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O trabalho de análise e pesquisa empreendido nesta Dissertação é realizado com base na teoria conceitual da Análise do Discurso de filiação francesa (doravante AD). Apresento os conceitos utilizados no decorrer do trabalho, acrescidos da reflexão acerca do processo de constituição histórica da teoria utilizada na pesquisa, visto que a história não é cabível de ser ignorada, já que ela constitui o discurso, a língua (FERREIRA, 2000) e, dessa forma, se observa a importância da retomada da constituição histórica da teoria. A realização desta pesquisa exigiu a retomada de autores e pesquisas da AD, a abordagem do desenvolvimento histórico da teoria científica e os conceitos utilizados nessa Dissertação para refletir acerca do corpus selecionado.

O período de surgimento da AD é complexo, tendo seu início no final da década de 1960, período histórico marcado por mudanças e transformações mundiais no campo científico, político e social. As transformações no campo das Ciências Sociais foram influenciadas pelos movimentos dos campos político e social, sendo maio de 1968 o auge dessa década transformadora (SILVEIRA, 2006). Esse evento foi um momento político importante na história francesa, e do mundo ocidental; nele, tivemos estudantes de universidades francesas, entre elas a Sorbonne, protestando contra uma série de questões, como as diretrizes políticas do país e um sistema educacional fechado e rígido, as manifestações foram reprimidas com violência pelo presidente da época, o General Charles De Gaulle.

A década de 1960 é marcada como o auge do período Estruturalista na França, nela residiam as bases de reflexão de uma grande parcela dos intelectuais desse período histórico; a consequência disso foi o apagamento do sujeito desses estudos, pois o importante era “normatizar o sujeito, já que era visto como o elemento suscetível de perturbar a análise do objeto científico, que deveria corresponder a uma língua objetivada, padronizada” (FERREIRA, 2010, p. 19), eliminando o que pudesse desestabilizar as certezas, os padrões, assegurando uma (falsa) sensação de estabilidade. O sujeito estraçalha o ideal de pretensa neutralidade que permeia o fazer científico.

Importante destacar a trajetória de Michel Pêcheux, pesquisador que nasceu em 1938 na cidade francesa de Tours, vindo a falecer em Paris no ano de 1983, tendo trabalhado como cientista do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Pêcheux foi o fundador da teoria da Análise do Discurso de linha francesa “que teoriza

como a linguagem é materializada na ideologia e como esta se manifesta na linguagem” (ORLANDI, 2005, p. 10), uma teoria inovadora e subversiva (PÊCHEUX, 2006), principalmente se considerarmos seu período de florescimento, marcado como emblemático pela intelectualidade francesa.

Pêcheux integra uma geração nomeada como althusseriano-lacaniana, que se constituía “em torno do sistema de pensamento dos dois grandes mestres” (FERREIRA, 2008, p. 136), no caso Jacques Lacan e Louis Althusser. É possível destacar que Pêcheux foi “um filósofo interessado por máquinas, dispositivos e aparelhos, e de todos os que lhe eram próximos” (FERREIRA, 2008, p. 137), e isso tornou mais forte a possibilidade de colaboração que o pensador francês teve na construção desta pesquisa, que apresenta corpus e discussões relacionadas com materialidades provenientes do ciberespaço. Pêcheux elaborou uma disciplina/teoria antipositivista e antiformalista. Trata-se de uma estrutura teórica fundamentada em três áreas do conhecimento: a Linguística, o Marxismo, com seu materialismo histórico e a Psicanálise, estruturando- se nos estudos dos respectivos mestres, Ferdinand de Saussure, Karl Marx e Sigmund Freud, da (re)articulação entre os conceitos de tais pensadores ocorreu o aparecimento de novos conceitos e possibilidades de pesquisa. De acordo com Maldidier (2003), é com a publicação em 1969 de “Análise Automática do Discurso”, de Pêcheux, que temos a reflexão inicial do discurso.

