A presente tese teve como um de seus objetivos a elaboração de um modelo para a avaliação do capital intelectual dos cursos de mestrado profissional em administração no Brasil, tendo como referência outros dois modelos de avaliação de CI:
• demonstração de capital intelectual utilizado pelas universidades austríacas
(Wissensbilanz);
• demonstração de capital intelectual das universidades (ICU − Intellectual Capital of Universities) elaborado pelo Observatório das Universidades
Europeias (OEU).
Esses dois demonstrativos, conforme apresentado no segundo capítulo, representam as principais iniciativas no mundo para a avaliação do capital intelectual em instituições de ensino superior registradas até o presente momento. Porém o modelo austríaco é elaborado anualmente pelas universidades desse mesmo país, sendo uma obrigação legal, imposta pelo governo. A segunda iniciativa foi um estudo aplicado para a implementação da demonstração de capital intelectual nas universidades, com suporte de importantes países da Comunidade Europeia, tendo como objeto de estudo de caso a Universidade Autônoma de Madrid.
Embora o modelo proposto neste trabalho tenha a estrutura muito semelhante à adotada por esses dois demonstrativos, buscou-se criar uma identidade própria, já que o contexto educacional do Brasil é bastante diferente do encontrado nos países europeus. Além disso, a adoção de um modelo de gestão ou avaliação deve ser cuidadosamente avaliada quando aplicado a ambientes diferenciados. Nesse caso, a proposta deste trabalho é elaborar um modelo voltado apenas para os cursos de mestrado profissional em administração do território brasileiro, o que torna esta pesquisa bastante específica, requerendo um rol de indicadores de avaliação diferente daquele adotado por modelos que pretendem avaliar toda uma universidade, constituída por seus diferentes departamentos e programas.
6.1. Estrutura do modelo de avaliação de capital intelectual
O modelo de avaliação de capital intelectual proposto nesta tese foi estruturado em três diferentes seções, seguindo o padrão adotado pelos modelos Wissensbilanz austríaco e ICU. O modelo europeu, em sua primeira seção, aborda a visão das instituições de ensino, apresentando seus principais objetivos e sua estratégia, além dos fatores-chave para o alcance desses objetivos (OBSERVATORY OF THE EUROPEAN UNIVER- SITY, 2006).
Para ajudar a desenvolver a primeira seção, o modelo sugere algumas perguntas que devem ser respondidas, criando, assim, uma narrativa dos ativos intangíveis da instituição, a saber:
• Quais são os principais serviços que a organização oferece? • Quais são os principais objetivos da instituição?
• Quais são os diferenciais da instituição avaliada em relação a seus concorrentes? • Quais recursos (humano, relacional e organizacional) são necessários para
alcançar dos objetivos e possibilitar a prestação dos serviços com a garantia de qualidade?
• Como estão os recursos intangíveis relacionados à geração de valor da
instituição?
• Qual é a combinação de recursos tangíveis e intangíveis que criam valor?
A segunda seção propõe-se a descrever os recursos intangíveis da instituição e as diferentes atividades que estão sendo desenvolvidas para aumentar o valor desses recursos. Seguindo a mesma estrutura de desenvolvimento da primeira seção, as questões que devem ser respondidas na segunda são:
• Quais recursos intangíveis existentes devem ser fortalecidos? • Quais novos recursos intangíveis são necessários?
• Quais atividades podem ser empreendidas? • Quais atividades devem ser priorizadas?
A terceira e última seção deveria apresentar o sistema de indicadores para os recursos e atividades intangíveis, entretanto, este demonstrativo de capital intelectual não evidencia os indicadores relacionados às atividades intangíveis, por considerarem informações muito delicadas em termos de confidencialidade (OBSERVATORY OF THE EUROPEAN UNIVERSITY, 2006).
Já o demonstrativo austríaco, chamado de Wissensbilanz, cuja tradução literal seria “balanço do conhecimento”, foi desenvolvido em duas seções, sendo a primeira delas desmembrada em duas subseções. A primeira é conhecida como “Capital Intelectual − Parte Narrativa”. Como o próprio nome indica, nesta primeira etapa são descritos importantes aspectos relacionados aos quesitos considerados relevantes para a avaliação do capital intelectual das instituições de ensino.
