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Kirurgisk Behandling

Apesar da função principal da Companhia de Jesus não ser a de exercer a medicina, pela existência do Formulário Médico e pela análise das receitas fica evidente que os jesuítas se dedicaram fortemente ao seu exercício.

Impulsionados pelo movimento da Contrarreforma, os jesuítas desbravaram os territórios de domínio português, com o intuito de promover o cristianismo. Uma vez sob a proteção da Coroa portuguesa, as atividades dos jesuítas contribuíram para a ampliação do Império. Nos locais mais inóspitos, construíram colégios, hospitais, enfermarias, boticas. Ensinavam a ler e escrever, ensinavam o cultivo de alimentos, ao mesmo tempo em que impuseram a ordem social da metrópole.

A catequização dos índios da América: “imundos”, “animalescos”, “incestuosos”, “canibais”, “polígamos” no imaginário europeu foi o principal objetivo da Ordem. O cenário encontrado pelos missionários foi aterrador. As epidemias, principalmente as trazidas pelos colonos, para as quais os ameríndios não possuíam resposta imunológica, devastavam tribos inteiras e, como se não bastasse, encontraram ainda doenças desconhecidas na metrópole que, juntas, foram responsáveis por milhares de mortes.

No trabalho de Edler (1999, p.28), são descritas as doenças mais comuns entre os índios, das quais destacamos: “as febres, as desinterias, as dermatoses, os pleurises e o bócio endêmico como sendo moléstias prevalentes”, além das doenças trazidas pelos colonizadores: “sarampo, varíola, rubéola, escarlatina, tuberculose, febre tifóide, malária, gripe”.

Os missionários não podiam exercer atividades médicas e cirúrgicas, com exceções em casos de necessidade ou ato de caridade. Contudo, devido às condições encontradas e dada a escassez de médicos, os jesuítas assumiram a responsabilidade com a saúde física e se transformaram em verdadeiros médicos, cirurgiões e enfermeiros. Com o suporte de suas boticas28, que podem ser comparadas a verdadeiros laboratórios, produziam toda a sorte de

28As boticas dos colégios jesuítas foram inigualáveis, em qualquer parte onde estivessem. O inventário dos

bens da Fazenda denominada Santo Ignácio nos Campos Novos, que foi sequestrada aos regulares da Companhia denominada Jesus. Segundo inventário datado de 1775, compondo a botica encontramos a seguinte listagem de medicamento: hum papel com cinquenta e dois vomitórios de quintilio, 17 purgas de jalapa, 18 vomitórios de tártaro, 7 purgas de rezina, 5 purgas de batata, um estojo com duas lancetas, 12 papelinhos de pírolas Angélicas, 7 purgas de rum, huma libra e quatorze oitavas de basilicão, hum dito de óleo rozado, 1 vidrinho de óleo de copaíba, 1 lata de triaga brasílica, 1 lata de trementina, escarrador, 2 vidros de óleo de amêndoas, lancetas, libra e meia de salsaparrilha, ungüento de chumbo, alambiques, almofarizes de mármore, ferro e marfim, armários, frascos e potes de várias cores e amanhos, balanças, pesos, medidas, tachos de cobre, de barro, bacias, prensas, tenazes, enfim, todo um aparato técnico para a confecção dos medicamentos. (GESTEIRA; TEXEIRA, 2009. p. 131).

remédios. Os jesuítas eram hábeis boticários e, segundo Serafim Leite (1938), foram os melhores de sua época.

É certo que a arte médica dos jesuítas foi auxiliar no processo de angariar almas. Contudo, a necessidade e a urgência com os cuidados com o corpo físico, considerando a proliferação de epidemias, talvez tenha sido a principal motivação para a aplicação da Medicina dos inacianos.

Grande parte dos processos médicos executados pelos padres, assim como as receitas e as formas de aplicação, diagnósticos e prescrições de tratamentos, podem ser observados nos manuscritos, sistematicamente produzidos e registrados com riqueza de detalhes. Esse objeto de estudo é um exemplar deste tipo de literatura.

Percebe-se, também, grande organicidade nos índices e nas remissivas, sobretudo na ordenação em tratados, o que demonstra metodologia e normatização. O documento não foi escrito de forma aleatória, obedeceu a critérios de formulação, que refletem a forma de organização do conhecimento dos inacianos quanto à utilização de fármacos.

Ainda sob a perspectiva da análise de sua forma, nota-se que os manuscritos eram documentos que se construíam permanentemente, ressaltando seu caráter de compilação.

Verificam-se receitas com as inscrições “do mesmo autor”, o que foi uma primeira evidência de que sua elaboração passou por um organizador.

