4. STRATEGISK ANALYSE
4.2 I NTERN ANALYSE
4.2.1 KIKK
Os dados censitários são os mais adequados para a realização deste estudo, por cobrirem de forma mais completa as características investigadas. De fato, os dados que permitem realizar a análise das uniões inter-raciais são os dados da amostra do Censo Demográfico, à qual foi aplicado o questionário mais completo, com um número maior de informações individuais, tais como raça/cor e religião. Os dados foram obtidos no site do IPUMS (Integrated Public Use Microdata Series)26, que traz dados censitários para vários países, inclusive o Brasil, para diversos períodos. A vantagem de se utilizar essa base de dados é sua padronização, que permite a comparabilidade dos dados de diversos países. Como o último Censo Demográfico completo foi realizado pelo IBGE (Instituto Brasileira de Geografia e Estatística) em 201027, mas seus dados ainda não estão disponíveis, serão utilizados os dados disponíveis mais recentes, do ano 200028. A análise será feita também para os anos censitários anteriores (1980 e 1991), buscando contemplar as mudanças que por ventura ocorreram nesse período de 20 anos.
26 https://international.ipums.org/international/
27 Em 2007, foi realizada uma contagem da população pelo IBGE. No entanto, foram pesquisados apenas os municípios com até 170.000 habitantes. Os dados de 2010 ainda não estão disponíveis.
28 Havia a possibilidade de se trabalhar com a PNAD, que possui dados mais recentes do que o Censo, no entanto, ela não investiga a religião. Por isso, essa fonte de dados não foi considerada.
Considerando que a análise proposta será feita a partir dos dados dos casais, ou seja, dados sobre a mulher e seu marido ou companheiro, cabe fazer um aparte referente à análise da família. A forma de definição da família dada pelo IBGE, já apresentada no capítulo 2, nesse caso, é diferente das abordagens teóricas nas quais a família pode se estender ao domicílio. Os dados censitários também não permitem a reconstituição de famílias que residem em domicílios separados. No entanto, são os dados disponíveis para se estudar os arranjos familiares (Alves e Cavenaghi, 2004). Portanto, é o domicílio o ponto de partida para a análise das famílias e das uniões.
Um domicílio é o local que serve de moradia e pode conter mais de uma família. Por isso, apesar da presença de famílias conviventes dentro dos domicílios, para a análise que se propõe o importante é a formação do casal. Nesse caso, nos domicílios que possuem mais de uma família, compostas pela unidade do casal, foram consideradas quantas famílias houvesse, para garantir a independência entre as observações. Entretanto, esse procedimento foi feito para uma proporção pequena da população, pois o percentual de pessoas que vivem em domicílios com apenas uma família era bastante alto nos três períodos considerados. Em 1980, haviam 96,1% nesta situação; em 1991 este percentual era de 95,7% e em 2000, 95,5%.
3.1.1 Preparação dos dados
O foco de estudo será nas mulheres de 20 a 29 anos e seus maridos ou companheiros nos Censos de 1980, 1991 e 2000. A escolha dessa coorte se deveu ao fato de que a idade à primeira união, tanto formal quanto consensual, ocorre nesse intervalo etário. Além disso, ao analisar essas mulheres, espera-se que a união tenha relativamente pouco tempo e que os níveis de escolaridade não tenham se alterado desde o início do relacionamento entre os parceiros. Esse fator é importante para captar de forma mais precisa os diferenciais de escolaridade que operaram na escolha do cônjuge.
Para tanto, foi preciso preparar a base de dados para contemplar apenas o objeto de análise. Assim, são apresentadas, passo a passo, as etapas realizadas. Todas essas etapas foram feitas para cada ano censitário, separadamente:
a) em primeiro lugar, foram eliminadas da base de dados todas as mulheres com idades abaixo de 20 anos e acima de 29 anos;
b) em segundo lugar, foram eliminadas todas as pessoas que se declaram de raça/cor amarela, indígena ou ignorada, que representam menos de 1% da população brasileira;
c) em seguida, foram mantidos na base de dados apenas as chefes ou cônjuges dentro de cada família;
d) o próximo passo foi criar, para cada mulher de 20 a 29 anos, casada ou unida (seja ela responsável pelo domicílio ou cônjuge), variáveis referentes às características dos seus maridos ou companheiros, por meio da ligação do número de série do domicilio associado ao número da família;
e) após a criação de informações dos maridos ou companheiros para todas as mulheres casadas ou unidas, foi possível apagar todos os homens da base de dados, restando apenas as mulheres de 20 a 29 anos com suas características e as características de seus maridos ou companheiros;
f) por fim, foram excluídas as mulheres cujos maridos tinham idade inferior a 15 ou superior a 80 anos (valores muito extremos); sem informação sobre tipo de união e sem declaração de escolaridade tanto da mulher quanto do homem. Também foram excluídas as informações das mulheres e de seus maridos e companheiros que declararam ter “outra religião”. Como essa é uma categoria muito heterogênea, para o estudo de endogamia e exogamia por religião, não faz sentido considerar que o casal possui a mesma religião quando ambos estão nessa categoria, pois ainda assim podem ter religiões diferentes.
