3. Kildematerialet
3.5. Kildetroverdighet og drøfting av notebøkene som kilder
A pobreza é considerada neste estudo como um fenômeno social e histórico, relacionado aos processos de exclusão e desigualdade social (SAWAIA, 2009), que envolve a exposição dos sujeitos a situações de vulnerabilidade (MARADOLA; HOGAN, 2009). A partir de uma perspectiva multidimensaional (SEN, 2010), reconhece-se que ela é dinâmica, complexa e constituída por aspectos sociais, culturais, políticos, materiais, monetários e simbólicos.
Quando perguntei a Raquel o que ela achava da Barra, ela verbalizou duas expressões que merecerão destaque. Primeiro, ela disse que “aqui? É uma pobreza medonha, monte de favela, eu que não ando na parte da praia, favela, lixo, tudo sujo. Não vou lá, nem me pagando” (RAQUEL, E2, 14/10/2013). Fiquei impactava, pois a rua da praia, que ela descreve desta forma, estava longe de ter tal característica por conta da beleza natural que é possível ser avistada.
Contudo, as impressões de Raquel ultrapassam uma bela visão que encanta uma estrangeira, quando ela define a Barra como uma pobreza medonha ela está se referindo ao encontro de uma série de condições capazes de gerar vulnerabilidades sociais, uma vez que expõe os sujeitos a uma série de limitações no acesso à moradia, saúde, educação, cultura, lazer, entre outros direitos básicos, assim como, os submete a um intenso sofrimento cotidiano em decorrência às diversas privações sociais e econômicas (MARADOLA; HOGAN, 2009).
Fonte: Arquivo Pessoal
Revendo fotos do campo, encontrei essa imagem do Morro do Santiago que traduz a compreensão de pobreza medonha de Raquel, sobretudo no trecho em que é possível ver muito lixo e entulho ocupando um terreno próximo às residências. Sobre a Barra, Irene lembra que
[...] quando a gente chegou ali, a gente nem tinha água, nem tinha luz, nem tinha asfalto (...) aos poucos foram chegando as coisas, hoje já tem energia, água, linhas de ônibus, já melhorou muito. É é é um lugar tranquilo... eu a única coisa que eu num gosto daqui é o esgoto que não é todo tratado, tem muito lugar que ele corre ao ceú aberto e num gosto também porque tudo é distante, mas hoje já melhorou porque antes era mais distante ainda (IRENE,E1, 05/11/2013).
O “distante” ressaltado por Irene pode ser considerado a distância das condições necessárias para uma vida digna e traduz a noção de pobreza medonha que Raquel expressou. A pobreza deve ser problematizada considerando sua implicação na constituição psíquica e material das pessoas, complexificando as questões que atravessam o cotidiano da baixa prostituição. Quando as mulheres relatam o afastamento do ambiente escolar, a restrição do território da barra como o espaço de circulação na cidade, falando da escasses de políticas públicas e é verbalizado a intervenção desleal do estado na desapropriação do local de trabalho percebemos os traços bem demarcados dos desdobramentos das vidas em condições de pobreza (NEPOMUCENO, 2013).
Para compreender adequadamente a pobreza, é preciso entender sua relação com o sistema capitalista e o modelo neoliberal de produção e exploração, relação essa que transforma tudo em mercadoria, desde a força de trabalho do sujeito, até os bens e serviços produzidos pela humanidade. O desemprego, a desigualdade e a exploração são marcas importantes deste sistema, visto que são peças importantes para sua manutenção, produzindo um enorme exército reserva de trabalhadores e diminuindo a pressão social por melhores condições de trabalho e vida (STOTZ, 2005). Tais modelos econômicos são envoltos por uma lógica perversa que fortalece a ideia de que o fracasso ou sucesso de cada um depende unicamente de fatores individuais. Esse mecanismo ideológico sustenta a lógica da dominação ao naturalizar a realidade e transformar fenômenos históricos em fatos naturais dados e acabados (CIDADE; MOURA JR.; XIMENES, 2012).
Mayorga (2014) ao estudar sobre as opressões sociais aponta que, diferente das analíses feitas na década de 1960 ou 1970, quando se fala de um sujeito oprimido, pobre, privado, está se falando mais do que alguém pertencente a uma classe social. Para autora, as desigualdades sociais convidam a uma visão que articule a classe com dimensões de gênero,
sexualidade e classe, visto que as opressões se estabelecem “através de sistemas distintos e inter-relacionados de poder, o que exige uma ampliação de nossas leituras acerca dos elementos psicossociais da opressão e dominação e também da emancipação” (p. 225), complexificando as questões e as análises.