Nesta análise, também foi possível perceber outro aspecto que caracteriza uma compilação. Por exemplo, a formulação “receita da celebre massa que se uza no Brazil para Galico”, dá a entender que a receita foi copiada de um manuscrito de outro local, diferente dos territórios coloniais portugueses na América, evidenciando que o documento foi composto a partir de receitas copiadas de diferentes fontes, possivelmente de diferentes lugares.

E por fim, uma das maiores evidências de que o manuscrito é uma compilação é a receita “Remedioz para os doentes de pedra Tirados de Varios Autores pello Doutor Francisco Dias Castelhano, que escreveo insignemente das Enfermidades dos Rins, e bixiga. Medicamentos Símplices”. Aqui não restam dúvidas de que se trata de uma coleção de receitas de diferentes fontes, compiladas de vários autores pelo Doutor Francisco Dias Castelhano. Logo, não seria estranho afirmar que estamos diante de uma compilação da compilação.

Em algumas receitas, observa-se que, além dos nomes dos médicos, existem referências de “mestre” ou “grande mestre”, o que sugere que os padres podem ter recebido treinamentos profissionais ou ensinamentos práticos.

Partindo desse princípio, ao contrário do que dizem alguns historiados, a Medicina Galênica não foi a única a influenciar a desenvolvida pelos jesuítas. No Formulário Médico encontramos uma referência a Curvo Semedo, um dos maiores e mais renomados médicos portugueses, responsável pela introdução dos remédios químicos em Portugal. A receita também faz referência a uma publicação deste autor: Poliantéia Medicinal, editada em 1697, que para Filgueira (1999), seu êxito foi grande, tendo merecido mais quatro edições, a última delas em 1741.

As referências aos médicos especialistas (citados em receitas) e a Curvo Semedo são provas concretas de que a Medicina aplicada por eles foi empírica sim, porém com um referencial teórico científico. E mais do que isso, mostra que os padres estavam atentos para os avanços no campo das Ciências Médicas. Não foram negligentes com as mudanças, muito pelo contrário, se utilizavam delas para acompanhar e evoluir suas práticas de cura.

Amparados pelos conhecimentos teóricos, os jesuítas mantiveram com os índios uma relação de troca que influenciou o seu fazer médico. Os índios foram responsáveis pela introdução de produtos e plantas até então, desconhecidos pelos inacianos, que quando incorporados em sua Medicina, foram responsáveis pela consolidação e projeção da Ordem no cenário médico dos setecentos.

Outra característica relevante na construção da Medicina Jesuítica foi a organizada rede de compartilhamento de informações mantidas entre eles. As receitas descreviam de forma cuidadosa os produtos, indicando, inclusive, as alternativas de substituição de ingredientes no caso da dificuldade em conseguir determinada erva característica de uma localidade específica. A substituição se fazia necessária para que os padres de outras reduções, em outras cidades, países ou continentes, pudessem obter o mesmo resultado no tratamento de determinada doença. Centenas de receitas presentes no manuscrito descrevem formulações com opções de troca de produtos.

Os jesuítas também trocavam uns com os outros as novas descobertas, ensinando as composições e a forma de obtenção dos remédios. Por essa característica, os jesuítas foram responsáveis pela divulgação de plantas brasileiras e seus usos farmacêuticos em toda Europa, como evidencia o caso da Triaga Brasílica, medicamento que se tornou o mais importante

remédio de segredo do século XVIII, como registra Santos (2003, p 46.):” Sem dúvida, a Triaga Brasílica pode ter sido realmente o medicamento mais famoso no Brasil no século XVIII. Foi referida por muitos autores como o “medicamento extraordinário” das terras brasílicas.”

A Triaga Brasílica foi tão significativa que, segundo Santos (2003), após a expulsão dos jesuítas, Marquês de Pombal, ordenou o saqueamento do Colégio da Bahia à procura de sua fórmula, porém, sem sucesso29. A receita, no entanto, foi descoberta anos depois no manuscrito “Colleção de várias receitas e segredos particulares da nossa companhia de Portugal, da Índia, de Macau e do Brasil. Compostas e experimentadas pelos melhores médicos e boticários mais celebres que tem havido nestas partes. Aumentada com alguns índices e notícias muito curiosas e necessárias para a boa direção e acerto contra enfermidades.”, no Archivum Romanum Societatis Lesu, em Roma. Acreditava-se ser a única receita existente, até a presente pesquisa, já que o Formulário Médico possui a receita, idêntica à descrita no manuscrito em Roma.