Assim, permaneceram as seguintes observações por etapa da construção da base de dados:
TABELA 2: Número de observações da base de dados para os anos censitários, Brasil, 1980, 1991 e 2000
1980 1991 2000
• Observações totais 5.870.467 8.522.740 10.136.022
• Observações das mulheres de 20 a 29 anos; brancas, pardas
ou pretas; responsáveis pela família ou cônjuge 1.372.919 2.006.910 2.431.529 • Observações dos casais formados (informações dessas
mulheres e seus maridos ou companheiros) 645.908 852.196 934.204 • Observações apenas das mulheres de 20 a 29 anos casadas
ou unidas 322.954 426.098 467.102
• Observações das mulheres de 20 a 29 anos casadas ou unidas, excluindo aquelas com maridos com idade inferior a 15 ou superior a 80 anos, sem informação sobre tipo de união, sem declaração de escolaridade da mulher ou do homem ou com declaração de "outra religião", tanto para a mulher quanto para
seu cônjuge 312.611 411.715 444.118
Fonte: Microdados dos Censos Demográficos, IBGE - 1980, 1991 e 2000
3.1.2 Variáveis criadas
Num primeiro momento, será elaborada uma caracterização das uniões intra e inter-raciais com base nas variáveis sócio-demográficas. Essas variáveis serão operacionalizadas da seguinte forma:
- raça/cor: como essa é a variável chave deste estudo, num primeiro momento pensou-se em analisá-la de duas formas, a primeira com as categorias preta e parda analisadas separadamente e a segunda com essas duas categorias juntas, formando a categoria “negra”. No entanto, o agrupamento das categorias preta e parda mostrou-se prejudicial para a compreensão das idiossincrasias das uniões inter-raciais; portanto, a análise foi feita apenas para as três categorias de raça/cor separadas. Como já mencionado, os indígenas e amarelos não serão considerados por representarem menos de 1% da população brasileira. Além disso, como as uniões inter-raciais são um evento de menor freqüência, o uso dessas categorias de raça/cor poderia prejudicar as análises estatísticas. Embora nos censos a ordem das categorias seja branca, preta e parda, para fazer a análise das diferenças entre os casais intra e inter-raciais, será utilizada a ordem branca, parda e preta, pela gradação de acordo com os diferenciais encontrados na hierarquização de status na sociedade, como já explicado no capítulo 2;
- escolaridade: a mensuração dessa variável será obtida por meio dos anos de educação formal do indivíduo e também das diferenças de níveis de escolaridade entre os parceiros de raça/cor distintas. A categorização será feita da seguinte forma: 0 a 3, 4 a 8, 9 a 11 e 12 anos ou mais de escolaridade29;
- religião: essa variável, por ser mais complexa e apresentar muitas categorias, será tratada de modo que se ajustem os tipos de religiões compatíveis para formar outras categorias de análise. Por exemplo, há dezenas de religiões denominadas “evangélicas”, mas que podem possuir diferenças importantes de doutrina religiosa. Por isso, as denominações religiosas foram agrupadas em categorias semelhantes, de acordo com as perspectivas teológicas e organizacionais, buscando uma melhor forma de análise. Assim, as categorias de análise serão: católicos, protestantes tradicionais (protestantismo histórico), pentecostais e sem religião. A categoria “outras religiões” não foi analisada, por ser muito heterogênea, não sendo possível identificar a endogamia por religião apenas considerando essa categoria agrupada. No caso da religião, espera-se um efeito distinto: a forma de compensação das uniões inter-raciais deverá ocorrer via o mesmo de tipo de fé, ou seja, aceita-se um parceiro de raça/cor distinta, desde que ele possua a mesma religião.
Embora saúde/vitalidade tenha sido mencionada no capítulo 2 como um fator importante no mercado de casamentos, não há variáveis que possam medir essa característica diretamente. No caso do Brasil, os Censos de 1991 e 2000 trazem questões sobre deficiência, no entanto, como os percentuais da prevalência dessas características são muito baixos, principalmente quando desagregados pelas categorias de raça/cor e tipo de deficiência, essas dimensões deixam de ser uma alternativa de análise.
Outra variável mencionada como uma característica considerada importante para a escolha do cônjuge e também determinante da estabilidade marital (Leher e
29 Outras categorizações seriam possíveis. No entanto, a escolha dessa divisão se deu por representar as categorias que distinguem o status de se ter determinado nível de escolaridade. Por exemplo, entre 0 ou 3 anos de escolaridade não há muita diferença, mas, na prática significa o nível mais baixo de escolaridade, ao passo que ter 4 anos de escolaridade pode refletir positivamente no mercado de trabalho e que, por sua vez, pode ser um fator importante também na escolha do parceiro. Essa divisão é especialmente importante considerando que mais de 50% de mulheres e homens têm até 8 anos de escolaridade.
Chiswick, 1993), a idade também é uma variável que não será contemplada na análise que se propõe. Como o grupo de estudo são as mulheres de 20 a 29 anos, e seus cônjuges estão numa faixa de idade de 15 a 80 anos, a variabilidade das diferenças de idade compromete a análise estatística. A utilização da variável idade, ou a diferença de idade entre os parceiros, pode gerar um viés na estimação das probabilidades, dada a maior variabilidade de idade dos homens. Além disso, é importante ressaltar que a escolaridade também é uma variável marcadora de coorte. Por exemplo, maridos com uma escolaridade muito mais baixa pode ser um indicativo de uma maior diferença de idade. Por isso, o enfoque foi dado nas características de escolaridade e religião e sua relação com a raça/cor dos cônjuges, analisando todos os casais, e, posterioremente, separando os casais em casamentos formais e em uniões consensuais, considerando os três anos censitários: 1980, 1991 e 2000.
Todas as análises, tanto a descritiva quanto a mais analítica, foram processadas utilizando o software Stata, versão 10.