O software4 é um produto diferente dos manufaturados de forma clássica. Ele é caracterizado por um conjunto de elementos lógicos desenvolvidos por processos de engenharia, que envolvem uma série de insumos não físicos (PRESSMAN, 2002). Esses insumos o tornam, em sua essência, um produto imaterial.
Essa imaterialidade é derivada da forma de construção de um software, que envolve a consolidação de dados binários e critérios lógicos em informações e rotinas estabelecidas de acordo com as necessidades dos clientes demandantes da solução. Essas soluções podem assumir várias formas de negócios, seja através da venda de um produto fechado, dito de prateleira – como os sistemas operacionais e pacotes offices, ou até mesmo, como um serviço intangível – altamente dependente da demanda do usuário final. Logo, o software pode ser classificado de acordo com o modelo de negócio desenvolvido pela empresa desenvolvedora (ROSELINO, 2006).
O software produto é vendido diretamente para os consumidores finais. Conhecidos como “produtos de prateleira”, esses softwares realizam funções já especificadas previamente que não podem ser adaptadas para cada usuário distinto. Esses produtos, muitas
4 O software e os serviços de TI são analisados sem distinção, uma vez que se configuram, em grande parte das
vezes, geram para as empresas desenvolvedoras posições privilegiadas frente aos seus concorrentes, derivadas dos processos de lock-in, ou seja, posições de mercado advindas da predominância de plataformas estabelecidas por empresas pioneiras (DIEGUES, 2010).
Já os serviços de software são atividades customizadas, que envolvem interações entre o desenvolvedor da solução e o seu cliente. Esses serviços podem ser classificados como de baixo e alto valor agregado.
Os serviços de baixo valor agregado envolvem atividades corriqueiras. São atividades menos complexas e, assim, menos densas tecnologicamente. Essas atividades possuem menores necessidades de interação entre demandante e produtor. Já os serviços de alto valor agregado possuem especificações mais complexas e envolvem atividades mais intensivas em conhecimento. Nesses serviços, ocorre a inclusão de etapas de desenvolvimento mais complexas, como o design.
Adicionalmente, independente dessas formas de negócios, os softwares possuem uma estreita relação com as atividades produtivas, derivada de seu caráter pervasivo e transversal. Essas características, segundo Roselino (2006:17), “se expressa pela sua presença nas mais diversas cadeias produtivas e atividades” econômicas. Ou seja, uma grande parcela das atividades de software encontra-se dispersa em um amplo e diversificado conjunto de atividades econômicas, que extrapolam os limites do próprio setor (ROSELINO, 2006; DIEGUES, 2010).
Essa transversalidade, somada à sua imaterialidade, faz com que muitas das atividades do segmento sejam desenvolvidas dentro de outros setores produtivos, através da forte ligação do software com a indústria eletrônica e seus componentes e dispositivos embarcados. Essa característica dificulta a mensuração do real valor dessas atividades, pois muitas vezes subestima a real importância das atividades, além de desconsiderar a importância da difusão de tecnologia gerada por essa atividade em todo o sistema produtivo.
Como apontou Diegues (2010), a ênfase no caráter transversal e pervasivo dessas atividades faz com que, além da importância do setor para o entendimento das transformações tecnológicas e da dinâmica inovativa de diversos setores, apareçam também benefícios associados ao fortalecimento da indústria local como um todo, principalmente através dos transbordamentos de conhecimento. Esses transbordamentos servem como complemento da competitividade das indústrias nacionais, que adotam tais tecnologias.
Segundo Roselino (2006), essa presença nos diversos setores é um dos indicativos da pertinência de encarar a indústria como estratégica, já que podem gerar efeitos benéficos para outras áreas. Ou seja, o software pode ser visto como uma atividade
dinamizadora e promotora de eficiência e produtividade entre diferentes empresas. O software permite que diversas cadeias produtivas sejam modificadas qualitativamente, através da incorporação de novas funcionalidades advindas desse segmento.
Outro ponto importante das atividades de software está relacionado ao nível de qualificação da mão de obra envolvida nessas atividades. É importante salientar que as etapas de desenvolvimento de software são diferentes da manufatura de produção em fábricas, como de automóveis ou produtos eletrônicos. A produção e o desenvolvimento desses produtos e serviços passam por etapas, que envolvem níveis de conhecimentos técnico e analítico distintos.
Por se tratar de uma atividade intensiva em conhecimento, a mão de obra requeridas nas atividades se torna um de seus principais insumos. Essencialmente, como apresentado por Roselino (2006), existe um modelo hierárquico de desenvolvimento das atividades de software que envolve processos com diferenças significativas em relação ao conteúdo tecnológico necessário. Essa diferenciação forma uma base para a fragmentação do trabalho ao longo do desenvolvimento dessas atividades. Em seus estágios iniciais de desenvolvimento, nos quais ocorrem análises e delimitações mais complexas do software, é necessária a alocação de pessoal mais qualificado, que possuam capacitações relevantes na área de Engenharia de Software. Essa complexidade é derivada do fato de que muitas dessas soluções demandam interações entre consumidor e desenvolvedor constantes para que se identifiquem os requisitos necessários à satisfação da solução buscada pelo cliente. Já nas etapas de produção e validação em si, como a codificação e os testes, são necessárias menores qualificações dos trabalhadores, que desempenham atividades mais rotineiras e mais intensivas em trabalho (ROSELINO, 2006).
As atividades de software e serviços de TI, mesmo que comumente sejam vistas como de alta tecnologia possuem em cada etapa de seu desenvolvimento diferentes capacitações. Conforme apresentado por Roselino (2006), essa diferenciação evidencia uma relação de hierarquia dentro da própria estrutura produtiva do setor.
A consideração da existência dessa escala hierarquizada subsidia uma melhor compreensão dos elementos determinantes da divisão do trabalho na indústria de software. A atividade de desenvolvimento de software não pode ser tida então como um conjunto de funções indiferenciadas. Dentre o conjunto de atividades denominadas como sendo de desenvolvimento de software residem funções distintas, com intensidades tecnológicas diferenciadas. Esses elementos são particularmente úteis aos objetivos, uma vez que lançam luz sobre as diferenças qualitativas identificáveis no interior da indústria, e por consequência, permitem uma avaliação qualitativa de diferentes configurações produtivas (ROSELINO, 2006, p48).
Toda essa dinâmica está relacionada com o fato de que o conhecimento derivado dessas atividades possui como base um elemento altamente codificado, nas quais as técnicas da indústria estão baseadas em desenvolvimento tecnológico e científico em geral. Entretanto, outro elemento relevante, principalmente nas funções mais complexas de desenvolvimento, está relacionado aos conhecimentos adquiridos pelos profissionais através da cumulatividade, ou seja, o conhecimento tácito.
Essas características ajudam a compreender, com maior predicado, o setor estudado e suas relações com os demais agentes produtivos. Adicionalmente, alguns pontos históricos também influenciaram na forma como essas atividades se conformaram territorialmente. Destarte, para melhorar subsidiar o debate proposto e entender como ocorreu à formação das empresas de TI no Brasil, é necessário levar em conta as características globais do desenvolvimento dessa atividade e sua inserção nas atividades brasileiras.
2.2. FORMAÇÃO DA INDÚSTRIA DE SOFTWARE E SERVIÇOS DE TI: