As evidências que apoiam a interpretação da capacidade musical como uma inteligência chegam de várias fontes. Gardner (2012) menciona que a música desempenhou um importante papel unificador nas sociedades paleolíticas da Idade da Pedra e que o canto dos pássaros proporciona um vínculo com outras espécies. Nesse contexto:
Evidências de várias culturas apoiam a noção de que a música é uma faculdade universal. Os estudos sobre o desenvolvimento dos bebês sugerem que existe uma capacidade computacional „pura‟ no início da infância. (...) a notação musical oferece um sistema simbólico acessível e lúcido. (GARDNER, 2012, p.23)
Embora a capacidade musical não esteja claramente localizada em uma área tão específica como a linguagem, certas partes do cérebro como os lobos temporais, desempenham papéis importantes na percepção e produção da música. Gardner (2002) comenta sobre um desdobramento fascinante recentemente revelado: na maioria dos testes com indivíduos sem danos cerebrais, as habilidades musicais mostram ser lateralizadas para o hemisfério cerebral direito, mas afirma também que alguns músicos apresentaram dificuldades na capacidade de perceber e criticar desempenhos musicais após danos ao lobo temporal esquerdo. Estudos sobre prodígios e savants indicam que essa inteligência é autônoma em relação a outras capacidades: “ela pode manifestar-se num alto nível em uma pessoa cujas outras capacidades são médias ou mesmo deficientes” (MILLER, 1989; TREFFERT, 1989 citado por GARDNER et al., 1998).
Esta inteligência inclui a capacidade de perceber, discriminar, transformar e expressar formas musicais além de sensibilidade ao ritmo, tom ou melodia, e timbre de uma peça musical (ARMSTRONG, 2001). Manifesta-se claramente em
compositores, maestros e instrumentistas, assim como em peritos em acústica e engenheiros de áudio. Antunes (2010) destaca que o Brasil, sendo um país muito sonoro, abriga exemplos notáveis como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Pixinguinha, Cartola e vários outros e lamenta que o país não valorize, como, por exemplo, a Áustria, a Hungria ou o Japão, a alfabetização musical.
2.2.3.5 A Inteligência Corporal-Cinestésica
A evolução dos movimentos especializados do corpo é uma vantagem óbvia para as espécies, e nos seres humanos esta adaptação é ampliada através do uso de ferramentas e não há dúvida de sua universalidade entre as culturas, critérios que credenciam o “conhecimento” corporal-cinestésico a uma inteligência (GARDNER, 2012).
O uso hábil do corpo foi importante na história da espécie humana durante milhares, quando não milhões, de anos. Ao mencionar o uso perito do corpo:
(...) é natural que pensemos nos gregos, e há um sentido no qual esta forma de inteligência atingiu seu apogeu no Ocidente durante a era Clássica. Os gregos reverenciaram a beleza da forma humana e, através de suas atividades artísticas e atléticas, buscaram desenvolver um corpo que fosse perfeitamente proporcionado e gracioso em movimento, equilíbrio e tonicidade (GARDNER, 2002, p.161)
Gardner (2002) comenta sobre a fragmentação radical em nossa tradição cultural recente entre as atividades do raciocínio, por um lado, e as atividades da parte manifestamente física da nossa natureza, conforme epitomizada por nossos corpos, por outro. Terman (1921, p. 124) citado por Gardner et al. (1998) via como “perturbado” qualquer um que pensasse que uma pessoa capaz de “manejar ferramentas habilmente, ou jogar bem beisebol” era tão inteligente quanto alguém “capaz de resolver equações matemáticas...” A máxima mens sana in corpore sano, que com tanta insistência hoje se propaga, é, para a cultura contemporânea, muito mais um slogan do que a meta atividade perseguida pelos gregos (ANTUNES, 2010, p. 50). Vale salientar que psicólogos, em anos recentes discerniram e enfatizaram uma íntima ligação entre o uso do corpo e o desenvolvimento de outros poderes cognitivos (BESSA, 2008).
A capacidade de utilizar o próprio corpo de maneira altamente diferenciada e hábil para propósitos expressivos que, em última análise, representam solução de problemas e/ou criação de produtos aponta como a característica essencial da inteligência corporal-cinestésica. Gardner et al. (1998) especula que o desenvolvimento dessa inteligência avança de reflexos iniciais, como sugar, para atividades cada vez mais intencionais, para a capacidade de imitar e criar, usando o movimento.
Os fundamentos biológicos dessa inteligência são complexos. Eles incluem coordenação entre sistemas neurais, musculares e perceptuais (GARDNER, 2002). O controle do movimento corporal está, evidentemente, localizado no córtex motor, com cada hemisfério dominante ou controlador dos movimentos corporais no lado contra-lateral.
Esta inteligência inclui habilidades físicas específicas, tais como coordenação, equilíbrio, destreza, força, flexibilidade e velocidade, assim como capacidades proprioceptivas, táteis e hápticas. É atribuída à expressão de ideias e sentimentos através do uso do corpo como no caso de atores, mímicos, atletas de todos os gêneros, dançarinos e alpinistas, e na facilidade no uso das mãos para produzir ou transformar coisas como os artesãos, escultores, mecânicos e cirurgiões.
2.2.3.6 A Inteligência Interpessoal
A Inteligência Interpessoal emprega capacidades centrais para reconhecer e fazer distinções entre os sentimentos, as crenças e as intenções dos outros; particularmente, contrastes em seus estados de ânimo, suas motivações e seu temperamento (GARDNER, 2012). Incluem-se no conhecimento interpessoal, a sensibilidade a expressões faciais, voz e gestos; a capacidade de discriminar muitos tipos diferentes de sinais interpessoais e a capacidade de responder efetivamente a estes sinais de uma maneira pragmática (ARMSTRONG, 2001). Gardner (2002) relata que, analisada em sua forma mais elementar, a inteligência interpessoal acarreta a capacidade da criança pequena de discriminar entre os indivíduos ao seu redor e detectar seus vários humores. Em níveis mais profundos, essa inteligência permite que adultos e adolescentes identifiquem intenções, simulações e desejos em outras pessoas, mesmo que elas não os tornem muito explícitos.
O funcionamento das inteligências pessoais (intra e interpessoal) está ligado aos lobos frontais do cérebro. Se essa área sofre um dano, a motivação e as respostas do indivíduo podem ficar prejudicadas, mesmo que a capacidade de desempenho num teste de QI continue inalterada (HEBB, 1949).
Vemos formas altamente desenvolvidas de inteligência interpessoal em líderes religiosos, em políticos carismáticos, em professores, em certos tipos de escritores, negociadores, vendedores, em alguns pais que deixam nos filhos marcas profundas, que ultrapassam seu tempo entre eles e em indivíduos envolvidos em profissões de ajuda, sejam eles terapeutas, conselheiros ou xamãs (ARMSTRONG, 2001).