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Kildekritikk

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3 Metode

3.3 Kildekritikk

Pública

A Aula de Ginástica teve início em dezembro de 1936 e permaneceu na programação da Rádio até meados do ano de 1943. O programa era irradiado de terça a domingo, no horário de 07h às 07h30min, sendo organizado pelo professor Antônio Macedo. Conforme consta informação no jornal oficial163, o referido professor pertencia ao Departamento de Instrução da Força Pública de Minas Gerais e era diplomado pela Escola

de Educação Física do Exército164,atuando também no Minas Tênis Clube como professor de ginástica. No plano das aulas, as ginásticas eram marcadas por músicas rítmicas, executadas ao piano165, o que podemos entender como um mecanismo de relacionar o aprimoramento estético físico com o aprimoramento estético musical. Ainda consta que as aulas seriam orientadas por material denominado “quadros muraes” ou “mappas de gymnastica”. Em notícia sobre o início das aulas, informou-se que os “quadros muraes que acompanharão os exercícios já estão sendo organizados, devendo ser impressos antes do inicio das aulas. Esses quadros muraes deverão ser distribuidos gratis aos ouvintes da PRI- 3.” (AULA...,19 dez. 1936, p.13).166De acordo com o mesmo jornal, o que a Inconfidência propunha era “uma bela demonstração de interesse em bem servir á saude do povo”.

A presença de um programa de rádio destinado à prática de atividades físicas, com o pressuposto de servir à saúde do povo provoca, inevitavelmente, algumas reflexões em torno do valor que a educação física assumiu durante o governo Vargas. Horta (1994) afirma que a educação física teve papel de relevo na associação entre a educação e a saúde naqueles tempos. Segundo o autor, ela foi inicialmente voltada para o desenvolvimento físico individual e depois foi relacionada com a concepção de aperfeiçoamento da raça. Para ele, a partir de 1937, a educação física passou a ser um setor privilegiado de atuação dos militares, que pretenderam utilizá-la para a concretização da sua presença nas escolas, organizando-a, entretanto “além das escolas”, “nas várias corporações relacionadas com os interesses da infância e da juventude” (HORTA, 1994, p.169). Esses dois pontos são de interesse para compreendermos a função da educação física nos anos 1930 e a veiculação de um programa de ginástica pela Rádio Inconfidência de Minas Gerais. Organizada por um professor formado pela Escola de Educação Física do Exército, a Aula de Ginástica se mostra como um locus de atuação dos militares estendida à nação. Debates se travaram em torno da legitimidade da atuação desses sujeitos em diferentes espaços da sociedade e dos investimentos no campo educacional para a formação de profissionais que neles atuassem (HORTA, 1994; CASTRO, 1997; PEREIRA, 1999, LINHALES, 2009).

164 O programa começou a ser irradiado em 22 de dez. 1936 e aparece na programação até meados de 1943. Inicialmente era irradiado de 07h30min às 08h tendo passado de 07h às 07h30min quando as transmissões passaram a começar às 07h.

165 Minas Gerais, 22 dez. 1936, p. 13.

166Apesar disso, na edição do Folha de Minas, de 12 de fevereiro de 1938, informa-se o preço dos mapas no valor de 3$000 (três mil réis),disponíveis para compra nas livrarias Rex.

Era indispensável um método adequado para validar tais princípios. Adotou-se, portanto, o método francês, justificado pela presença da Missão Militar Francesa que se instalou no Brasil no início da década de 1920 até o final do Estado Novo. A Missão Militar influenciou as concepções doutrinárias que regeriam o Exército nacional, em franca reorganização a partir daquele momento.

O cenário militar europeu era, nessa época, dominado pela noção de “Nação em Armas”, segundo a qual as Forças Armadas, além de responsáveis pela defesa, deveriam ser também uma espécie de “escola da nacionalidade”, já que idealmente recrutariam elementos de todos os setores da população, de todas as origens sociais, dotando-os de um sentimento de unidade nacional. Com isso, o Exército via-se ideologicamente diretamente ligado à Nação, entidade da qual, mais que guardião, era também formador (CASTRO, 1997, p.62).