A legislação austríaca (ÁUSTRIA, 2010) indica os seguintes itens a serem abordados pelos demonstrativos de capital intelectual em sua primeira seção:
• objetivos estratégicos; • organização;
• garantia da qualidade;
• desenvolvimento dos recursos humanos; • pesquisa e desenvolvimento;
• estudos e formação (aderência à declaração de Bolonha); • objetivos sociais;
• internacionalização; • cooperação;
• biblioteca e instalações especiais; • estrutura construída;
• prêmios da instituição (recebidos pelos docentes); • resumo.
A segunda parte da primeira seção apresenta os principais indicadores de capital intelectual da universidade, segregando-os em três etapas:
• capital intelectual (capitais humano, relacional e estrutural); • processos-chave (ensino e pesquisa);
• resultados e impacto dos principais processos.
No entanto, algumas renomadas universidades adotam o procedimento de divulgação da primeira seção do demonstrativo de capital intelectual de maneira não segregada, apresentando a parte narrativa junto aos indicadores, como é o caso da Universidade de Salzburg (DER PARIS LODRON UNIVERSITÄT SALZBURG, 2011), Universidade de Botânica de Viena (UNIVERSITÄT FÜR BODENKULTUR WIEN, 2012) e da Universidade de Graz (KARL-FRANZENS-UNIVERSITÄT GRAZ, 2011).
A segunda seção, realizada somente pelas universidades públicas − que recebem recursos governamentais −, apresenta um relatório sobre a execução das metas e dos objetivos do contrato de performance (Leistungsvereinbarungen), que definem as tarefas da universidade (estudos oferecidos, recursos humanos, programas de pesquisa, cooperações e metas sociais) e do governo (alocação de recursos), e atribui um orçamento global para as IES, com a duração de três anos, quando, então, são formalizados novos contratos (LEITNER, 2002).
Conforme comentado anteriormente, embora o modelo de avaliação do capital intelectual dos cursos de MPA elaborado neste trabalho tenha sido pautado com base na estrutura dos modelos austríaco e europeu, uma maior semelhança pode ser atribuída a este último, em função da forma mais clara como demonstra os objetivos da instituição, os principais elementos que devem ser avaliados para o alcance desses objetivos e os indicadores que devem ser acompanhados.
O modelo de avaliação de capital intelectual aplicado aos cursos de mestrado profissional em administração brasileiros apresenta, em sua primeira seção, o plano estratégico do curso, com base em seu planejamento de curto prazo e em sua estratégia. Essa seção, que será explicada posteriormente, será desenvolvida em modo de narrativa
e terá como fio condutor uma série de dez perguntas que deverão ser respondidas pela instituição.
A segunda seção irá abordar os principais ativos intangíveis críticos para a geração de valor dos cursos de MPA, com o detalhamento das atividades intangíveis de cada ativo e os investimentos intangíveis que estão sendo realizados e os que ainda serão efetuados, para que sejam alcançados os objetivos estratégicos definidos na primeira seção.
Por fim, a terceira etapa do modelo será composta pelos indicadores que irão avaliar o capital intelectual do curso, para verificar se os objetivos e as estratégias traçados estão sendo alcançados ao longo do tempo. Essa ordem apoia-se nas diretrizes das Orientações Dinamarquesas − Danish Guidelines − (DANISH MINISTRY OF SCIENCE, TECHNOLOGY AND INNOVATION, 2003) e no projeto MERITUM (COMISSÃO EUROPEIA, 2002), que consideram a criação do sistema de indicadores como a última seção de um demonstrativo de capital intelectual.
A seguir, no quadro 18, será apresentado o resumo da estrutura do modelo de demonstração de capital intelectual austríaco e o modelo desenvolvido pelo Observató- rio das Universidades Europeias nas duas primeiras colunas, respectivamente. Já na terceira coluna, será demonstrado o modelo proposto neste trabalho.
Após apresentação da proposta da estrutura do modelo de avaliação de capital intelec- tual aplicado aos cursos de MPA brasileiros, serão descritos, a seguir, os processos de elaboração de cada uma das seções desse modelo, possibilitando, assim, o entendimento de todas as variáveis utilizadas e seus objetivos.
Quadro 18 − Estrutura das demonstrações de capital intelectual
Modelo OEU1 Modelo austríaco2 Modelo proposto Seção 1: visão da
instituição