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REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE O TEMA

Neste capítulo, procedemos a uma breve revisão do material bibliográfico encontrado sobre a Bíblia, focalizando questões referentes ao texto bíblico em suas diferentes versões/traduções e formatações textuais. Primeiramente, dedicamo-nos a uma exposição sucinta dos trabalhos acadêmicos encontrados bem como do conteúdo que eles apresentam; depois tecemos comentários sobre a contribuição deles para nossa pesquisa.

3.1. Trabalhos sobre a Bíblia

Chamou-nos a atenção a pouca quantidade de trabalhos acadêmicos disponíveis com foco de interesse na Bíblia. Sendo assim, procedemos a uma varredura no material encontrado com a finalidade de identificar trabalhos cujo teor fosse a análise de diferentes versões da Bíblia ou de parte de seus textos. Também buscamos nessas publicações conteúdos que pudessem oferecer alguma contribuição à nossa pesquisa. Do material investigado, cabe-nos destacar alguns trabalhos, os quais apresentamos resumidamente a seguir.

Primeiramente citamos um artigo de Konings (2003), que discorre acerca das vinte traduções bíblicas correntes no Brasil, considerando, entre outras coisas, os “problemas da tradução”, a saber, conhecimento das línguas (de partida e de destino) e questões documentais e sócio-histórico-culturais. O artigo trata também da “gramática do texto”, no sentido de o tradutor atentar para os aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos, a fim de que eles sejam respeitados no processo de tradução. Além disso, o trabalho aborda, de modo muito elementar, o efeito que uma palavra pode desencadear na vida do leitor em termos de um conceito requerer uma atitude/ação do interlocutor no mundo real. Esse trabalho trata, ainda, da “tradução e traduções para leitura fiel em nosso meio” (p. 226) e, com base nisso, faz uma exposição do que chama de tradução erudita. Nesse sentido, é acrescentado um tópico sobre a “linguagem popular e erudita”,

mostrando que essas variedades de linguagem foram produzidas para atender à diversidade dos usuários/leitores. Apesar de esse trabalho conter algumas questões léxico-gramaticais e de estilo de linguagem que perpassam nossa pesquisa, seu viés e respectivos interesses se afastam da nossa proposta.

Encontramos, também, outro trabalho que trata de textos bíblicos utilizando apenas a versão ARC (CAJUEIRO, no prelo). Esse trabalho diz respeito a um livro ainda não publicado, sob o título “Português aplicado à Bíblia: transformando análise sintática em análise simpática”. Na verdade, o livro se limita a utilizar excertos textuais bíblicos para ensinar a gramática do português, considerando, acima de tudo, o plano sintático.

Há, também, um trabalho no campo da teoria literária (ALEXANDRE, 2009).

Trata-se de um artigo que discute a temática do amor e do canto lírico na poesia de Salomão, utilizando o livro de Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) como material de análise. Nesse trabalho, a autora considera o conceito de linguagem poética e de voz lírica que estão presentes em algumas passagens do livro. A articulista destaca o jogo de vozes no interior dos poemas bem como a compreensão da mensagem de amor no relacionamento íntimo entre um homem e uma mulher. Por último, aborda a temática do erótico em cada poema do livro utilizando categorias descritivas da teoria literária para sustentar as análises.

Por fim, cabe mencionar o trabalho dissertativo de Moreira (2013), no qual o autor faz uma análise de alguns Salmos na versão NTLH, observando o princípio de equivalência dinâmica/funcional aplicada à poesia hebraica, ressaltando aspectos formais e figurativos dessa poesia encontrados no livro de Salmos. Ao final da pesquisa, o autor chega a algumas conclusões:

(1) reconhecimento da importância de Eugene Nida para a teoria da tradução moderna. A importância desse autor na história da tradução dá embasamento científico ao princípio adotado pela versão NTLH, haja vista que esse princípio possui fundamentos essencialmente linguísticos, focalizando o aspecto sociossemiótico.

(2) a versão NTLH do livro dos Salmos procura manter alguns recursos poéticos como o paralelismo e a figuratividade. Algumas figuras de linguagem da versão NTLH são substituídas pelo seu significado funcional, apresentando-se no texto o que ele chama

de “tradução conceitual”. Nesse sentido, mantém-se uma coerência com a teoria de Nida do significado acima da forma, de modo que, para esse autor, se o leitor recebe o texto/a tradução de maneira que cause dificuldade de interpretação ou estranhamento não há equivalência dinâmica.

(3) o princípio de tradução adotado pela NTLH, em relação ao livro dos Salmos, não altera o gênero nem a sua temática.

(4) a Bíblia NTLH não segue a risca a versão Good News Bible (GNB) que foi escrita primeiro. Segundo o autor, a NTLH não é uma tradução literal da GNB, apesar de os tradutores brasileiros a terem como referência, já que as duas seguem o mesmo princípio de tradução, mas em alguns casos, as escolhas de tradução (lexicais) são bem diferentes.

(5) a linguagem utilizada pela versão NTLH é facilitada, visando a total compreensão do público leitor. Nesse sentido, o autor ressalta que o público-alvo dessa versão é de baixo nível de escolaridade e de pouca familiaridade com a leitura de textos poéticos, como é o caso dos Salmos. Em contrapartida a isso, o autor afirma que o público leitor religioso mais acostumado com versões bíblicas tradicionais, derivada das traduções de João Ferreira de Almeida (tal qual a versão ARC), tenderá ao estranhamento na linguagem.

3.2. Contribuições dos trabalhos resenhados

Em primeiro lugar, a contribuição de Konings (2003) para nosso trabalho reside no fato de o autor nos esclarecer aspectos relevantes de vinte traduções bíblicas correntes no Brasil de vertente protestante e católica. Além do mais, o fato de ele avaliar os problemas de tradução considerando questões documentais, sócio-histórico-cultural, conhecimento das línguas de partida e destino, bem como fatores semânticos e pragmáticos, nos ajudam a entender os objetivos comunicativos das principais versões bíblicas apresentadas no trabalho.

O livro de Cajueiro (no prelo) chamou-nos a atenção pelo fato de ser um texto que analisa a sintaxe da norma culta utilizando trechos bíblicos da versão ARC. Considerando

que, em nossa pesquisa, são realizadas algumas análises em termos formais, o trabalho desse autor, de certo modo, contribui para isso.

O texto de Alexandre trouxe uma colaboração no sentido de podermos observar como um trabalho acadêmico lida com questões referentes às figuras de linguagem – especialmente a metáfora – em um texto bíblico. As reflexões da autora sobre o Cânticos dos Cânticos nos auxiliou na análise de textos poéticos como os de Salmos e Provérbios.

O trabalho de Moreira (2013) contribui essencialmente para nos respaldar no estudo dos gêneros discursivos/textuais de Salmos e Provérbios, considerando que as versões em português também mantêm alguns recursos do texto poético na língua original (hebraica). Além disso, o trabalho desse autor informa que o público-alvo da versão NTLH é de baixa escolaridade, o que reforça uma das hipóteses levantadas em nossa pesquisa quanto a possíveis dificuldades de leitura desse público.