A escolha dos métodos norteadores da prática de educação física se pautavam em questões científicas e educacionais que melhor corresponderiam às necessidades e características do brasileiro (LINHALES; SILVA, 2008; CASTRO, 1997). Não obstante, ainda que os exercícios se pautassem em métodos estrangeiros, havia interesse em desenvolver um método nacional que estivesse de acordo com o cadinho racial brasileiro, atendendo às nossas peculiaridades. Se por um lado, estava em jogo a afirmação de uma identidade brasileira, por outro não podemos nos esquecer do componente eugênico- sanitarista com que pautavam as práticas de formação do “homem brasileiro” relativas à educação física. Pereira (1999), ao tratar de seu papel no Estado Novo, afirma:

Era urgente, aos olhos dos dirigentes nacionais de educação física, tornar os corpos ágeis, belos e robustos, saudáveis e fortes, atributos que dariam garantia de perfectibilidade à raça nacional, massa modeladora da nação enunciada (PEREIRA, 1999, p. 20).

Igual reflexão pode ser feita quando tomamos o programa Hora de Higiene e Saúde Pública, que era organizado por médicos e professores da capital e abordava diferentes temas relacionados à profilaxia, ao tratamento de doenças e de demais cuidados com a saúde. Iniciado em março de 1937, esse programa foi inicialmente transmitido todas as segundas-feiras no horário de 22h às 23h e permaneceu na grade até maio de 1943167.

167 Em abril de 1938, a Hora de Higiene... passou a ser transmitida no horário de 18h45min às 19h, de segunda a sábado e, em janeiro de 1940, às terças, quintas e sábados, cedendo espaço nos demais dias da semana para o programa Hora de Estatística e Informação.

Temáticas como “A educação sanitária na escola”, “Os exames médicos e a proteção da

saúde”, a “Profilaxia do “croup”, “O problema médico-social do Câncer”, “Proteção à maternidade e à infância”, “O problema da lepra em Minas Gerais”, “A prática da vacinação na prevenção das doenças transmissíveis”; “A luta contra a mortalidade infantil” foram os temas identificados nas irradiações do programa168. A presença desses assuntos mostra os problemas enfrentados pelos serviços médico-sanitaristas estaduais, bem como a ação de tornar a emissora estatal como espaço de orientação da população.

Nos anos 1930, a saúde prevalecia como preocupação do governo e a vinculação com a educação em um único ministério indica que os problemas entre esses dois campos estavam intimamente relacionados. Segundo Gilberto Hochman e Cristina M. O Fonseca (1999), o marco na saúde pública como política estatal deu-se na gestão de Gustavo Capanema. Foi a reforma do MESP, implementada em 1937, que “definiu a política de saúde pública, reformulando e consolidando a estrutura administrativa do ministério e adequando-a aos princípios básicos que orientaram a política social do Governo Vargas”. (HOCHMAN e FONSECA, 1999, p. 82).

Segundo os autores, a partir de então

consolidava-se a visão de que a saúde pública deveria atuar privilegiando as doenças infecto-contagiosas, que atingiam a totalidade da comunidade nacional e não grupos específicos. (...) A principal orientação era a de debelar surtos epidêmicos e estabelecer métodos de controle e prevenção, num trabalho conjunto com as delegacias federais de saúde e com os governos locais (HOCHMAN; FONSECA, 1999, p. 84).

Impingir sobre os corpos a prática de exercícios físicos para fortalecer fisicamente o corpo e eliminar doenças incorporando hábitos saudáveis fazia parte do projeto de reconstrução nacional inerente a um projeto eugenista - um modo de realizar o branqueamento racial (PEREIRA, 1999; DÁVILA, 2006).

Movendo o imaginário sobre a purificação social, os discursos eugenista, sanitarista e higienista articularam-se e estabeleceram múltiplas interfaces que compõem, desde as origens, faces de um discurso civilizatório. Os discursos higienista e sanitarista adquiriram importância crucial na República, especialmente por potencializar medidas que promoveriam assepsia corporal, doméstica e social (PEREIRA, 1999, p. 84).

168 Esses programas foram irradiados entre os meses de março e maio de 1937. A partir de então, não constou mais a descrição dos temas na programação da emissora.

Associados, Hora de Higiene e Saúde Pública e Aula de Ginástica exprimem a importância do ideal da regeneração física do brasileiro, resultante dos pensamentos eugenista e médico-higienista-sanitarista difundidos no Brasil desde o final do século XIX e no início do século XX.

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