Além da Triaga, cuja criação é comprovada em documentos do Colégio Jesuítico da Bahia, em dezenas de outras receitas temos o nome de ervas e comentários que associam os seus ingredientes às localidades onde poderiam ser encontradas. O que nos dá indícios de que foram escritas no Brasil: “yma de folha muida, a que chamão matapasto, e na Bahia chamarão boçoura”; uma outra menciona São Paulo: “cozão a erva picão, a que em São Paulo dão o nome de tirimimdî”.

Ao apresentar ao mundo plantas do Brasil, os inacianos contribuíram, de forma inegável, para o enriquecimento das farmacopeias europeias, que incluíram em suas páginas a flora brasiliense. Na edição da Farmacopéia Lusitana Reformada, de 1711, encontram-se referências às plantas exclusivas dos territórios coloniais portugueses na América, como a Salsaparrilha. A Botânica do Brasil apresentada pelos jesuítas pode ser identificada no trabalho de Vera Regina Beltrão Marques (1999), nas seguintes farmacopeias: “Farmacopéia Ulissiponense”, “Galênica e Química”, do Frances João Vigier, de 1716; “História das Plantas

29Quando o Colégio da Bahia foi saqueado e seqüestrado em julho de 1760, por ordem dada pelo Marques de

Pombal, o desembargador incumbido da ação judicial comunicava a seus superiores e ao próprio Marques que havia feito as diligências necessárias para se apossar da botica do Colégio e de algumas receitas particulares, entre as quais se achava a Triaga Brasílica. Nessa época, a Triaga já havia se tornado quase lendária. Mas a receita, porém, não apareceu na Botica, nem em lugar algum na Bahia: foi encontrada mais tarde na Collecção de Receitas no Arquivo Romano da Companhia de Jesus.

da Europa e das mais usadas que vêm da Ásia, da África e da América, em 1718, do mesmo autor; “Farmacopéia Tubalense Químico-Galênica”, de Manuel Rodrigues Coelho; “Pharmacopoeia Contracta”, editada em latim, de autoria de Jacob de Castro Sarmento, em 1749; “Farmacopéia Portuense”, de Antônio Rodrigues Portuga”; “Farmacopéia Dogmática, médico-química, teórico-prática”, de João de Jesus Maria.

Os jesuítas foram os primeiros a descrever a riqueza da flora e da fauna da América Portuguesa. Com a contribuição dos índios, e a partir da relação de respeito que desenvolveram, elaboraram uma medicina rica e inovadora. Vieram com a missão de catequizar e, a partir do caos encontrado, se viram obrigados a sarar o corpo para curar as almas. E o resultado desse delicado processo de formação de práticas de cura, pode ser verificado através de seus manuscritos médicos, considerados verdadeiros arquivos informacionais.

Por muitos anos, a atuação dos padres jesuítas da Companhia de Jesus dividiu opiniões entre os historiadores. Segundo Fleck, havia uma tradição na historiografia que classificava a Ordem de forma negligenciada, associando as suas atividades à oposição aos avanços no campo da Ciência Moderna. Visão que se altera, sobretudo, a partir dos anos noventa com a produção de novos estudos voltados para a discussão. A este respeito, Fleck em suas reflexões sinaliza:

As reflexões em torno das múltiplas atividades exercidas pelos membros da Companhia de Jesus sempre dividiram as opiniões dos historiadores. Por mais de quatro séculos, recaiu sobre a Ordem uma apreciação negativa, associando-se a ela a oposição a qualquer inovação no campo da ciência moderna. Essa tradição historiográfica se alterou significativamente a partir dos anos 1990, em decorrência de uma série de pesquisas que, com base em documentação acessada nos arquivos da Companhia de Jesus, em Roma e na América, destacaram o inegável papel desempenhado pelos jesuítas na história intelectual do Renascimento, desde inícios da era moderna, e sua influência no conhecimento médico e farmacêutico vigente na atualidade. (FLECK, 2014. p. 668).

O fato é que, mesmo diante desta divergência no que diz respeito à atuação dos padres jesuítas, é inegável que os inacianos desenvolveram uma ciência muito particular, que contribuiu significativamente em vários campos do conhecimento. E destacamos através da transcrição e análise das receitas que compõem esse objeto de pesquisa, sua incontestável contribuição para o desenvolvimento das Ciências Médicas nos territórios coloniais portugueses na América.

A transcrição e a análise aqui realizadas têm como objetivo valorizar este objeto de estudo, não somente por seus aspetos físicos ou de antiguidade, mas, principalmente, pelo fato

de realçar a importância dos acervos bibliográficos e sua preservação, por se tratar de uma rica fonte de informação e conhecimento.

No próximo capítulo, iremos analisar o processo de restauração do manuscrito e verificar sua interferência na originalidade do objeto.

3 RESTAURAÇÃO: ANÁLISE DA ALTERAÇÃO ESTRUTURAL E ESTÉTICA DO