Com a filiação à teoria marxista, Pêcheux obteve ‘força’ para se deslocar dos laços das ideias formalistas e positivistas que algumas vezes o ‘atavam’. É com a aproximação das ideias/reflexões de Louis Althusser que Pêcheux consegue iniciar um trabalho de pensar as formas de estruturação da teoria da AD. Importante destacar que Pêcheux mantinha certa independência teórico reflexiva de Althusser. Pêcheux leva em conta as condições de produção do discurso e a história para pensar o sujeito e o discurso. Temos, ainda, a marca que o sujeito não apresenta relações que são ‘representações’, mas experiências vivenciadas, cotidianas, históricas (ZANDWAIS, 2009). De acordo com Gregolin (2004), as postulações teóricas de Althusser foram retomadas por Pêcheux para pensar alguns conceitos, entre eles, a própria noção de sujeito.

A afirmação de que Michel Pêcheux mudou o pensamento sobre a linguagem não é um exagero (ORLANDI, 2011a), teórico que, nas palavras de Scherer e Taschetto (2005), tomando por base as considerações de Denise Maldidier, era “um operário

incansável” (SCHERER; TASCHETTO, 2005, p. 120). Seus escritos permitiram uma alteração profunda da relação da Linguística com o campo das Ciências Humanas e Sociais na França do século XX. Foram as contribuições de Pêcheux que permitiram que essas Ciências observassem a linguagem não mais de forma indiferente. Em seu começo, a AD foi usada “como verdadeiro ‘Cavalo de Tróia’ a tumultuar, especialmente, o campo das Ciências Sociais da época, consideradas positivistas” (FERREIRA, 2008, p. 142).

No Brasil, as pesquisas acerca da AD cresceram muito. Os estudos envolvendo os ensinamentos de Michel Pêcheux encontraram um terreno fértil para suas realizações, mesmo após tantos anos de sua morte, sendo possível afirmar que “Michel Pêcheux, no Brasil, não ficou sozinho com seus problemas” (DIAS, 2005, p. 117). No Brasil, é cultuada e fomentada “a herança que recebemos da França” (FERREIRA, 2008, p. 140), as referências são preservadas, mas é mantida uma independência nas pesquisas e desenvolvimentos conceituais. Em solo brasileiro, a AD permaneceu efervescente. Os analistas do discurso brasileiros estão interessados não em um culto desenfreado a deuses mortos, mas a realização do desenvolvimento e fomento da teoria no país, de forma a ser pensada para satisfazer a busca de resultados (FERREIRA, 2008), ainda mais, em outro país e contexto distintos dos quais Michel Pêcheux desenvolveu sua teoria. Não se trata do recebimento de um autor e de suas ideias, mas do estabelecimento de uma relação com sua obra em diálogo com as tradições e questões de pesquisa dos brasileiros (ORLANDI, 2011a), como bem estabelece Ferreira (2008, p. 138):

O Brasil é, então, hoje, pode-se dizer, a atual morada da Análise do Discurso da vertente francesa. Um fato curioso e que ilustra bem o que venho tentando traçar como panorama atual da Análise do Discurso na França é o comentário que me fizeram, quando eu disse lá na França que trabalhava na linha de Michel Pêcheux. Uma colega, então, me pergunta: ‘então, ele sobrevive no Brasil?’. Ao que respondi: ‘não, ele não sobrevive, ele vive’. E vive e continua teoricamente uma referência forte, graças ao trabalho consistente dos analistas brasileiros, à solidez do material conceptual, que continua sendo acionado nas análises, e à renovação metodológica encontrada para fazer frente aos novos discursos.

Diante de tais considerações, não chega a ser surpreendente quando analistas do discurso concluem que trabalhar com os textos de Pêcheux é sempre algo interessante, já que a cada (nova) leitura de seus escritos temos (novos) sentidos em jogo; isso tem

um efeito complexo em quem empreende estudos nos textos deste autor: ao mesmo tempo em que fascina, também provoca incerteza e incômodo (SILVEIRA, 2006).

