Ullinn, não constam nos topônimos, demonstrando assim
102A árvore de carvalho era considerada sagrada no culto do deus Thor e existiam na prática da antiga religião nórdica muitos bosques de carvalho dedicados ao deus que carregava Mjöllnir.
que nem todos os deuses que conhecemos foram cultuados durante o período de prática da antiga fé nórdica (BRINK, 2007b, p. 105-136).
Os nomes desses deuses também nos auxiliam na compreensão de uma pluralidade cultual. Podemos observar nomes como o do deus Týr, presente mais ao sul da atual Dinamarca, o nome de Odin, mais presente na atual Dinamarca do que na atual Noruega, e os nomes de Thor e Freyr com grande presença nos atuais territórios noruegueses e suecos. Por último, verificamos que topônimos derivados dos deuses Balder e Forseti são escassos, tendo o primeiro apenas quatro ocorrências que apontam seu culto, duas na Noruega e duas na Dinamarca, enquanto que para o segundo deus há apenas um topônimo, na Noruega.
Os topônimos nos indicam então que os cultos, durante o período de prática dos antigos costumes nórdicos, eram dedicados a apenas alguns deuses, os quais figuram nas fontes históricas. Eles também nos possibilitam identificar um pouco da pluralidade que havia nos costumes dos povos escandinavos pré-cristãos, que tinham o culto aos seus deuses distribuídos por todo o território da atual Escandinávia, onde, em diferentes centros, determinadas divindades eram mais recorrentes do que outras. Assim, fontes como os topônimos nos apontam novos caminhos que permitem o estudo da cultura escandinava pré-cristã, lembrando-nos sempre de que o historiador, nos dias de hoje, deve estar conectado não apenas com as fontes textuais, mas também refletir sobre as diversas possibilidades de apontamentos que permitam uma averiguação mais acurada sobre os mais antigos povos e os mais antigos costumes.