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De maneira geral, o corpo discente da Escola Normal de Ouro Preto na década de 1880, assim como o da década anterior, é bem visto socialmente, sendo os normalistas da instituição constantemente elogiados publicamente, através dos jornais do período, por exemplo82. Os estudantes são aclamados, também, pelos próprios professores da instituição.

A esse respeito, escrevendo sobre os alunos dos primeiros, segundos e terceiros anos da Escola Normal, o diretor Agostinho Marino N. Perrido, em carta endereçada ao inspetor de ensino Thomaz da Silva Brandão, datada de 6 de agosto de 1887, afirma: “É uma plêiade de normalistas distinctos e inteligentes, assim dediquem-se todos ao magistério público que muito terá a lucrar com isso a causa da Instrucção Pública n’esta Província” (APM, IP1/3 – Cx 20, doc. 28, 1887).

No que tange à quantidade de alunos inscritos na instituição nos anos 1880, o número de matrículas, embora não muito expressivo no início da década, foi aumentando com o tempo. Assim, muitos estudantes, sobretudo as mulheres, concluíram o curso e passaram a atuar na profissão. Contudo, a evasão escolar também foi significativa no período. Segundo informações de alguns dos relatórios dos presidentes da província na Assembleia Legislativa, nesse recorte, muitos dos estudantes que se matriculavam não eram assíduos nas aulas83.

Em consulta ao acervo do Arquivo Público Mineiro, foi possível localizar os livros de matrícula dos alunos dos primeiros e segundos anos da Escola entre os anos de 1880 a 1887. Como exposto anteriormente neste capítulo, com o regulamento nº 100 de 1883, os cursos normais passaram a ter duração de 3 anos. Assim, a partir do ano de 1884, também constam nos livros os registros de matrículas dos estudantes dos terceiros anos da instituição. Nas três tabelas a seguir, estão expostos o número de alunos matriculados em cada ano (no período de 1880 a 1887) e a divisão por sexo desses normalistas.

82 No próximo tópico serão apresentadas algumas das notícias de jornais que tecem elogios aos alunos da Escola

Normal de Ouro Preto na década de 1880.

83 Dados coletados dos relatórios dos presidentes na Assembleia Legislativa Provincial nos anos de 1881, 1883,

TABELA 3:

Alunos matriculados no 1º ano da Escola Normal de Ouro Preto na década de 1880

Ano: 1880 1881 1882 1883 1884 1885 1886 1887

Homens: 7 9 10 7 5 3 13 18

Mulheres: 9 2 20 23 21 34 49 30

Total: 16 11 30 30 26 37 62 48

Fonte: Arquivo Público Mineiro, IP -123/ IP – 133.

TABELA 4:

Alunos matriculados no 2º ano da Escola Normal de Ouro Preto na década de 1880

Ano: 1880 188184 1882 1883 1884 1885 1886 1887

Homens: 0 --- 5 0 0 1 1 0

Mulheres: 10 --- 3 5 10 6 11 12

Total: 10 --- 8 5 10 7 12 12

Fonte: Arquivo Público Mineiro, IP -123/ IP – 133.

TABELA 5:

Alunos matriculados no 3º ano da Escola Normal de Ouro Preto na década de 1880

Ano: 1884 1885 1886 1887

Homens: 0 0 1 2

Mulheres: 4 7 6 7

Total: 4 7 7 9

Fonte: Arquivo Público Mineiro, IP – 133.

Pela leitura da tabela 3, é possível observar que o número de mulheres matriculadas na instituição ao longo do recorte foi sempre superior ao de homens, excetuando-se o ano de 1882, quando ingressaram 9 homens e apenas duas mulheres. Constata-se, também, que a quantidade de estudantes aumentou no decorrer da década. Se no ano de 1880 matricularam- se apenas 16 alunos, em 1886 esse contingente ampliou-se para 62.

Nos registros das inscrições nos segundos anos da instituição, ilustrados na tabela 4, verifica-se que a presença feminina continua sendo maior que a masculina nas turmas. Nas matrículas dos anos de 1880, 1883, 1884 e 1887, não consta nenhum aluno do sexo masculino ingressando no 2º ano da Escola. Pela tabela é possível notar, ainda, que o contingente de estudantes é menor, se comparado ao dos primeiros anos, sinalizando que, possivelmente, muitos dos que iniciavam o curso não davam continuidade a ele.

Já nos registros de matrícula dos alunos dos terceiros anos, apresentados na tabela 5, o número total de normalistas é ainda menor. Dos quatro anos analisados, contata-se que apenas 27 alunos iniciaram a última etapa do curso. E destes, somente 3 eram do sexo masculino. Por outro lado, percebe-se que a quantidade de estudantes ingressantes nos terceiros anos aumentou com o passar do tempo. Se em 1884 matricularam-se apenas 4, em 1887 o número passou para 9.

Apesar de não contemplar todo o universo de alunos da Escola Normal de Ouro Preto, as tabelas sinalizam algumas informações relevantes sobre eles. É possível observar que, seguindo a tendência iniciada na década anterior, a inversão de gênero na Escola permanece e amplia-se nos anos de 1880. Verifica-se que a quantidade de estudantes do sexo masculino que ingressou na instituição era menor que a de mulheres, e que a desistência dos homens no decorrer do curso era considerável. Pode-se concluir, pois, que cada vez mais, a profissão docente primária passava a ser vista como majoritariamente feminina e que a formação começava a ser mais voltada para esse sexo.

Outro ponto importante a ser abordado é no que diz respeito à evasão da Escola Normal, que já era presenciada, inclusive, na década anterior. Nota-se que muitas são as desistências nesse recorte e que o número de matrículas nos primeiros anos é maior que nos anos subsequentes. Esses dados podem sinalizar que o baixo interesse pela profissão - que não oferecia prestígio social nem salários atraentes - bem como dificuldades ou outras adversidades, faziam com que muitos ficassem pelo caminho.

De fato, pela análise do livro de registros de diplomas de normalistas apresentados na Secretaria da Inspetoria da Instrução Pública, localizado no acervo do APM, verificou-se que

entre os anos de 1880 e 1884 foram apresentados somente 34 diplomas de alunos formados pela Escola Normal de Ouro Preto85. Destes, 8 foram apresentados em 1880, 12 em 1881, 7 em 1882, 6 em 1883 e apenas 1 em 1884 (APM, IP - 41). Pelos dados dos diplomas registrados neste período, é possível inferir ainda que, muitas vezes, mesmo os indivíduos que chegavam a concluir o curso não necessariamente se dedicavam a profissão docente após o término dele. A Escola Normal oferecia formação intelectual aos seus alunos, mas não necessariamente garantia a inserção deles no magistério primário público mineiro.

Ainda como exemplo da evasão presente na Escola Normal de Ouro Preto neste período, é possível citar o caso da turma que ingressou no ano de 1883. Nela, matricularam-se no primeiro ano 30 alunos, sendo 23 mulheres e 7 homens. Já no segundo ano, esse contingente caiu para 10 estudantes. A essa altura, nenhum dos 7 rapazes que haviam ingressado no ano anterior seguia com a turma para o segundo. Já no terceiro ano, iniciado em 1885, 7 são os alunos inscritos. Ou seja, de uma turma iniciada com 30 alunos, apenas 7 obtiveram o certificado de conclusão do curso normal após os três anos. No próximo tópico tratar-se-á com mais detalhes sobre a trajetória de alguns dos personagens dessa turma.

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