As escolas inclusivas, incluindo o Centro Helen Keller que foi fundado para o ensino integrado de alunos com problemas de visão, têm vindo a receber alunos com outro tipo de NEE, nomeadamente crianças e adolescentes com Perturbação do Espectro do Autismo [PEA], crianças com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção [PHDA] e crianças com Multideficiência.
Começamos então por definir cada uma delas na tentativa de melhor compreender as dificuldades sentidas por quem com elas vive, ou quem com estes indivíduos se relaciona.
2.3.1.1 Perturbação do Espectro do Autismo [PEA]:
O que geralmente caracteriza uma pessoa com perturbação do espectro do autismo é a falta de capacidade de comunicar (que pode ter diferentes níveis de comprometimento); interação social, por exemplo, a criança não interagir com crianças da mesma faixa etária, ou não mostrar interesse em estabelecer qualquer interação social, nomeadamente estabelecer contacto visual; e ainda não ter um comportamento socialmente apropriado em múltiplos contextos, por exemplo, escola e casa, comportamentos repetitivos, obsessivos, etc. Parte destes comportamentos podem também passar pela reação inesperada a uma alteração na rotina diária, ou a um barulho mais elevado, o que pode desencadear uma crise de choro, ou gritos sem aparente razão para tal, sendo que estas características devem estar presentes desde a infância para se considerar o diagnóstico.
“Um transtorno invasivo do desenvolvimento, definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometido que se manifesta antes da idade de 3 anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal em todas as três áreas de: interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. O transtorno ocorre três a quatro vezes mais frequentemente em indivíduos do sexo masculino do que do feminino.” (Classificação Internacional de Doenças, Organização Mundial de Saúde, 1993)
84 O diagnóstico de Autismo tem vindo a crescer com o passar dos anos principalmente devido às mudanças efetuadas no processo de diagnóstico, como explica Stephan Hansen (Sifferlin, 2015), em estudos recentes realizados na Dinamarca. Outro tipo de distúrbios, psicológicos e mentais, tais como Síndrome de Asperger ou Distúrbio de Integração sensorial são agora caracterizados como perturbação do espectro do autismo, de acordo com a DSM-536, desde a última atualização em 2013, o que provocou um aumento do número de diagnósticos de autismo.
O nível de severidade é também medido de acordo com as capacidades que a criança tem e de que forma executa, “baseadas em incapacidades de comunicação social e comportamentos restritos e repetitivos (estes podem ser observados e comportamentos estereotipados ou movimentos repetitivos, por exemplo abanar as mãos, ecolalia, rotação de objetos, etc.).” (DSM-5, 2013)
Esta incapacidade para comunicar, socializar em conjunto com um comportamento não típico em sociedade faz com que crianças com autismo sejam por norma postas de parte quando os colegas estão a formar grupos, estabelecer amizades ou até a competir na escola, Siegel (2008). Algumas destas perturbações podem ter um nível de severidade que comprometa a aquisição de conhecimento, complicando a sua tarefa de aprendizagem. Estas crianças devem ser acompanhadas por professores, terapeutas, médicos, familiares, colegas, (uma ‘equipa’ multidisciplinar) de forma a melhorar as suas competências, para que possam ter uma vida o mais ‘regular’ possível.
Existem algumas terapias específicas para ajudar pessoas com PEA a melhorar as suas capacidades de comunicação, interação social e a controlar os comportamentos repetitivos, as quais aprofundaremos mais à frente no presente estudo, bem como os espaços necessários para algumas delas, quando abordarmos a temática das terapias em escolas, capítulo 5.
36 DSM-5 – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, published by the American Psychiatric
Association, provides professionals with guidelines to identify and diagnose autism spectrum disorders in http://www.autismspeaks.org/what-autism/diagnosis/dsm-5-diagnostic-criteria consultado em 10.06.2017
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2.3.1.2 Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção [PHDA]:
As crianças com PHDA contemplam dificuldades a nível de concentração e de comportamento ‘adequado’ e sofrem geralmente de atraso de aquisição de conhecimentos.
“A PHDA refere-se a uma perturbação persistente de desatenção ou falta de concentração e/ ou impulsividade-hiperatividade, que se revela de modo mais intenso e grave que o habitual para indivíduos com o mesmo grau de desenvolvimento, interferindo significativamente no rendimento académico, social ou laboral.” (DSM-5, 2013, apud Neto et al, 2014, p.17,18)
Tratam-se geralmente de indivíduos que não conseguem grandes resultados académicos, pois a instrução que recebem dos professores não é a mais adequada para a sua condição. Os comportamentos impulsivos fazem com que os seus pares os ponham de parte, tornando-os mais solitários e causando na maioria dos casos baixa autoestima, que pode gerar crises de ansiedade e depressão. Em muitos casos é aplicada medicação própria para a hiperatividade, o que reduz de forma significativa os sintomas e permite que a criança se concentre de forma a aprender a matéria lecionada. Os resultados académicos tendem a melhorar, mas o acompanhamento psicológico deve manter-se pela suscetibilidade de surgirem sintomas depressivos, Neto et al (2014).
2.3.1.3 Multideficiência
Nas escolas os casos mais comuns revelam-se casos de multideficiência, onde não existe apenas a cegueira, o autismo, a surdez, por exemplo, mas um conjunto de vários problemas o que faz do aluno um ser único, com necessidades específicas a serem trabalhadas. O grau de severidade das múltiplas deficiências pode ou não limitar a aquisição de conhecimento e aplicação dos mesmos por parte do indivíduo, ao longo da sua vida escolar e posterior vida adulta.
“As NEE podem surgir de uma patologia ou de várias. Nielsen (1999) e Correia (1997) definem multideficiência como um conjunto de limitações associadas – cognitivas, motoras e/ou sensoriais – que em idade escolar podem ser uma barreira para a aprendizagem e podem requerer apoios específicos. O ministério da Educação (2003) acrescenta à definição anterior a possibilidade da pessoa com multideficiência poder acumular limitações no domínio da saúde física.” (Pereira & Sousa, 2016, p. 14)
86 As deficiências devem ser trabalhadas individualmente e como um todo, percebendo o que é mais impeditivo da aquisição de capacidades por parte do indivíduo. Exemplos: No caso de uma criança cega que mostra sinais de deficiência motora, causada por paralisia cerebral, o trabalho vai envolver uma equipa de fisioterapeutas que irão trabalhar a parte motora enquanto professores e terapeutas da fala e ocupacionais estimulam a área cognitiva para aumentar o grau de conhecimento adquirido; ou, no caso de uma criança autista com sinais de hiperatividade, em ambiente de aula, a hiperatividade terá de ser controlada para que as capacidades de aquisição da fala, interação social e comportamento sejam trabalhadas.