Assim, ser pobre, ser puta, ser surbubana, ser negra, ser lésbica ou bisexual coloca as entrevistadas em um lugar de encontro de opressões. Com isso, é fundamental historizar o modo como essas categorias se encontram em suas vidas e seus desdobramentos, transformando assim em categorias políticas (MAYORGA, 2014). Interseccionalizar para a autora, é estar atento para as origens dessas opressões e não simplesmente somá-las, visto que não é de interesse investigativo vitimizar os sujeitos mas compreender as redes de poder, opressão e privilégios que envolve seu processo de desenvolvimento.
No que diz respeito à baixa prostituição, esta acaba por ser configurada a partir de um contato grande com uma precaridade consequente das condições de pobreza, principalmente no que diz respeito aos valores iniciais do programa, normalmente com preços baixos, bem como as condições de higiene e salubridade dos bares e quartos onde trabalham e dormem, exposição e convivência com o consumo abusivo de drogas, sobretudo alcool, crack e oxi, a qualidade do sono e da alimentação, os momentos de lazer e descanço, etc. Essa situação que traz diversos dilemas e angústias para aqueles que dela participam, estando a população feminina entre os grupos mais vulneráveis nesta vivência de rua e de informalidade, diante também das inúmeras violências de gênero, às quais estão mais expostas, não surpreendendo quando as entrevistadas queixavam-se de possíveis fragilidades nas relações comunitárias e em redes com quem possam contar.
A forma como social e teoricamente tem sido pensado a relação da pobreza com a prostituição é delicada, visto que comumente a privação financeira é entendida como uma causa ou justificativa para a prática da prostituição. Vimos relatos desse tipo nas histórias de Luana e Raquel quando diziam precisar serem firmes diante das pessoas que não acreditavam em uma escolha ou desejo de praticar a prostituição. Mayorga (2014) pontua uma espécie de pânico moral que envolve a necessidade dessa resposta social, situação essa que acaba por vitimizar essa mulher negando a relação entre sexualidade e autonomia, reproduzindo respectivamente desigualdades de gênero. A relação da pobreza como a prostituição ao meu ver está na exposição e manuntenção de uma maior privação de direitos sociais e na convivência com uma miserabilidade das condições de desenvolvimento, de planejamento de vida e de sociabilidade.
Ana durante a entrevista trouxe uma análise das mudanças que vêm ocorrendo no perfil da prostituição na Barra, pois, segundo ela, as mulheres já não querem estar tão fixas aos bares como antigamente
Antes do Bolsa Família as mulheres tinham mais coragem de vim para cá, vinham e ficavam aqui com nós mesmo, era muito fácil ter as meninas do interior aqui. Hoje tá muito dificil manter uma casa, por isso que meu foco é mais a bebida mesmo hoje. Com o bolsa família elas já tem o seu, né? Ai só vem quando querem e voltar para suas vidas. Perderam a ambição pelo grande, ficaram bem com o dinheiro, eu acho (ANA, E1, 22/11/2013).
Esse mínimo garantido descrito por Ana é a garantia de condições mínimas de sobrevivência, o que potencialmente tem possibilitado que essas mulheres reconfigurem os acordos com os pontos de prostituição. Já não se submetem ao cotidiano da zona, criando outras fontes de renda e efetivamente ganharam mais autonomia para escolher onde e como irão trabalhar. A relação com a prostituição torna-se menos tutelada pelas figuras das donas de bares e casas, e mais pautada a partir de suas disponibilidades e necessidades.
Para além de uma questão financeira, quando analisada em uma perspectiva multidimensional (SEN, 2010) compreendemos que a vivência na realidade de pobreza tem desdobramentos psicossociais nos modos de vida das pessoas. É a vida comunitária, o cenário em que se fortalece ou fragiliza o cuidado e a valorização de si, onde se tem a possibilidade de lidar ou não com a realidade e, com autonomia e liberdade, fortalecer a articulação, o diálogo e os potenciais e aspectos saudáveis de suas vidas (GÓIS, 2008). Nesses casos, onde se percebe essa exposição a situações de privação percebe uma fragilidade das condições ideais para o desenvolvimento saudável e potente.