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King Lear and his daughters, challenging the tradition?

Por tratar-se de narrativas fundadas na representação mítica de Cobra Norato, o poema de Raul Bopp não poderia ficar de fora. O conhecimento desse universo de sentido mágico – que deu origem ao célebre poema Cobra Norato – é construído por Bopp a partir de uma dimensão onde a passagem do tempo e a medida de distância pertencem ao domínio mítico. Mas isso não quer dizer que o poeta tenha desprezado a noção de espaço concreto. Ao contrário. Os espaços do rio e da floresta compõem a geografia de “reunir-mundo, [...] entre as imensas bordas fluviais” (BOPP, 1975, p. 71). E a soberania do rio, de que fala Bopp, só é possível porque existe a floresta, sobre a qual o rio é soberano. Um não existe sem o outro. Portanto, as narrativas orais dialogam com o poema de Raul Bopp no que diz respeito às múltiplas facetas simbólicas do mito, transfiguradas no discurso poético e no imaginário popular, imprimindo “marcas profundas”, nos discursos:

Torça caminho depressa que a

Boiúna vem lá atrás como uma trovoada de pedra Vem amassando mato Uei!

Passou rasgando o caminho

Arvorezinhas ficaram de pescoço torcido As outras rolaram esmagadas pela raiz”

Em outros versos do poema, a personagem mítica, por alguns breves instantes, abandona sua “pele de seda elástica” para entrar no ventre da floresta “mordendo raízes” só para contemplar, bem de perto, o espetáculo oferecido pela natureza durante a transformação das terras do sem-fim:

Mar desarrumado de horizontes elásticos passou a noite toda com insônia monologando e resmungando

Chegam ondas cansadas da viagem descarregando montanhas Fatias do mar dissolvem-se na areia

Parece que o espaço não tem fundo ...

(Cobra Norato, cap. XIX)

O poema Cobra Norato revela que a expressão “geografia do mal-acabado” refere-se a terra, ainda em processo de formação. A história que o artista ouviu, registrou e converteu em versos livres – como livre é o tema, tão de acordo com a liberdade desejada pelo autor – descreve a geografia do mal acabado na voz da “primeira pessoa” que teve a intrepidez de se enfiar na pele de outrem, para lograr o melhor ângulo de visão do mundo em construção:

Passo nas beiras de um encharcadiço

Um plasma visguento se descostura e alaga as margens debruadas de lama Ouvem-se apitos um bate-que-bate

Estão soldando serrando serrando Parece que fabricam a terra.

(Cobra Norato, cap. VI)

Os versos em questão organizam-se no movimento constante da natureza. E, como a natureza em movimento, as imagens do poema se re-criam, se multiplicam e se superpõem às anteriores, num processo poético que parece não ter fim. Essa forma interminável de re- criação – da terra e do poema – confunde os rigores classificatórios da crítica:

Estaríamos diante de um poema lírico? De uma epopéia modernista? De uma narrativa poética para crianças? De uma rapsódia brasileira? O poeta já o transformou em roteiro para balé, fragmentou-o, publicou-o em partes: o poema tem todas as margens e não se esgota. Mantendo-se como unidade múltipla, permite todas as leituras. Em suas linhas essenciais, apresenta-se como um poema que desenvolve uma linha discursiva (conta uma história), ou uma poesia narrativa em que o herói enfrenta a floresta equatorial – um mundo em formação. [...] Na luta contra a floresta e contra a Cobra Grande, o mito serpenteário da Amazônia, Norato, o herói, reconstrói o mundo em verdadeira cosmogonia (AVERBUCK, 1985, p. 94-95).

Alguns elementos do mito, re-criados sob formas possíveis de um poema lírico, uma epopéia modernista, uma narrativa poética para crianças, uma rapsódia brasileira, convergem para o mesmo eixo que sustenta as narrativas populares, particularmente, no que se refere à insistência de Honorato em chegar até à filha da Rainha Luzia – metáfora da busca de si mesmo: “Ai compadre! Tenho vontade de ouvir música mole [...] que me faça ouvir de novo a conversa dos rios que trazem queixas do caminho e vozes que vêm de longe surradas de ai ai ai ...” (Cobra Norato, cap. XI). No poema, a procura insistente Honorato, representada na busca da filha da Rainha Luzia, metaforiza a busca de si mesmo de volta à condição humana:

Ai compadre!

Tenho vontade de ouvir uma música mole que se estire por dentro do sangue; música com gosto de lua

e do corpo da filha da rainha Luzia Atravessei o Treme-Treme

Passei na casa do Minhocão

Deixei minha sombra para o Bicho-do-Fundo só por causa da filha da rainha Luzia

Levei puçanga de cheiro e casca de tinhorão fanfan com folhas de trevo e raiz de mucura-caa Mas nada deu certo... Ai compadre

Não faça barulho que a filha da rainha Luzia

talvez ainda esteja dormindo Ai onde andará

que eu quero somente

ver os seus olhos molhados de verde seu corpo alongado de canarana

Talvez ande longe ... para eu ter um querzinho da filha da rainha Luzia”

(Cobra Norato, cap. XI). Essa busca apresenta um desdobramento nas versões do imaginário popular. Enquanto o Honorato do poema corre ao encontro da filha da rainha Luzia, o outro Honorato, também, é obcecado pelo desejo do retorno à condição humana e dá conselhos à irmã com o intuito de convencê-la a retornarem, juntos, à forma de gente.

Ao estudar a vocação mitológica da Amazônia, Paes Loureiro (1995) considera que seus mitos, suas invenções no âmbito da visualidade, sua produção artística, são verdades de crença coletiva, são objetos estéticos legitimados socialmente, cujos significados reforçam a poetização da cultura da qual são originados. Segundo ele, a própria cultura amazônica os legitima e os institui enquanto fantasias aceitas como verdades:

Na realidade amazônica o mundo tem limites sfumatos, fundidos ou confundidos com o supra real, daí porque nela homens e deuses caminham juntos pela floresta e juntos navegam sobre os rios. Situam-se no impreciso limite entre aquilo que é e aquilo que poderia ser, nesse sfumato poetizante que interpenetra o real e o imaginário (LOUREIRO, 1995, p. 85-86).

Justamente na imprecisão do limite entre aquilo que é e aquilo que poderia ser e para além da elaboração a que lhe submeteram a literatura e a oralidade, é que se instala o mito que abriga a ocorrência desses dois “Honoratos” que transitam entre o popular e o erudito na abundância de significações e combinações inerentes ao universo mitológico que, a cada momento, é capaz de se reatualizar e ressignicar, conforme os efeitos das alterações de origem sócio-geográficas.

Para ampliar os elementos dessa discussão, é necessário observar as circunstâncias de um mesmo evento numa terceira versão que, ao mesmo tempo em que anuncia as modalidades e peculiaridades nas diferentes combinações, acrescenta outros elementos que re- configuram a ordem de uma tradição. Nesse sentido, seguimos para o município de Santarém, às margens do rio Tapajós. É lá que Honorato: Cobra Grande circula nas vozes do imaginário popular que, nessa história, define a oposição entre bem e o mal, visíveis na metáfora de um casal de gêmeos: o menino bom, e a menina má.