Trabalhar com a AD é atuar com uma teoria que observa os deslizamentos, a falta e a incompletude como parte do processo discursivo, uma disciplina em permanente experimentação e (re)construção, portanto, é complicado “ficar indiferente à Análise do Discurso: ela perturba, desinstala, desacomoda, inquieta” (FERREIRA, 2008, p. 142), sendo trabalho do analista do discurso atuar desfazendo as pretensas ‘evidências’ que marcam a linguagem. A maneira com que a AD trabalha com a linguagem é revolucionária, ficando “bem distante do aspecto meramente formal e categorizador a ela atribuído por uma visão estruturalista mais redutora em sua origem” (FERREIRA, 2010, p. 19).

Na ordem da linguagem, as relações de mediação entre os sujeitos e a realidade natural e social são suscetíveis a tensões e conflitos, já que enunciar é uma prática política. Dessa forma

[...] tomar a palavra é um ato social com todas as suas implicações: conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidade, etc [...] pois todo falante ocupa um lugar na sociedade, e isso faz parte da significação (ORLANDI, 1988, p. 17).

Ressaltam-se os embates promovidos pelas disputas por espaços de dizer, mecanismo este que rege o discurso. A AD não concebe a linguagem como estrutura perfeita, em que as relações são tranquilas, Pêcheux reforça essa ideia, ao entender que a linguagem não é transparente (MITTMANN, 2010). Durante muito tempo a crença existente era de que a língua, assim como a linguagem, era um instrumento perfeito, sem falhas, sendo que ela refletiria a realidade, de forma direta, sem considerar, por exemplo, que a polissemia constitui a linguagem (MITTMANN, 2008).

É desafiador pensar a linguagem como um espaço em que a ambiguidade e o equívoco estão presentes, são constitutivos, os deslizamentos do sentido integram-na (DIAS, 2005). Desse modo, é significante pensar que em uma tentativa desesperada de garantir a segurança no campo da linguagem é que se deseja/procura colar as palavras às coisas e aos sentidos (LAGAZZI-RODRIGUES; BRITO, 2001). Pode-se entender a linguagem como um sistema repleto de ambiguidades, sendo o discurso um espaço em que ocorre tal relação, por meio da “linguagem que o sujeito se constitui e é também pela linguagem que ele elabora sua relação com o grupo” (ORLANDI, 2006a, p. 25).

Para a teoria da AD, a língua está sempre em movimento, e nela sempre temos a falta, escapando de uma reflexão na qual a informação é transmitida de forma direta; já que a língua é afetada pelo ideológico e político (FERRAREZI, 2012), ela pode ser entendida “como território profundo, jardim sem limites” (SCHERER, 2007, p. 351). Existe uma sensação de que a palavra pode colocar ordem a um universo (naturalmente) de/em caos, fragmentado, disperso, diverso, ideia que é ilusória. A unificação desejada é uma ambição aspirada, ignorando-se as diferenças que constituem nossa sociedade, mesmo com as permanentes demonstrações de sua constante multiplicidade exposta (ERNST-PEREIRA, 2005).

Como o político que integra todo discurso, ele está na linguagem. Orlandi arremata essa questão com um exemplo: “quando a classe média bloqueia ruas para as festinhas de seus filhos é ecologismo, está protegendo o espaço de circulação; quando é o pobre é vandalismo, é coisa marginal, é desordem, impede o trânsito. Quem decide esses sentidos? O político” (ORLANDI, 2001a, p. 30).

A AD tem uma importância como instrumento e método de análise da linguagem, ela “não trabalha com a linguagem enquanto dado, mas como fato. Ela tem sua origem ligada ao político” (ORLANDI, 2008, p. 31, grifo do autor). Partindo dessa compreensão, acredito ser adequado o detalhamento do bojo teórico que mobilizo para pensar e analisar os recortes desta pesquisa. Importante destacar nessa primeira parte do trabalho, a questão histórica da AD e essa concepção da língua e da linguagem como lugares nos quais a transparência não é possível.